Compostos vegetais mostram ação contra moscas-das-frutas

Isoeugenol e citronelal causaram alta mortalidade e pouco afetaram parasitoide usado no controle biológico

31.07.2026 | 14:42 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Paulo Lanzetta / Embrapa
Foto: Paulo Lanzetta / Embrapa

Isoeugenol e citronelal apresentaram elevada atividade inseticida contra adultos de Anastrepha fraterculus e Ceratitis capitata em ensaios de laboratório. Os compostos também provocaram baixa mortalidade no parasitoide Doryctobracon areolatus e não reduziram sua capacidade de parasitismo. Os resultados indicam potencial para uso dessas substâncias em programas de manejo integrado de moscas-das-frutas (DOI 10.3390/insects17080774).

Estudo de pesquisadores brasileiros avaliou dez compostos encontrados em plantas aromáticas. A lista reuniu sete terpenos ou terpenoides (alfa-pineno, beta-pineno, beta-cariofileno, gama-terpineno, para-cimeno, citronelal e geropina) e três fenilpropanoides (isoeugenol, cinamato de metila e cumarina).

Os pesquisadores testaram a toxicidade por ingestão e aplicação tópica. As concentrações variaram de 100 a 6.000 miligramas por litro. O inseticida comercial à base de espinetoram serviu como controle positivo. A água destilada compôs o controle negativo.

Taxas de mortalidade

Isoeugenol e citronelal causaram as maiores taxas de mortalidade por ingestão. Os índices superaram 70% nas duas espécies de moscas-das-frutas após 120 horas de exposição. O desempenho ficou próximo ao observado com o inseticida de referência.

Na aplicação tópica, o isoeugenol provocou mortalidade igual ou superior a 80% em Anastrepha fraterculus e Ceratitis capitata. O resultado também se aproximou do controle positivo. Citronelal e cumarina apresentaram desempenho intermediário. Beta-pineno, beta-cariofileno, geropina, cinamato de metila e para-cimeno tiveram menor eficácia nessa modalidade de exposição.

Concentração-resposta

As curvas de concentração-resposta confirmaram toxicidade dos dez compostos.

Em Anastrepha fraterculus, as concentrações letais para 50% dos adultos variaram de 23,40 a 42,19 miligramas por litro no ensaio por ingestão. Para mortalidade de 90%, os valores ficaram entre 87,13 e 123,34 miligramas por litro.

Em Ceratitis capitata, as concentrações letais para 50% dos insetos variaram de 29,11 a 39,10 miligramas por litro. As concentrações necessárias para atingir 90% de mortalidade oscilaram entre 118,19 e 132,44 miligramas por litro.

O inseticida à base de espinetoram apresentou as menores concentrações letais para as duas espécies, embora em alguns casos a diferença tenha sido estatisticamente irrelevante.

Efeito sobre a oviposição

Os cientistas também analisaram o efeito dos compostos sobre a oviposição. Bagas maduras de uva ‘Italia’ receberam os tratamentos por imersão. Depois, fêmeas das duas espécies tiveram acesso aos frutos durante 24 horas.

Nenhum dos dez compostos reduziu o número de puncturas de oviposição em relação à água destilada. O inseticida comercial impediu a oviposição nas duas espécies. O resultado mostra ausência de efeito ovideterrente dos compostos isolados nas condições avaliadas.

Seletividade dos compostos

A seletividade para Doryctobracon areolatus representou outro ponto central do trabalho. Esse parasitoide ataca ovos e larvas jovens de moscas-das-frutas e participa de programas de controle biológico.

A mortalidade do parasitoide por ingestão variou de 4,11% a 17,12% entre os compostos vegetais. Na aplicação tópica, os índices ficaram entre 10,44% e 14,24% na maior parte dos tratamentos. O espinetoram causou mortalidade de 38,10% por ingestão e de 31,90% por aplicação tópica.

Os tratamentos não prejudicaram o parasitismo dos sobreviventes. As taxas variaram de 43,21% a 62,13% e não apresentaram diferenças entre os compostos. O resultado sugere compatibilidade entre os fitoquímicos avaliados e o uso de Doryctobracon areolatus no manejo integrado.

Toxicidade por ingestão

Os pesquisadores destacam a maior toxicidade observada por ingestão. Essa característica favorece estudos voltados a estratégias de “atrair e matar”, nas quais o inseto consome uma isca com o ingrediente ativo. Formulações também podem reduzir perdas causadas pela volatilidade e pela sensibilidade dos compostos à luz, ao oxigênio e a temperaturas elevadas.

Os dados ainda não comprovam eficácia em pomares. Os ensaios ocorreram em condições controladas. Novos estudos precisam avaliar formulações, misturas sinérgicas, persistência, doses, seletividade e desempenho em campo. Entre os candidatos analisados, isoeugenol e citronelal concentraram os resultados mais promissores para o controle de Anastrepha fraterculus e Ceratitis capitata.

O trabalho foi realizado pelos cientistas Letícia Jansen Medeiros, Michele Trombin de Souza, Mireli Trombin de Souza, Christian Peter Demari, Gabriel Radtke Abib, Leandro do Padro Ribeiro, Vanessa Nogueira Soares, Dori Edson Nava e Daniel Bernardi.

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