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O Dia do Algodão da Abapa chegou à quinta edição reunindo produtores, pesquisadores, consultores, estudantes, representantes da cadeia produtiva e autoridades em torno dos desafios que influenciam o presente e o futuro da cotonicultura baiana. Promovido pela Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), o evento foi realizado nos dias 31 de julho e 1º de agosto, em Luís Eduardo Magalhães, com uma programação dividida em dois momentos complementares.
Na sexta-feira, a agenda foi voltada aos associados da Abapa, autoridades e convidados, com debates sobre logística, mercado e os cenários econômicos e políticos que repercutem na atividade. No sábado, cerca de 1,2 mil pessoas participaram da programação técnica no Centro de Treinamento da entidade, no Complexo Bahia Farm Show, onde resultados de pesquisas e análises foram apresentados para apoiar as decisões da próxima safra.
A programação ocorreu em um período importante para o setor. Enquanto a colheita do ciclo 2025/2026 avança, produtores já começam a definir cultivares, rever estratégias de manejo, organizar custos e avaliar os riscos do próximo plantio. Ao mesmo tempo, o crescimento da produção, a expansão da irrigação e a posição do Brasil no mercado internacional aumentam a necessidade de planejamento comercial, infraestrutura logística e integração entre os diferentes elos da cadeia.
A programação começou com o Workshop sobre o Corredor Logístico do Algodão, realizado na sede da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). O encontro reuniu representantes dos diferentes elos da cadeia produtiva e exportadora para discutir alternativas capazes de ampliar o escoamento da produção pelo Porto de Salvador.
Produtores, exportadores, tradings, armadores, transportadores, operadores portuários e representantes do poder público participaram da reunião, que teve como objetivo identificar os gargalos enfrentados em cada etapa da operação e avançar na definição de um plano de ação para o corredor logístico. Entre os temas debatidos estiveram a previsibilidade das escalas de navios, a disponibilidade de contêineres, a ampliação das áreas de armazenamento, os acessos ao porto, os horários de recebimento das cargas e a integração das informações entre fazendas, algodoeiras, transportadoras, tradings e terminais.
Na abertura do Workshop, a presidente da Abapa, Alessandra Zanotto Costa, destacou a diferença entre o potencial de produção do estado e o volume que ainda é embarcado pela capital baiana. A safra 2025/2026 pode se aproximar de um milhão de toneladas de algodão em pluma, enquanto cerca de 200 mil toneladas foram exportadas pelo Porto de Salvador no ciclo anterior.
Para Alessandra, ampliar essa participação depende de uma atuação coordenada entre todos os envolvidos na operação, da origem da carga até o embarque. “Estamos ainda muito distantes do potencial da nossa região. Precisamos colocar todos os elos à mesa, entender os gargalos de cada um e sair desta reunião com um plano de ação que permita ampliar o escoamento do algodão produzido no Oeste da Bahia pelo Porto de Salvador”, afirmou.
A articulação também envolveu a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico de Salvador e a Secretaria Municipal do Mar. Para a presidente da Abapa, a participação dessas áreas demonstra que o debate ultrapassa a operação portuária e envolve planejamento econômico, infraestrutura e desenvolvimento regional.
“É importante termos à mesa o Governo do Estado, a Prefeitura de Salvador, a Receita Federal e a iniciativa privada. Há questões que dependem da cadeia produtiva, mas também existem desafios que precisam ser tratados pelo poder público, tanto na infraestrutura quanto na criação das condições para que essa rota ganhe escala”, acrescentou Alessandra.
Ao apresentar as projeções da Abapa, o diretor executivo da entidade, Gustavo Prado, informou que a área cultivada com algodão na Bahia pode passar dos atuais 447 mil hectares para cerca de 612 mil hectares até 2030. Com a expansão, a produção poderá alcançar aproximadamente 1,35 milhão de toneladas, das quais cerca de 80% deverão ser destinadas ao mercado externo.
O crescimento esperado na produção e exportação amplia a pressão sobre uma infraestrutura que já precisa acompanhar o novo papel do Brasil no mercado internacional. Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Gustavo Piccoli, os principais entraves à competitividade estão hoje fora das propriedades rurais.
“O produtor brasileiro de algodão é extremamente competente da porteira para dentro, mas os nossos grandes gargalos estão da porteira para fora. O Brasil se consolidou como o maior exportador de algodão do mundo e isso exige que melhoremos muito a nossa logística”, disse. Piccoli acrescentou que a Bahia deverá concentrar parte importante da expansão da cotonicultura nacional nos próximos anos.
