Brasil lidera cenário de sobreoferta no mercado global de açúcar

Análise da Hedgepoint indica dificuldade de recuperação dos preços

05.02.2026 | 16:17 (UTC -3)
Milena Feitosa Camargo

O mercado de açúcar permaneceu estável dentro de uma faixa de negociação relativamente baixa por um longo período, entre 14 e 15 c/lb. Os preços não conseguiram se recuperar, refletindo em grande parte o consenso do mercado em torno de um saldo excedente entre oferta e demanda para a temporada 2025/26 (outubro-setembro), além de um fluxo comercial também com excesso de oferta.

“Uma parte significativa desse excedente vem de outro forte desempenho do ciclo atual do Brasil, juntamente com a melhora nos resultados em todo o Hemisfério Norte. A safra 2025/26 do Centro-Sul brasileiro está terminando, sinalizando uma robusta produção de açúcar. Atualmente, estimamos aproximadamente 610 Mt de cana – aproximando-nos de nossa primeira estimativa, com um mix de 50,6% de açúcar, resultando em cerca de 40,5 Mt de produção de açúcar”, explica Lívea Coda, coordenadora de Inteligência de Mercado da Hedgepoint Global Markets.

De acordo com a analista, somando-se à perspectiva global baixista, está a visão inicial da safra brasileira de 2026/27. Embora ainda seja cedo para tirar conclusões definitivas, os padrões iniciais de chuva e o Índice de Saúde da Vegetação (VHI) favorável apontam para a possibilidade de mais um ano de produção sólida, reforçando as expectativas de continuidade da oferta global abundante.

“Nossas estimativas preliminares sugerem que, apesar dos dados ainda incompletos considerando que o período crítico de desenvolvimento da cana-de-açúcar ocorre entre outubro e fevereiro, é possível atingir até 630 milhões de toneladas de cana”, diz.

Com esse nível de disponibilidade de matéria-prima, a direção dos preços dependerá em grande parte do mix de açúcar, a Hedgepoint Global Markets projeta alguns cenários:

Como premissas comuns a todos os cenários para a região, consideramos 630 Mt de cana moída, 139,5 kg/t de ATR, 11 bilhões de litros de produção de etanol de milho e um crescimento do ciclo Otto de 2,5% ao longo da safra.

“Para o primeiro cenário, vamos supor que as usinas consigam continuar maximizando a produção e açúcar, mantendo o ritmo operacional observado na safra 2025/26 e atingindo um mix de açúcar de 50,6%. Nesse exercício, a produção total de açúcar atingiria aproximadamente 42,4 Mt, com exportações do Centro-Sul estimadas em cerca de 33,5 Mt”, afirma.

Nesse contexto, os fluxos comerciais globais se ajustariam de acordo, resultando no acúmulo de um excedente estimado de 4 Mt de açúcar entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2027, reforçando uma perspectiva de excesso de oferta e limitando o potencial de alta dos preços, na avaliação da analista.

Nas estimativas da Hedgepoint, para compensar 4 Mt de produção de açúcar, o mix de açúcar precisaria diminuir para aproximadamente 46.2%. No entanto, tal mudança levaria inevitavelmente a um acúmulo de estoques de etanol.

A forma mais simples e de menor custo para reequilibrar essa dinâmica é reduzir os preços do etanol hidratado, estimulando a migração do consumo nas bombas da gasolina C para o biocombustível. Com isso, a participação do hidratado na demanda total de combustíveis do Centro-Sul (medida em volume real, e não em equivalência energética) passaria de aproximadamente 36% para cerca de 39,3%.

No Norte e Nordeste (NNE), esse avanço também ocorreria, subindo de 13,2% para cerca de 14,2%.

“Esse ajuste absorveria efetivamente o excesso de disponibilidade de matéria-prima, mas exigiria que a paridade nas bombas mudasse a favor do etanol hidratado na maioria, senão em todos os estados, para levá-los a consumir tanto quanto a quantidade máxima consumida nos últimos 20 anos”, diz.

Usando São Paulo como referência, uma estimativa simplificada sugere que os preços ex-mill do hidratado precisariam cair de cerca de R$ 3,00/litro para uma faixa de R$ 2,3-2,5/litro para permitir essa realocação da demanda no posto de gasolina. Em termos equivalentes de açúcar, tal preço implica um piso de aproximadamente 13,5 centavos de dólar por libra peso.

Considerando que o Brasil está em ano eleitoral, se soma a esse cenário já baixista o fato de o governo poder pressionar a Petrobras por alguns cortes nos preços da gasolina, o que empurraria os preços nas bombas para níveis mais baixos e, assim, fortaleceria a tendência.

Como resultado, espera-se que a tendência dos preços permaneça baixista para o adoçante durante a safra, com alta limitada, a menos que ocorram alguns eventos extremos relacionados ao clima ou à geopolítica.

Cenário mais provável no horizonte

Para Coda, como cenário final, é importante reconhecer que uma mudança completa e rápida para níveis mais baixos de mix de açúcar é difícil de executar na prática. Atritos estruturais nos mercados de açúcar e combustível podem impedir que o sistema alcance um mix de açúcar de 46%. “Isso inclui volumes de açúcar já vendidos e com preços fixados que não podem ser facilmente revertidos, bem como ajustes graduais e imperfeitos na demanda por combustível, que limitam a velocidade e a magnitude da absorção do etanol”.

“Dadas essas restrições do mundo real, a transição do Cenário Um (50.6% de mix) para o Cenário Dois (46.2%) pode ser desafiadora. Portanto, apresentamos um terceiro cenário, que consideramos ter uma probabilidade maior, centrado em um mix intermediário de açúcar de aproximadamente 48,6%”, complementa.

“Nessa configuração, o excedente nos fluxos comerciais globais de açúcar seria reduzido, mas não totalmente eliminado, o que implica que os preços continuariam tendendo para o piso da temporada. Embora ainda seja uma tendência de baixa, esse resultado pode refletir melhor as realidades operacionais e as fricções do mercado”, finaliza.

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