Pesquisadores elencam 39 espécies de Colletotrichum associadas aos citros

Estudo aponta ampla diversidade, infecções latentes e desafios para diagnóstico, manejo e biossegurança

15.09.2026 | 07:52 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
doi 10.3390/jof12090687
doi 10.3390/jof12090687

Pesquisadores identificaram 39 espécies de Colletotrichum associadas aos citros em diferentes regiões do mundo. O grupo reúne patógenos capazes de infectar folhas, ramos, pétalas e frutos. Algumas espécies também permanecem como endófitos ou em infecções latentes. Essa diversidade amplia os desafios para diagnóstico, manejo fitossanitário e avaliação de riscos de introdução de patógenos em novas áreas.

Os cientistas apontam Colletotrichum gloeosporioides como a espécie mais frequente em citros (doi 10.3390/jof12090687). O fungo ocorre em vários hospedeiros e pode colonizar diferentes tecidos da planta. Colletotrichum karstii ocupa posição de destaque entre as espécies do complexo boninense. Colletotrichum siamense também apresenta distribuição ampla e participação em doenças de frutos, folhas e ramos.

Doenças associadas

As doenças associadas ao gênero incluem antracnose, seca de ramos e ponteiros, queda prematura de frutos pós-florada e antracnose do limão-galego. A antracnose ocorre antes e depois da colheita. Os sintomas incluem lesões necróticas deprimidas, manchas em folhas, seca de tecidos e podridões em frutos. Infecções pós-colheita podem ter origem ainda no campo.

O fungo pode penetrar frutos imaturos e permanecer em estado quiescente. O desenvolvimento da doença ocorre durante a maturação ou após a colheita. Alterações fisiológicas do fruto favorecem essa transição. O amadurecimento reduz algumas barreiras de defesa e aumenta a disponibilidade de açúcares. O patógeno então retoma o crescimento e amplia as lesões.

O estudo registra perdas de frutos entre 90% e 100% em episódios de antracnose sob condições ambientais favoráveis à infecção. Esses valores correspondem a situações relatadas na literatura e não representam uma perda média da citricultura. Para a queda prematura de frutos pós-florada, trabalhos realizados no Brasil registraram perdas de produtividade de até 93% quando o florescimento coincidiu com períodos chuvosos.

Umidade elevada

A umidade elevada exerce papel central no ciclo epidemiológico. Espécies de Colletotrichum apresentam preferência por temperaturas entre 25 e 28 graus Celsius. Estruturas de frutificação liberam esporos após a ocorrência de condições favoráveis. Chuva, vento e irrigação promovem a dispersão para outros órgãos da planta.

Após a germinação, muitas espécies formam apressórios. Essas estruturas acumulam compostos osmoticamente ativos e desenvolvem pressão de turgor de até oito megapascais. A pressão permite a formação de uma estrutura de penetração capaz de atravessar a cutícula e a parede celular da epiderme. Algumas espécies também utilizam estômatos ou ferimentos como vias de entrada.

Esse mecanismo tem implicação direta nos testes de patogenicidade. Os pesquisadores alertam para o uso exclusivo de inoculações após ferimentos artificiais. A remoção da barreira formada pela cutícula e pela epiderme pode superestimar a capacidade de infecção. Ensaios com inoculação sem ferimento precisam integrar a avaliação de isolados destinados a estudos de risco e patogenicidade.

Trabalhos analisados também indicam ausência de especificidade rígida por hospedeiro ou tecido em diversas espécies. Isolados obtidos de um órgão podem provocar sintomas em outros tecidos. Alguns fungos associados aos citros também ocorrem em plantas de outros gêneros. Experimentos com tecidos feridos demonstraram infecção cruzada entre diferentes hospedeiros. Os pesquisadores ressalvam a necessidade de cautela na interpretação desses resultados, pois o ferimento artificial facilita a entrada do patógeno.

Comportamento latente

O comportamento latente amplia o problema para a biossegurança. Colletotrichum gloeosporioides e Colletotrichum karstii, por exemplo, já foram isolados de tecidos assintomáticos. Outros integrantes do gênero aparecem como endófitos. Material vegetal sem sintomas pode, portanto, transportar o fungo sem detecção visual durante inspeções. Folhas mortas também podem abrigar espécies sapróbias e funcionar como fonte de inóculo.

A distribuição geográfica depende ainda da adaptação térmica. Colletotrichum gloeosporioides mantém crescimento em ampla faixa de temperatura e aparece em regiões tropicais, subtropicais, mediterrâneas, temperadas e semiáridas. Colletotrichum siamense apresenta crescimento ótimo próximo de 30 graus Celsius e aparece com frequência em regiões tropicais. Colletotrichum acutatum e Colletotrichum karstii apresentam ótimo próximo de 24 graus Celsius, com redução acentuada do crescimento em temperaturas mais altas.

Identificação correta

Para os pesquisadores, a identificação correta das espécies representa a primeira etapa da avaliação fitossanitária. Parte dos registros históricos utilizou somente características morfológicas, sequências da região ITS ou marcadores insuficientes para separar espécies próximas. Os cientistas recomendam uma abordagem polifásica. O procedimento combina filogenia com vários genes, características morfológicas e informações geográficas e ecológicas.

Métodos moleculares rápidos também podem ampliar a capacidade de inspeção. A PCR quantitativa em tempo real já permite detectar e quantificar diferentes espécies de Colletotrichum em outros sistemas agrícolas, inclusive em tecidos assintomáticos. Os cientistas apontam potencial para o desenvolvimento de ensaios específicos voltados às espécies agressivas associadas aos citros. Um obstáculo envolve a seleção de primers específicos diante do número crescente de espécies próximas.

Os pesquisadores também defendem novos estudos sobre faixa de hospedeiros, agressividade e adaptação ambiental. Bioensaios com diferentes temperaturas, níveis de umidade e hospedeiros podem indicar o potencial de estabelecimento de espécies recém-detectadas. Essas informações permitem estimar riscos para pomares de citros, outras culturas e plantas nativas, além de apoiar medidas de quarentena e programas de melhoramento para resistência.

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