A redução da distância rodoviária é uma das principais vantagens da rota baiana. Luís Eduardo Magalhães está a aproximadamente mil quilômetros de Salvador, diante de cerca de 1,6 mil quilômetros até Santos. Segundo o presidente da Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), Dawid Wajs, a consolidação desse corredor pode beneficiar não apenas a Bahia, mas também outros estados do Matopiba.
“A rota por Salvador existe, é possível e vem apresentando resultados. Agora precisamos dar os próximos passos, aumentar a oferta de contêineres e trabalhar em conjunto para ampliar essa operação”, afirmou. Para Dawid, a decisão dos agentes privados dependerá da capacidade de transformar essas vantagens em previsibilidade, eficiência e competitividade econômica.
A agilidade dos procedimentos aduaneiros foi apontada como outro fator favorável ao fortalecimento do Porto de Salvador. Representando a Receita Federal, a auditora-fiscal Sandra Aparecida Magnavita Castro, delegada da Alfândega de Salvador e superintendente da 5ª Região Fiscal, informou que aproximadamente 97% das cargas de exportação passam pelo canal verde, sem necessidade de conferência física.
Segundo Sandra Magnavita, o trabalho da Receita busca conciliar o controle aduaneiro com a redução de entraves para as empresas que operam de forma regular.
“Acreditamos que o importante é a conformidade, a orientação e a facilitação do comércio”, afirmou. Ela também informou que o órgão estuda novos procedimentos para reduzir ainda mais o tempo de liberação das cargas.
A reunião tratou ainda da elaboração de orientações comuns para os procedimentos de exportação, da atualização dos estudos logísticos da Abapa e da continuidade do diálogo entre o setor produtivo, operadores privados e órgãos públicos. O objetivo é elevar progressivamente a participação do Porto de Salvador nas exportações de algodão e preparar a infraestrutura para o crescimento projetado da produção baiana.
Na noite de sexta-feira, a programação prosseguiu com um encontro dedicado aos cenários que influenciam a cotonicultura. A proposta foi levar os produtores a refletir sobre fatores que estão além da gestão das propriedades, como mercado, comércio internacional, mudanças regulatórias, geopolítica e comportamento do consumidor.
Ao abrir o evento, Alessandra Zanotto destacou que, apesar de incorporar tecnologia em todas as etapas produtivas, o algodão continua sendo a mesma fibra natural e versátil utilizada pela humanidade há milhares de anos. Para ela, essa permanência contrasta com a velocidade das mudanças que cercam a atividade e reforça a importância de reunir pessoas de diferentes áreas para pensar o setor.
“Produzir algodão não é fácil, mas fazemos isso por gerações. Quando se trata do que acontece além da porteira, porém, somos eternos aprendizes. É difícil produzir em cenários de incerteza, com leis que mudam, órgãos que nem sempre se movimentam no tempo do agro, guerras, volatilidade do mercado e transformações no comportamento do consumidor”, afirmou.
A mesa-redonda “Cenários e os impactos diretos na cotonicultura brasileira” reuniu o mestre em Economia Aplicada pela Esalq-USP André Pessoa, Alessandra Zanotto Costa, Gustavo Piccoli e Dawid Wajs. O debate abordou as perspectivas para a produção, o mercado internacional, a comercialização e os desafios para o escoamento da fibra.
Ao analisar os primeiros resultados da safra baiana, André Pessoa afirmou que as produtividades observadas no campo estão acima das estimativas iniciais. Segundo ele, a expansão da irrigação vem alterando o perfil produtivo do estado e abre a possibilidade de a Bahia registrar uma das melhores safras de sua história em produtividade.
O economista ponderou que o aumento da produção também amplia a responsabilidade da cadeia em relação ao planejamento comercial, à abertura de mercados e à logística necessária para movimentar volumes cada vez maiores.
A noite foi encerrada com uma palestra do historiador e filósofo Leandro Karnal. A participação propôs um olhar mais amplo sobre as transformações do mundo contemporâneo e o papel do pensamento na compreensão dos desafios atuais. Ao apresentar o convidado, Alessandra ressaltou que pensar o futuro também exige olhar para trás, formular novas perguntas e avaliar os acontecimentos sob diferentes perspectivas.
No sábado, a atenção se voltou para os fatores que interferem mais imediatamente no resultado das lavouras. A programação técnica foi organizada em três estações temáticas, conduzidas por pesquisadores da Fundação Bahia e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP).
