Desafio CESB registra recorde de produtividade em 2026
Produtor de Santa Catarina alcança 156,13 sacas de soja por hectare e vence o Desafio Nacional de Máxima Produtividade
A lagarta-do-cartucho, Spodoptera frugiperda, consolidou-se como uma das principais ameaças globais à segurança alimentar. A praga, nativa das Américas, invadiu áreas da África, Ásia e Oceania. Também registrou incursões iniciais na Europa. Sua capacidade de atacar mais de 350 espécies vegetais amplia o risco para culturas alimentares, fibras e sistemas agrícolas em regiões tropicais e subtropicais.
Revisão assinada por 19 cientistas de diversos países reuniu dados sobre bioecologia, genética e estratégias de controle da espécie (DOI 10.1127/entomologia/4342). O trabalho aponta perdas de produtividade próximas de 70% em algumas regiões. Também cita prejuízos econômicos anuais superiores a 13 bilhões de dólares em mais de 42 países. No milho, os danos podem atingir folhas, colmos tenros, estilos-estigmas e espigas. As larvas se alimentam principalmente durante a noite.
A praga apresenta alto potencial migratório, ampla plasticidade ecológica e grande capacidade reprodutiva. Esses fatores favorecem a invasão de novas áreas. Condições climáticas favoráveis e o comércio global também contribuem para a dispersão. A revisão informa desacordo sobre as rotas exatas de invasão. Uma hipótese indica origem na América do Norte, provavelmente no Caribe, com entrada na África Ocidental e posterior avanço para África subsaariana, Índia, China e Sudeste Asiático. Outro estudo genômico aponta múltiplas introduções independentes na Ásia.
A Europa ainda não registra estabelecimento da praga. O risco, porém, cresce com a migração a partir do Norte da África, o fluxo de mercadorias e pessoas e o aquecimento climático. A revisão estima perdas anuais de até 900 milhões de euros apenas no milho, caso Spodoptera frugiperda se estabeleça no continente europeu.
O inseto possui duas linhagens simpátricas, morfologicamente idênticas. Uma linhagem apresenta preferência por milho e sorgo. A outra apresenta associação com arroz, gramíneas forrageiras, pastagens, alfafa e milheto. Marcadores genéticos no gene Triosephosphate isomerase e no gene mitocondrial Cytochrome oxidase I ajudam na diferenciação. A revisão também relata híbridos entre linhagens em populações de campo, com frequência média próxima de 9% em hospedeiros do grupo milho e 10% em hospedeiros do grupo arroz.
A ampla gama de hospedeiros envolve plantas das famílias Poaceae, Asteraceae e Fabaceae. Milho, arroz e sorgo figuram entre os principais hospedeiros. A praga também danifica trigo, cevada, soja, algodão, cebola, batata e cana-de-açúcar. Na área invadida, pesquisadores projetam impactos negativos em espécies arbóreas de valor econômico, como árvore-do-incenso, seringueira e coqueiro.
A adaptação da lagarta envolve mecanismos de desintoxicação. Spodoptera frugiperda usa enzimas como citocromos P450, carboxilesterases, UDP-glicosiltransferases, glutationa S-transferases e transportadores ABC. Esses sistemas ajudam o inseto a neutralizar metabólitos secundários de plantas e inseticidas sintéticos. A revisão cita 244 casos de resistência a inseticidas até junho de 2025, envolvendo 47 ingredientes ativos, entre organofosforados, piretroides, diamidas e reguladores de crescimento.
O manejo com microrganismos recebe destaque no estudo. Fungos entomopatogênicos como Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae apresentam potencial contra ovos e larvas. Isolados de Metarhizium anisopliae alcançaram mortalidade superior a 93% em testes com ovos e larvas. A eficácia em campo, porém, depende de temperatura, umidade e radiação ultravioleta. A revisão defende formulações mais estáveis e seleção de isolados locais.
Fungos endofíticos também aparecem como alternativa. Aplicações em milho, por pulverização foliar, inoculação de sementes ou drench no solo, podem promover colonização interna das plantas e reduzir o desempenho larval. Em um estudo citado, Beauveria bassiana e Metarhizium anisopliae aplicados ao solo causaram até 87% de mortalidade de larvas em milho. A adoção ampla ainda enfrenta limitações, como colonização irregular e menor eficácia em condições de campo.
Produtos à base de Bacillus thuringiensis também integram as estratégias de controle. A revisão informa toxicidade de várias cepas contra larvas em laboratório. No campo, o controle pode falhar porque as lagartas se alojam no cartucho e em estruturas reprodutivas do milho. Plantas transgênicas Bt oferecem outra via de manejo, com proteínas como Cry1F, Cry2Ab, Vip3Aa e Cry1A.105. A resistência prática à Cry1F já foi documentada em populações das Américas.
A combinação de agentes biológicos e inseticidas pode elevar a eficiência. A associação de Beauveria bassiana Bb88 com espinosade aumentou a mortalidade larval em 34% em comparação ao espinosade isolado. A combinação de Beauveria bassiana GHA com benzoato de emamectina resultou em 92,6% de mortalidade larval, ante até 70% com o inseticida isolado. A compatibilidade depende de dose, momento de aplicação, formulação e fisiologia dos agentes envolvidos.
A revisão também aponta ferramentas emergentes, como interferência por RNA, edição gênica CRISPR-Cas9 e manipulação de simbiontes microbianos. A interferência por RNA enfrenta dificuldades de entrega oral, degradação no intestino médio e baixa estabilidade em campo. Nanocarreadores e polímeros mostraram potencial em estudos de laboratório. A edição gênica pode ajudar na avaliação funcional de genes ligados a metabolismo, desenvolvimento, detoxificação e sinalização química.
O manejo integrado aparece como eixo central. A revisão cita rotação de culturas, consórcios com plantas aromáticas, plantio antecipado, conservação de inimigos naturais, parasitoides, armadilhas com feromônio e uso criterioso de inseticidas e biopesticidas. O estudo destaca a necessidade de rotação de modos de ação para reduzir a seleção de resistência. Também aponta diferenças econômicas entre programas de manejo integrado em países como Índia e Burkina Faso.
As mudanças climáticas podem alterar a distribuição da praga. Modelos indicam avanço para novas regiões, incluindo Sul e Leste da Europa, Ásia Central e áreas de maior altitude na África Oriental e nos Andes. Temperaturas mais altas aceleram o desenvolvimento e reduzem o tempo necessário para completar unidades térmicas. Alterações na chuva podem ampliar a disponibilidade de hospedeiros ou interromper o ciclo do inseto em situações de excesso hídrico.
Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura