Percevejos ampliam impacto sobre lavouras no mundo

Revisão científica internacional alerta para o avanço dos percevejos e o risco de resistência a defensivos

22.05.2026 | 09:36 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Susan Ellis, Bugwood
Foto: Susan Ellis, Bugwood

Percevejos fitófagos e espécies relacionadas da superfamília Pentatomoidea ampliaram seu impacto sobre culturas agrícolas em várias regiões do mundo. A expansão decorre do aumento das temperaturas, da oferta contínua de plantas hospedeiras em sistemas agrícolas diversificados, do uso excessivo de inseticidas e do comércio internacional de produtos vegetais, segundo revisão científica. O estudo reúne informações sobre pragas de soja, milho, algodão, arroz, trigo, frutas, hortaliças e outras culturas.

Os pesquisadores afirmam que o manejo dessas espécies exige mudança de estratégia. O controle químico ainda ocupa posição central em muitos sistemas. Mas a dependência de inseticidas de amplo espectro elevou riscos ambientais, reduziu inimigos naturais e favoreceu a seleção de populações resistentes. A revisão aponta o controle biológico com parasitoides de ovos como uma das ferramentas com maior potencial de expansão. Também cita semioquímicos, inseticidas botânicos, RNAi, CRISPR, agentes biológicos modificados e tecnologias de monitoramento e previsão como componentes futuros do manejo.

Os pentatomídeos e grupos próximos danificam plantas por alimentação direta. Adultos e ninfas inserem os estiletes nos tecidos vegetais e retiram fluidos. A injúria provoca perda de turgor, deformação, aborto de sementes e frutos e atraso na maturação. O dano afeta a qualidade e a aparência de grãos, frutos e plântulas. Em alguns casos, a alimentação favorece a transmissão de vírus, fitoplasmas, bactérias e fungos.

América do Sul

Na América do Sul, a revisão destaca a importância da ponte verde em sistemas intensivos. Brasil e Argentina mantêm grandes áreas de soja. A sucessão com milho e trigo, além da proximidade com algodão e outras culturas, oferece alimento para percevejos durante boa parte do ano. Esse cenário favorece espécies polífagas e dificulta o manejo em campo.

No Brasil

No Brasil, Euschistus heros assumiu papel central no agroecossistema da soja. A espécie ocorre em soja, algodão, milho e trigo. O artigo relata redução de até 25% na fibra de algodão e de até 30% na produtividade da soja. Também registra participação de Euschistus heros em até 60% dos inseticidas usados na cultura da soja. Diceraeus melacanthus causa danos em plântulas de milho, com necrose, amarelecimento, deformação foliar e perfilhamento. No arroz, Tibraca limbativentris aparece como praga importante, com redução de 17% a 44% na produtividade de sementes.

Foto: Jovenil Jose da Silva, Embrapa
Foto: Jovenil Jose da Silva, Embrapa

A revisão registra avanço de alternativas no Brasil. A liberação massal do parasitoide de ovos Telenomus podisi contra Euschistus heros pode atingir até 90% de parasitismo de ovos em campo. O parasitoide tem comercialização no país desde 2019. O texto também aponta uso de fungos entomopatogênicos e controle biológico conservativo por manejo de plantas daninhas e modelagem de paisagem.

América do Norte

Na América do Norte, Halyomorpha halys ocupa posição de destaque. A espécie invasora tem alta mobilidade e mais de 175 plantas hospedeiras relatadas no continente. O inseto danifica frutas, hortaliças e culturas extensivas, como soja. A revisão também cita Bagrada hilaris, Murgantia histrionica e Nezara viridula como espécies invasoras com importância econômica.

O manejo norte-americano combina amostragem, níveis de ação, controle químico, plantas-armadilha, remoção de hospedeiras daninhas, alteração de datas de plantio e controle biológico. A revisão cita parasitoides de ovos dos gêneros Ooencyrtus, Telenomus e Trissolcus, além das moscas taquinídeas Trichopoda pennipes e Euthera tentatrix. O trabalho também menciona predadores como Podisus maculiventris, Orius insidiosus e Solenopsis invicta.