Na abertura, Alessandra destacou que a colheita ainda está em andamento, mas o planejamento da nova safra já começou. Segundo ela, é nesse período que o produtor compara resultados, revê estratégias, escolhe materiais, organiza custos e avalia os riscos que terá pela frente.
“A Bahia vive uma fase de mudanças no sistema produtivo, com maior participação da irrigação, alterações no calendário agrícola e novas possibilidades de organização das safras. Esse movimento amplia a estabilidade e a capacidade de produção, mas também exige mais conhecimento, gestão e coordenação entre todos os elos da cadeia”, afirmou.
A presidente da Abapa reforçou ainda que o Dia do Algodão busca aproximar os resultados da pesquisa da experiência acumulada nas propriedades.“Este encontro não traz respostas prontas. É uma oportunidade de troca, em que os dados apresentados pelos pesquisadores encontram a experiência de quem produz”, destacou.
Na estação dedicada à genética, o pesquisador Murilo Barros Pedrosa, da Fundação Bahia, apresentou os resultados da avaliação de 46 cultivares de algodoeiro, entre elas 30 novos materiais, testadas em diferentes ambientes de produção do Oeste baiano.
Os estudos compararam produtividade, qualidade tecnológica da fibra, comportamento diante de doenças e pragas e indicadores de rentabilidade. Os resultados demonstraram que a escolha da cultivar deve considerar não apenas o potencial produtivo, mas também a estabilidade do material, sua sanidade e a qualidade da fibra.
A análise econômica foi conduzida pelo pesquisador Renato Garcia Ribeiro, do Cepea/Esalq-USP, que apresentou projeções para a safra 2026/2027. Segundo ele, embora os custos reais de produção tenham se estabilizado, os juros elevados, o custo do capital e os investimentos em máquinas continuam pressionando as margens da atividade.
Em um ambiente de rentabilidade mais estreita, produtividade e eficiência operacional permanecem entre os principais fatores para sustentar a competitividade das propriedades.
A terceira estação foi conduzida pelo pesquisador Allef de Souza Silva, da Fundação Bahia, que apresentou estudos sobre a dinâmica populacional do bicudo-do-algodoeiro durante a safra e a entressafra.
Os resultados mostraram que grande parte das fêmeas permanece apta à reprodução nesse período, reforçando que o controle da principal praga da cultura depende de estratégias contínuas. Monitoramento, destruição de restos culturais, cumprimento das medidas sanitárias e atenção às plantas voluntárias são fundamentais para reduzir a infestação no ciclo seguinte.
Ao abordar o tema, Alessandra lembrou que nenhuma propriedade consegue enfrentar o bicudo isoladamente. “É um desafio que depende de uma atuação coletiva. O compromisso precisa ser de toda a região, durante a safra e, sobretudo, na entressafra”, afirmou.
Um dos momentos da programação foi a assinatura do Termo de Cooperação Técnica entre a Abapa e a Embrapa Algodão. O documento foi assinado por Alessandra Zanotto Costa e pela chefe-geral da Embrapa Algodão, Nair Helena de Castro Arriel, formalizando uma parceria voltada à construção de uma agenda permanente de pesquisas para a cotonicultura do Oeste da Bahia.
O acordo consolida um trabalho iniciado neste ano, com a instalação de uma estrutura permanente da Embrapa na sede da Abapa. A iniciativa aproxima pesquisadores e produtores e permite que as demandas encontradas no campo orientem estudos em áreas como fitossanidade, conservação do solo, qualidade da fibra, agricultura de baixo carbono, biotecnologia e integração de dados para apoio à tomada de decisão.
A programação técnica foi encerrada com a mesa-redonda “Manejo estratégico do algodão sob o efeito El Niño: clima, doenças e fisiologia da planta”. Participaram o doutor em Geografia Ricardo Reis, CEO da AeQuilibrium; o doutor em Fitopatologia Fabiano Perina, pesquisador da Embrapa Algodão; e o doutor em Fitotecnia Ricardo de Andrade, pesquisador da Fundação Bahia.
O debate mostrou como as condições climáticas interferem na ocorrência de doenças, na fisiologia das plantas e nas estratégias de manejo adotadas pelos produtores. A discussão reforçou a necessidade de integrar informações meteorológicas, estatística e conhecimento agronômico ao planejamento das lavouras.
Para Alessandra, essa combinação resume a proposta do evento. “Antecipar cenários e interpretar informações tornou-se tão importante quanto executar bem cada operação. A pesquisa só cumpre plenamente o seu papel quando chega ao campo e pode ser comparada com a experiência de quem produz”, concluiu.
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