Painel El Niño: evento forte amplia riscos para a safra no segundo semestre

Sul pode enfrentar excesso de chuva; centro-norte terá calor, seca e maior demanda por irrigação

02.08.2026 | 10:58 (UTC -3)
Revista Cultivar, a partir de informações do Painel El Niño
Previsão probabilística de El Niño/La Niña da NOAA
Previsão probabilística de El Niño/La Niña da NOAA

O El Niño deve permanecer ativo até o início de 2027 e pode atingir intensidade muito forte entre a primavera e o verão de 2026. A previsão aponta chuva acima da média na Região Sul e precipitação abaixo da média em grande parte do centro-norte do Brasil. O cenário favorece algumas operações de colheita, mas amplia os riscos de deficiência hídrica, doenças fúngicas, incêndios e atraso no plantio da safra de verão. As informações constam no boletim número 2 do Painel El Niño.

A configuração do fenômeno recebeu confirmação em junho de 2026. O aquecimento da superfície do Oceano Pacífico Equatorial alcançou anomalia de 1,4 grau Celsius na região Niño 3.4, 1,8 grau Celsius na região Niño 3 e 3 graus Celsius na região Niño 1+2. Os padrões de circulação atmosférica também apresentaram resposta típica de El Niño.

Condições fortes

Os modelos indicam probabilidade de 100% para a manutenção de condições fortes até o fim de 2026. A projeção da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos aponta chance de 81% para um evento muito forte no trimestre outubro, novembro e dezembro.

Para agosto, setembro e outubro, a previsão climática indica precipitação abaixo da faixa normal em áreas das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. No Sul, os volumes tendem a superar a média. O sinal de chuva acima da normalidade pode avançar até o sul de São Paulo e de Mato Grosso do Sul.

As temperaturas devem superar a média em quase todo o país. Esse padrão aumenta a possibilidade de ondas de calor, baixa umidade relativa do ar e queimadas, sobretudo nas áreas com déficit de precipitação.

Região Norte

Na Região Norte, o tempo mais seco tende a favorecer a colheita do milho segunda safra e do algodão. Em contrapartida, a combinação de calor e menor precipitação pode elevar a demanda por irrigação, ampliar a deficiência hídrica e afetar culturas perenes. O risco de incêndios em vegetação também cresce.

Na Amazônia Legal, a previsão aponta chuva abaixo da média em grande parte da porção centro-norte. O cenário abrange áreas do Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Maranhão, Rondônia, Acre e norte do Tocantins. O fortalecimento do El Niño pode atrasar a instalação da estação chuvosa no sul da região. A persistência de intervalos secos favorece o ressecamento da vegetação e limita a recuperação da umidade do solo e dos níveis dos rios.

Região Nordeste

No Nordeste, o tempo seco pode beneficiar a colheita do milho segunda safra e do algodão no Matopiba. Porém, a restrição de chuva tende a dificultar o estabelecimento da safra de verão. Lavouras de sequeiro podem perder potencial produtivo. A pecuária também pode enfrentar menor disponibilidade de água.

A situação de seca no Nordeste já merece atenção. Em junho de 2026, a seca moderada atingia 40% da região, ante 10% no mesmo mês de 2023. Parte das áreas apresenta impactos de curto e longo prazo. A elevada demanda evaporativa pode acelerar a perda de água do solo durante a estação seca.

Região Centro-Oeste

No Centro-Oeste, as condições previstas favorecem a colheita de milho segunda safra, algodão, sorgo e lavouras tardias. O calor pode comprometer pastagens e recursos hídricos. A falta de umidade também pode dificultar o preparo das áreas destinadas ao próximo ciclo.

Região Sudeste

No Sudeste, o cenário tende a facilitar a colheita das culturas de segunda safra e de inverno. A restrição hídrica e as temperaturas elevadas podem reduzir o potencial produtivo dos cultivos de inverno. Cana-de-açúcar, citros, pastagens e culturas perenes também ficam expostos.

A seca alcançava 76% do Sudeste em junho de 2026. Dois por cento da região apresentavam seca grave. Um eventual atraso da estação chuvosa pode agravar o quadro durante a primavera e o verão.

Região Sul

No Sul, a maior disponibilidade de água no solo pode beneficiar trigo e outras culturas de inverno. O efeito dependerá da fase fenológica e da distribuição das chuvas. A reposição de umidade também pode favorecer a implantação de milho e soja.

O excesso de precipitação, no entanto, aumenta a pressão de doenças fúngicas. A umidade elevada pode limitar pulverizações, adubações e outras operações. Chuvas persistentes também podem atrasar a colheita, elevar o risco de replantio e dificultar o preparo do solo para a safra de verão.

A região ainda apresenta risco hidrológico. Os níveis do rio Uruguai permaneciam acima da faixa histórica no fim de julho. Bacias dos rios Caí, Taquari, Uruguai e Sinos registravam inundações. A previsão de chuva acima da média mantém o alerta para novas cheias durante o segundo semestre.

Risco de fogo

O risco de fogo deve crescer no interior do Brasil entre agosto e outubro. As áreas de alerta alto avançam sobre Mato Grosso e grande parte da Região Norte. O oeste do Nordeste e Minas Gerais também apresentam expansão do risco. Para a Amazônia Legal, as maiores preocupações concentram-se em Tocantins, Pará, Maranhão, Mato Grosso e na região formada por Amazonas, Acre e Rondônia.

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