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O fortalecimento do El Niño deve ampliar os riscos para a produção agrícola nos próximos meses. O fenômeno tende a favorecer chuvas acima da média no Sul e precipitações irregulares no Centro-Norte do Brasil. O cenário afeta as perspectivas para soja, milho, algodão, arroz, trigo, café e laranja. Ao mesmo tempo, ajustes na oferta e na demanda influenciam os mercados. Nos fertilizantes, os preços recuaram após o período recente de volatilidade, segundo o Agro Mensal de agosto do Itaú BBA.
Julho e o início de agosto registraram concentração das chuvas na Região Sul. Centro-Oeste, Sudeste e interior do Nordeste tiveram predomínio de tempo seco. As precipitações no Sul preservaram a umidade do solo e favoreceram as culturas de inverno. O excesso de umidade também dificultou operações de campo e elevou a preocupação com a qualidade do trigo.
Nas regiões centrais, baixos volumes de chuva, menor umidade relativa e temperaturas acima da média favoreceram as colheitas de milho segunda safra, algodão e café. O período seco, porém, acelerou a perda de umidade dos solos.
A previsão aponta fortalecimento do El Niño durante a primavera. Na transição para setembro, as chuvas devem retornar ao Centro-Oeste e a parte do Sudeste, mas com distribuição irregular. O plantio da soja tende a avançar de forma desigual. Paraná e sul de Mato Grosso do Sul apresentam perspectivas melhores. Mato Grosso e Matopiba dependem de maior regularidade das precipitações.
Na soja, a expectativa de grande produção nos Estados Unidos retirou parte do prêmio climático observado em julho. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos elevou a estimativa da safra norte-americana de 122 milhões para 123 milhões de toneladas. No Brasil, o balanço global indica produção de 186 milhões de toneladas em 2026/27.
O mercado brasileiro recebe suporte do câmbio, das exportações e da demanda chinesa. Entretanto, prêmios mais descontados no Brasil limitam o repasse de eventuais altas de Chicago para a nova safra. A competitividade da soja norte-americana também tende a crescer nos próximos meses, período de redução da oferta disponível brasileira.
No milho, a melhora das condições das lavouras norte-americanas reduziu os temores climáticos. O USDA estima produtividade de 11,4 toneladas por hectare nos Estados Unidos e área colhida de 35,9 milhões de hectares. No mercado internacional, tensões entre Rússia e Ucrânia adicionam risco à logística de grãos no Mar Negro e oferecem suporte indireto às cotações.
O Brasil enfrenta perda de competitividade nas exportações. Os embarques entre fevereiro e julho cresceram 5,8% sobre igual período anterior, mas o volume de julho ficou cerca de 20% abaixo do registrado em julho de 2025. A projeção do Itaú BBA permanece em 40 milhões de toneladas no ciclo de fevereiro a janeiro. Um resultado mais fraco em agosto pode elevar o risco de revisão para baixo.
O algodão encontra suporte na redução dos estoques globais e na demanda de Índia e China. O USDA estima estoques finais mundiais de 15,2 milhões de toneladas em 2026/27, queda de 7% sobre a temporada anterior. O consumo global deve alcançar 26,8 milhões de toneladas.
O clima permanece no radar da cotonicultura. Temperaturas acima da média em Xinjiang, principal província produtora da China, geram preocupação com a produtividade. Na Índia, o avanço do El Niño aumenta o risco de déficit hídrico, apesar da evolução das monções ter reduzido parte das preocupações.
No Brasil, a comercialização avançou em Mato Grosso. As vendas da safra 2025/26 alcançaram cerca de 74% da produção estimada. Para 2026/27, aproximadamente 32% da produção já havia sido negociada. As exportações brasileiras chegaram a 3,4 milhões de toneladas no ciclo de agosto a julho, aumento de 18,5%.
O arroz passou por recuperação de preços com redução dos excedentes, maior demanda industrial e avanço das exportações. No Rio Grande do Sul, a saca de 50 quilogramas passou de 60,33 reais em primeiro de julho para 73,60 reais em 13 de agosto. A valorização alcançou 22%.
Desde janeiro, as exportações somaram 1,2 milhão de toneladas, volume 25% superior ao observado no mesmo período anterior. A próxima safra brasileira tem perspectiva de menor produção e redução dos estoques de passagem. O avanço do El Niño adiciona risco ao mercado internacional, principalmente na Ásia. A Conab também anunciou aquisição de 310 mil toneladas de arroz por meio de Aquisição do Governo Federal.
