Ácaro dos citros apresenta alta resistência à abamectina

Pesquisa identifica resistência cruzada a quatro acaricidas e aponta participação de enzimas de detoxificação

09.10.2026 | 06:26 (UTC -3)
Revista Cultivar

Pesquisadores identificaram resistência à abamectina 2.278,44 vezes maior em uma linhagem do ácaro-vermelho-dos-citros (Panonychus citri), em comparação com uma linhagem suscetível, na China. O estudo também revelou resistência cruzada ao benzoato de emamectina, piridabem, fenpropatrina e ciflumetofem. As análises apontaram herança autossômica, poligênica e incompletamente recessiva.

A equipe desenvolveu uma linhagem quase isogênica resistente à abamectina, denominada NIL-Aba. O procedimento envolveu oito gerações de retrocruzamentos entre uma população resistente e uma linhagem suscetível. Os pesquisadores mantiveram pressão de seleção com abamectina durante o processo.

População original

A população resistente original, denominada NN-Aba, teve origem em uma coleta realizada em 2019, em Nanning, na província de Guangxi, China. A linhagem suscetível, identificada como SS, teve origem em plantas de laranja-doce coletadas em Chongqing, em 2015. Desde então, permaneceu em laboratório sem exposição a pesticidas.

Após oito ciclos de retrocruzamentos, a linhagem apresentou resistência 242,50 vezes superior à população suscetível. A seleção com abamectina prosseguiu por outras 21 gerações. Ao final, a concentração letal mediana (CL50) alcançou 72,91 miligramas por litro, contra 0,032 miligrama por litro na linhagem suscetível. A diferença correspondeu ao fator de resistência de 2.278,44 vezes.

A utilização de linhagens quase isogênicas permite avaliar características associadas à resistência com menor interferência de diferenças genéticas entre populações. O método possibilitou investigar o padrão de herança, a resistência cruzada e os mecanismos bioquímicos envolvidos na resposta à abamectina.

Resistência cruzada

Os bioensaios revelaram resistência cruzada elevada ao benzoato de emamectina, com fator de 2.841,04 vezes. Para o piridabem, o fator alcançou 115,21 vezes. Os dois compostos apresentaram os maiores níveis de resistência cruzada entre os seis acaricidas avaliados.

A fenpropatrina apresentou fator de resistência de 15,36 vezes. Para o ciflumetofem, o valor chegou a 10,73 vezes. Os pesquisadores classificaram ambos os resultados como resistência moderada.

Os testes não identificaram resistência cruzada positiva ao bifenazato e ao propargito. Os fatores de resistência corresponderam a 0,14 e 0,38, respectivamente. Esses valores indicaram maior suscetibilidade da linhagem NIL-Aba aos dois compostos em comparação com a linhagem SS.

Segundo a pesquisa, o perfil de resistência cruzada exige atenção na escolha de acaricidas para programas de rotação. A utilização de produtos com resistência cruzada positiva pode comprometer estratégias de manejo destinadas à preservação da eficácia da abamectina.

Herança envolve múltiplos genes

Os cruzamentos recíprocos entre indivíduos resistentes e suscetíveis indicaram herança autossômica da resistência à abamectina. As concentrações letais medianas das duas populações híbridas da primeira geração apresentaram valores próximos, de 0,146 e 0,137 miligrama por litro. Os resultados não indicaram efeito materno detectável.

Os graus de dominância alcançaram -0,565 e -0,584 nos dois cruzamentos. Esses valores caracterizaram resistência incompletamente recessiva. A resposta dos descendentes híbridos ficou mais próxima da linhagem suscetível do que da resistente.

Os pesquisadores também investigaram a quantidade de genes envolvidos na resistência. As análises das populações descendentes dos retrocruzamentos identificaram diferenças significativas entre as mortalidades observadas e os valores esperados sob a hipótese de herança monogênica.

Os resultados levaram à rejeição da hipótese de controle por um único gene. A resistência apresentou natureza poligênica, com participação de múltiplos fatores genéticos. O estudo não determinou o número de genes envolvidos nem identificou os loci responsáveis.

Segundo os pesquisadores, a herança poligênica pode dificultar o monitoramento da resistência e sua reversão após o estabelecimento nas populações.

Enzimas na resistência metabólica

Os ensaios bioquímicos identificaram aumento na atividade de três famílias de enzimas associadas à detoxificação de pesticidas: monooxigenases do citocromo P450, carboxilesterases e glutationa S-transferases.

Na linhagem resistente, a atividade das carboxilesterases apresentou aumento de 1,69 vez em comparação à linhagem suscetível. As monooxigenases P450 registraram atividade 1,61 vez maior. Para as glutationa S-transferases, o estudo relatou aumento de 1,54 vez.

Os experimentos com sinergistas reforçaram a participação dessas enzimas na resistência. A combinação de abamectina com butóxido de piperonila, associado à inibição de enzimas P450, aumentou a toxicidade do acaricida em 2,42 vezes na linhagem resistente.

O fosfato de trifenila, utilizado como sinergista associado às carboxilesterases, produziu aumento de 2,57 vezes na toxicidade da abamectina. O maleato de dietila apresentou efeito menor, com fator de sinergismo de 1,59 vez. Na linhagem suscetível, os três compostos não produziram sinergismo relevante.

Os resultados indicam participação do metabolismo de detoxificação na resistência à abamectina. Os pesquisadores destacam a necessidade de novas investigações para identificar os genes envolvidos e confirmar a contribuição funcional de cada sistema enzimático.

A pesquisa também ressalta a importância da rotação da abamectina com acaricidas sem resistência cruzada positiva. A integração dessas estratégias com métodos não químicos de controle pode contribuir para retardar a evolução da resistência em populações de Panonychus citri e preservar a eficácia do ingrediente ativo nos programas de manejo integrado de pragas (doi 10.1016/j.pestbp.2026.107374).

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