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Sementes de milheto (Pennisetum glaucum) podem transportar fungos fitopatogênicos e levar o inóculo até as plântulas. Pesquisadores da Universidade Federal do Tocantins e da Embrapa Milho e Sorgo confirmaram a transmissão dos gêneros Curvularia, Exserohilum e Fusarium em quatro cultivares. Os ensaios também indicaram diferenças de virulência entre isolados e maior suscetibilidade da cultivar ADR 300 a parte dos patógenos avaliados.
O trabalho avaliou BRS 1501, BRS 1502, BRS 1503 e ADR 300. A análise sanitária detectou 11 gêneros de fungos nas sementes. O grupo incluiu cinco gêneros associados ao armazenamento: Cladosporium, Nigrospora, Aspergillus, Penicillium e Mucor. Outros seis apresentaram importância fitopatogênica: Alternaria, Colletotrichum, Sclerotium, Exserohilum, Curvularia e Fusarium (doi 10.3390/seeds5050056).
A incidência total de fungos alcançou níveis elevados em sementes sem desinfestação superficial. BRS 1502 apresentou incidência de 91%. BRS 1501 registrou 76%. A desinfestação reduziu a ocorrência de fungos em todas as cultivares. Mesmo após o tratamento, alguns gêneros permaneceram nas sementes. O resultado sugere colonização interna ou associação mais estreita com os tecidos.
Seis gêneros apareceram tanto em sementes desinfestadas como em sementes sem tratamento: Exserohilum, Cladosporium, Curvularia, Fusarium, Alternaria e Aspergillus. A persistência desses fungos reforça a limitação de procedimentos voltados apenas à superfície da semente.
Os pesquisadores aplicaram etanol a 50% por 30 segundos e hipoclorito de sódio a 1% por 40 segundos na desinfestação superficial. Depois, lavaram as sementes três vezes com água destilada esterilizada. O procedimento reduziu a contaminação, mas não eliminou todos os fungos detectados.
Exserohilum e Curvularia ocorreram nas quatro cultivares, com ou sem desinfestação. Entre as sementes não tratadas, BRS 1502 apresentou a maior incidência de Exserohilum. BRS 1503 apresentou a maior incidência de Curvularia. A análise estatística apontou influência da cultivar, da desinfestação e da interação entre os dois fatores sobre a incidência desses gêneros.
O estudo avançou da detecção nas sementes para a avaliação da transmissão às plantas. Os pesquisadores semearam sementes desinfestadas e não desinfestadas em areia esterilizada. Após a semeadura, acompanharam as plantas durante 25 dias. Curvularia, Exserohilum e Fusarium passaram das sementes para as plântulas nas duas condições avaliadas. Curvularia e Exserohilum provocaram manchas foliares. Fusarium provocou murcha.
A maior taxa de transmissão de Exserohilum ocorreu na ADR 300 sem desinfestação, com 24%. Na mesma cultivar, Fusarium atingiu 18% e Curvularia, 11%. Após a desinfestação, os índices caíram para 13%, 10% e 8%, respectivamente.
BRS 1502 apresentou transmissão de 18% para Fusarium, 13% para Exserohilum e 10% para Curvularia em sementes não desinfestadas. BRS 1501 registrou 13% para Exserohilum e Fusarium e 11% para Curvularia. Na BRS 1503, os valores chegaram a 11% para Exserohilum e Fusarium e 9% para Curvularia.
A germinação variou entre as cultivares. BRS 1503 alcançou 98% nos dois tratamentos. BRS 1502 registrou 92% nas sementes sem desinfestação e 91% nas desinfestadas. BRS 1501 apresentou 88% e 87%. ADR 300 alcançou 85% e 80%.
Os ensaios de virulência mostraram diferenças entre isolados. Dez isolados de Exserohilum e dez de Curvularia passaram por avaliação na cultivar ADR 300. Para Exserohilum, os isolados 1 e 2 produziram os maiores índices de severidade. O isolado 2 atingiu 63%. Para Curvularia, os isolados 6 e 9 apresentaram os maiores valores. O isolado 9 alcançou 63%.
A resposta também variou entre cultivares. Para Exserohilum, ADR 300 apresentou índice de severidade de até 60% e teve a maior suscetibilidade entre os materiais avaliados. BRS 1503 registrou o menor nível, em torno de 45%, mas permaneceu classificada como suscetível pela escala adotada no estudo.
Para Curvularia, ADR 300 e BRS 1501 chegaram a 56% de severidade com um dos isolados e receberam classificação de alta suscetibilidade. BRS 1502 apresentou o menor índice nesse ensaio, com 27%, faixa classificada como moderadamente suscetível.
Os resultados indicam um papel epidemiológico das sementes de milheto como fonte de inóculo primário. O risco ganha importância em sistemas de sucessão e de cobertura do solo. Sementes infectadas podem introduzir patógenos na área. Esses fungos também podem permanecer em resíduos culturais ou no solo e alcançar cultivos posteriores.
Os pesquisadores recomendam análise sanitária de sementes, uso de lotes livres de patógenos, tratamento de sementes e manejo integrado de doenças. O estudo ressalta outra limitação: a identificação dos fungos ocorreu no nível de gênero, com base em características morfológicas. Os pesquisadores apontam a necessidade de identificação molecular em nível de espécie e de avaliações adicionais em casa de vegetação e no campo.
A pesquisa foi realizada por Manuel A. Gonzalez, Osmany M. Herrera, Bruna L. Dias, Ildon R. Nascimento, Marcos V. Giongo, Dalmarcia S. Mourão, Paulo R. Fernandes, Leandro A. Souza, Marcos G. Silva, Maria J. Gonzalez, Rodrigo V. da Costa, Dagma D. Araújo, Luciano V. Cota, Gil R. Santos e Luis O. Viteri.
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