No trigo, o Brasil concluiu o plantio com 2,04 milhões de hectares. A área caiu 17% ante a temporada passada e atingiu o menor nível desde 2020. A Conab estima produção de 5,8 milhões de toneladas, recuo de 26% frente ao ciclo anterior.
As lavouras apresentam condições favoráveis até o momento. O Paraná mostra bom potencial produtivo. No Rio Grande do Sul, a elevada umidade aumenta a pressão de doenças. Uma intensificação do El Niño pode ampliar o risco de doenças e perdas de qualidade durante as fases finais de desenvolvimento e colheita.
O mercado mundial também opera com oferta mais ajustada. O USDA estima produção global de 819 milhões de toneladas. Nos Estados Unidos, a produção projetada alcança 41,7 milhões de toneladas. Os estoques finais norte-americanos recuariam para 19,5 milhões de toneladas, volume 22% inferior ao da temporada anterior. Problemas logísticos no Mar Negro completam o quadro de suporte aos preços.
No café, chuvas durante a colheita atrasaram os trabalhos de campo, provocaram queda de frutos e aumentaram a preocupação com a qualidade. A menor disponibilidade imediata elevou os prêmios de risco durante julho e o início de agosto.
A oferta global, contudo, apresenta perspectiva de recuperação. O USDA estima produção mundial de 190 milhões de sacas em 2026/27, aumento de 6,1%. O consumo deve atingir 180 milhões de sacas. O balanço aponta superávit de 9,9 milhões de sacas.
Para o Brasil, a projeção alcança recorde de 71,9 milhões de sacas, avanço de 14,1%. A produção de arábica deve atingir 47,5 milhões de sacas, aumento de 25%. A estimativa para robusta soma 24,4 milhões de sacas. As exportações brasileiras de café verde podem chegar a 49,4 milhões de sacas.
O clima ainda impõe incertezas para o próximo ciclo. A ausência de um período seco provocou abertura antecipada de floradas em algumas áreas. Esse quadro pode resultar em maturação desuniforme. Um El Niño intenso no segundo semestre também pode afetar as floradas e alterar as perspectivas para 2027/28.
Na laranja, a safra 2026/27 começou sob pressão de preços, apesar da estimativa de menor produção. O Fundecitrus projeta 255 milhões de caixas. A indústria mantém postura cautelosa nas compras e atribui maior peso à disponibilidade imediata de fruta.
As exportações brasileiras de suco de laranja somaram 75 mil toneladas em equivalente de suco concentrado congelado em julho. O volume cresceu 7,3% na comparação anual. O preço médio de exportação caiu 44,1%, para 2.391 dólares por tonelada. A receita recuou 40%.
Nos Estados Unidos, os estoques de suco concentrado alcançaram 217 mil toneladas ao fim de junho. O volume supera em 41% o nível de um ano antes e fica cerca de 20 mil toneladas acima da média dos últimos cinco anos. Esse quadro reduz a percepção de escassez e limita o potencial de alta dos preços no curto prazo. O El Niño representa um fator de risco para as floradas entre setembro e novembro, com possíveis reflexos principalmente sobre a safra 2027/28.
Nos fertilizantes, os nitrogenados perderam força após a recente volatilidade. A ureia recuou de 482,50 para 415 dólares por tonelada. O sulfato de amônio caiu de 262,50 para 240 dólares por tonelada. As importações brasileiras de ureia atingiram 601 mil toneladas em julho, alta de 12% na comparação anual.
Os fosfatados também recuaram diante da menor demanda. O fosfato monoamônico caiu para 855 dólares por tonelada e o superfosfato simples chegou a 250 dólares por tonelada. Parte dos produtores posterga compras destinadas ao milho segunda safra.
O enxofre representa pressão de custo. As importações somaram 29 mil toneladas em julho, menor volume dos últimos 36 meses. O preço médio atingiu 1.067 dólares por tonelada FOB, mais do dobro do nível registrado em janeiro. No cloreto de potássio, as importações acumuladas até julho alcançaram 8,8 milhões de toneladas, alta de 2,5%. O preço no mercado interno recuou para 385 dólares por tonelada CFR Brasil, enquanto as compras começam a migrar da soja para a segunda safra.
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