Europa

Na Europa, Halyomorpha halys aparece como a espécie mais séria entre os percevejos. O artigo registra danos em pomares, oliveiras, videiras, soja, milho, tomate, pimentão, feijão, cereja, avelã, kiwi e outras culturas. A revisão relata perdas estimadas de 600 milhões de euros em 2019 no norte da Itália. Também cita medidas em estudo ou uso, como pulverização localizada, enxofre, terra de diatomáceas, caulim, redes de exclusão, armadilhas multimodais, plataformas de monitoramento em tempo real e sensoriamento remoto.

O controle biológico clássico aparece como alternativa de longo prazo contra Halyomorpha halys na Europa. A revisão cita introduções reguladas de Trissolcus japonicus na Itália a partir de 2020 e liberações de Trissolcus mitsukurii na França desde 2022. Também registra populações adventícias de Trissolcus mitsukurii na Itália e de Trissolcus japonicus na Suíça.

Outras espécies preocupam a agricultura europeia. Nezara viridula expande sua distribuição para o norte, em associação com condições climáticas favoráveis. Pentatoma rufipes emerge como praga de frutíferas no norte da Europa. Palomena prasina também causa danos em pomares e avelã. Em crucíferas, espécies do gênero Eurydema podem causar perdas relevantes, conforme densidade populacional e estádio fenológico das plantas.

Ásia

Na Ásia, o quadro varia conforme região e cultura. No Japão, Eysarcoris aeneus, Eysarcoris lewisi, Eysarcoris ventralis e Niphe elongata causam arroz manchado. Plautia stali, Glaucias subpunctatus e Halyomorpha halys ocorrem em frutíferas. Nezara viridula, Nezara antennata e Piezodorus hybneri causam danos em soja, hortaliças e outras culturas.

Na Coreia, Halyomorpha halys e Plautia stali ganharam importância econômica em leguminosas e frutíferas. O trabalho também cita Dolycoris baccarum, Piezodorus hybneri, Carbula putoni, Chinavia hilaris, Nezara antennata, Eysarcoris aeneus e Scotinophara lurida como espécies associadas a danos em soja, frutas e arroz.

Na China, Tessaratoma papillosa causa perdas em lichia e longan. O trabalho relata perdas de 70% a 90% nessas culturas. Halyomorpha halys ataca maçã, damasco, cereja, feijão, kiwi, pêssego, pera, soja e beterraba. A revisão também registra parasitismo médio de 87% a 91% de Tessaratoma papillosa por Anastatus fulloi em programas chineses.

Oceania

Na Oceania, a revisão destaca Nezara viridula, Musgraveia sulsiventris e Dictyotus caenosus entre as espécies de maior relevância. Nezara viridula ocorre em hortaliças, leguminosas e outras culturas. Musgraveia sulsiventris e Dictyotus caenosus têm origem australiana e integram o grupo de pragas com impacto em sistemas agrícolas locais. O manejo usa inseticidas, ajustes agronômicos e controle biológico, com necessidade de revisão contínua diante de riscos de resistência e mudanças nas práticas de cultivo.

Os cientistas sustentam que o manejo de pragas precisa integrar métodos agrícolas, biológicos, químicos e físicos. A aplicação coordenada depende de conhecimento do ciclo das pragas, de suas características biológicas e de sua interação com o ambiente. A revisão também reforça a necessidade de monitoramento preciso e previsão populacional, com armadilhas, análise de imagens e outras tecnologias.

Participaram os estudo os cientistas Antônio R. Panizzi, J. E. McPherson, C. Scott Bundy, Jesus F. Esquivel, Alberto Pozzebon, Alberto Mele, Davide Scaccini, Dmitrii L. Musolin, Natalia N. Karpun, Vladimir V. Neimorovets, M. Javahery, Hideharu Numata, Yoshinori Shintani, Un Taek Lim, Lian-Sheng Zang, Yong-Ming Chen, Robert K. Mensah, Melina M. Miles, Gimme H. Walter, Louis E. N. Jackai, Beatrice N. Dingha e Adeney F. Bueno.

Outras informações em doi.org/10.1127/entomologia/3800

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