Mercado Agrícola - 7.jul.2026
Soja ganha força com clima nos EUA e demanda chinesa
O Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB) consolidou, em 18 safras, um banco de dados com 67.464 inscrições, 9.830 áreas auditadas e registros de 2.203 municípios. O histórico reúne informações geradas por quase 46 mil produtores e consultores. Segundo Sergio Abud, vice-presidente do CESB, os dados mostram uma média próxima de 85 sacas de soja por hectare no período. (Leia sobre a edição 2025/26 aqui)
Na safra mais recente, a média nacional indicada pela Companhia Nacional de Abastecimento ultrapassou 61 sacas por hectare. O Rally da Safra registrou média próxima de 62 sacas por hectare. Já a média do CESB chegou a 97 sacas por hectare. Para Abud, os números mostram a diferença entre produtividade média e produtividade obtida em áreas com manejo voltado à alta eficiência.
O recorte regional mostra diferenças importantes. Na região Norte, a média citada chegou a 80,68 sacas por hectare. No Nordeste, alcançou 104 sacas por hectare. Nas regiões Centro-Oeste, Sudeste e Sul, a média ficou próxima de 95 sacas por hectare. Segundo Abud, esses resultados precisam ser analisados dentro do sistema produtivo de cada ambiente.
Nas regiões Norte e Nordeste, muitos produtores dependem de uma única safra anual. A oferta climática limita a sucessão de cultivos. Nesse cenário, a soja concentra grande parte da rentabilidade da propriedade. Por isso, falhas de manejo podem comprometer o resultado econômico anual. Para Abud, nessas regiões a alta produtividade assume papel de estratégia econômica.
No Centro-Oeste, no Sudeste e no Sul, muitas áreas operam com duas safras. O sistema pode combinar soja e milho, ou soja e algodão. A segunda safra amplia a receita anual e dilui custos fixos. Ao mesmo tempo, exige mais atenção com janela logística, máquinas e gestão. O resultado econômico depende do desempenho do sistema, e não apenas da soja.
O CESB também observa avanço da produtividade em áreas irrigadas e de sequeiro. Nas últimas cinco safras, a média das áreas irrigadas chegou a 99 sacas por hectare na última safra citada. A tendência linear aponta ganho aproximado de três sacas por hectare ao ano. Em áreas de sequeiro, o avanço aproximado chega a quatro sacas por hectare ao ano. Segundo Abud, os dados envolvem cerca de mil áreas auditadas por ano.
O clima aparece como um dos fatores centrais para a definição das estratégias de manejo. Abud citou informações de Bárbara Centelhas sobre os efeitos do El Niño no Brasil. O fenômeno não representa apenas seca ou chuva de forma isolada. Ele provoca extremos opostos em diferentes regiões do território brasileiro.
No Centro-Norte, o El Niño tende a criar zonas de alerta térmico e hídrico. O padrão citado envolve redução acentuada do volume de chuva e aumento das ocorrências de ondas de calor. Nessa condição, a soja pode sofrer estresse severo na fase reprodutiva. O estresse limita o desenvolvimento, a formação de vagens e o enchimento de grãos. A senescência antecipada também pode provocar aborto de flores e vagens.
No Sul e no Centro-Sul, o mesmo fenômeno pode trazer excesso de chuva. O maior volume hídrico pode favorecer a produtividade em anos nos quais a água limita o rendimento. Mas o excesso também aumenta riscos de encharcamento, baixa oxigenação do sistema radicular, dificuldade de colheita e maior pressão de pragas e doenças. A maior nebulosidade reduz a radiação solar disponível.
A estratégia muda conforme a região. No Centro-Norte, o foco recai sobre a retenção e o acesso da água no solo. Toda chuva precisa infiltrar e permanecer disponível nos microporos. Para isso, o solo precisa apresentar macroporos em proporção adequada. No Sul e no Centro-Sul, o foco envolve drenagem rápida e proteção fitossanitária. A mesma estrutura física do solo ajuda a infiltrar água e reduzir encharcamento.
Para Abud, a base da resiliência climática reside na construção de solos com fertilidade química, integridade física, atividade biológica e arquitetura radicular adequada. Sistemas vulneráveis apresentam raízes superficiais. Eles respondem com rapidez à falta ou ao excesso de água. Sistemas resilientes apresentam raízes profundas e exploram melhor o perfil do solo. Isso amplia o acesso à água e aos nutrientes.
Abud destacou dados do professor Paulo Sentelhas sobre os fatores determinantes da produtividade. Radiação solar, temperatura, dióxido de carbono, genética e arranjo de plantas definem o potencial produtivo. Segundo os modelos citados, lavouras brasileiras podem superar 200 sacas por hectare em potencial. A produtividade atingível depende da água. Com disponibilidade hídrica, os modelos indicam possibilidade próxima de 180 sacas por hectare.
A produtividade real depende da eficiência agronômica. Essa eficiência representa a capacidade de reduzir perdas por problemas de fertilidade, pragas, doenças, plantas daninhas, nematoides e estresses abióticos. Segundo Abud, mesmo com fungicidas e tecnologias disponíveis, as perdas ainda permanecem altas. Ele também citou os prejuízos silenciosos causados por nematoides e a mudança constante dos problemas com plantas daninhas.
Na visão do CESB, a produtividade começa a se definir na semeadura. A partir do momento em que a plantadeira deposita a semente no solo, o manejo passa a buscar a redução das perdas. Por isso, o comitê organiza a discussão técnica em quatro frentes: implantação, nutrição, fisiologia e proteção de plantas.
A implantação envolve genética, qualidade de sementes, tratamento de sementes, plantabilidade e estande. A nutrição aborda fertilidade química, física e biológica, além da construção do perfil do solo. A fisiologia busca explicar o funcionamento da planta, a eficiência fotossintética, o estresse abiótico e o peso de grãos. A proteção de plantas trata do manejo integrado, do uso de ferramentas químicas e biológicas e da redução de perdas.
O objetivo final envolve sistemas mais eficientes, resilientes e rentáveis. Segundo Abud, alta eficiência agronômica leva à diluição dos custos fixos e reduz o custo por saca produzida. A margem líquida passa a orientar a avaliação econômica. O CESB trabalha com a meta de produtividade associada a margem líquida acima de 40 por cento. Para Abud, produzir mais na mesma área constitui a estratégia de maior impacto na margem do produtor.
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