Brasil avança em projetos de carbono no solo

RaboResearch mapeia 20 projetos com VM0042 e pipeline acima de 10 milhões de créditos por ano

29.09.2026 | 04:55 (UTC -3)
Revista Cultivar

O Brasil reúne 20 projetos de carbono agrícola e manejo do solo desenvolvidos com a metodologia VM0042, da Verra. O volume representa cerca de 8% dos 264 projetos desse tipo registrados na base global da certificadora. O pipeline nacional supera 10 milhões de créditos de carbono potenciais por ano. O levantamento consta em relatório da RaboResearch.

A escala da agropecuária brasileira amplia o potencial desse mercado. Segundo os dados apresentados pela RaboResearch, com base na Embrapa, o país possui 177 milhões de hectares de pastagens. Desse total, cerca de 28 milhões de hectares, ou 15%, apresentam algum nível de degradação. Essas áreas poderiam passar por processos de recuperação com práticas regenerativas.

A proposta associa a melhoria do manejo ao aumento dos estoques de carbono no solo. Entre as práticas citadas aparecem plantio direto, culturas de cobertura, rotação de culturas, integração lavoura-pecuária, manejo regenerativo das pastagens, menor revolvimento do solo e otimização do uso de insumos.

Efeitos agronômicos

O processo também pode gerar efeitos agronômicos. O relatório cita aumento da matéria orgânica, maior retenção de água, redução da erosão, melhoria da fertilidade, ganhos de produtividade e maior resiliência diante de secas e eventos climáticos extremos. A adoção, porém, exige investimento inicial, mudanças operacionais e período de adaptação.

Os créditos de carbono podem funcionar como uma fonte adicional de remuneração nesse processo. O produtor adota práticas capazes de elevar os estoques de carbono. O projeto mede e monitora os resultados. Uma entidade independente realiza a validação e a verificação. Após essa etapa, o padrão de certificação pode emitir os créditos.

A metodologia VM0042, denominada Improved Agricultural Land Management, concentra boa parte dos projetos analisados. A base pública da Verra reunia 264 projetos de carbono agrícola e manejo do solo na data considerada pelo estudo. A Ásia concentrava 119 projetos. A Europa somava 45. A América Latina tinha 40 e a África, 26. O Brasil respondia por 20 iniciativas, metade do total latino-americano.

A maior parte dos projetos brasileiros ainda percorre fases anteriores à emissão. O relatório identificou sete projetos em pipeline aprovado, quatro em pipeline solicitado, um em pipeline solicitado já em validação, três em validação, dois em processo de registro e verificação, dois aguardando registro e apenas um projeto registrado com créditos emitidos. O quadro indica um mercado ainda em consolidação.

Etapas de longo prazo

A entrada de uma propriedade em um projeto agrupado de carbono no solo começa pela análise de elegibilidade. O processo considera histórico de uso da terra, práticas de manejo, localização, disponibilidade de dados e potencial de remoção de carbono.

Depois da adesão, o projeto realiza um diagnóstico da propriedade. Essa avaliação estabelece a linha de base. A referência reúne as condições produtivas e os estoques de carbono existentes antes da implantação das novas práticas.

O projeto define então o plano de manejo. Durante o período de creditação, o produtor precisa manter as práticas acordadas e fornecer dados operacionais. Também precisa permitir auditorias e participar do monitoramento.

Esse acompanhamento pode envolver registros de manejo, imagens de satélite, análises de solo, visitas de campo e modelos científicos. O desenvolvedor consolida os dados. Entidades independentes fazem a validação e a verificação.

Após a confirmação das remoções, o padrão aplicável emite os créditos. A comercialização gera receita. O produtor recebe uma parcela conforme as condições previstas em contrato.

A RaboResearch ressalta o horizonte longo desses projetos. A implantação das práticas, o monitoramento, a verificação e a emissão dos créditos ocorrem ao longo dos anos. O retorno financeiro não ocorre de forma imediata.

Escala no campo

Entre as iniciativas citadas aparece o ReTerra, parceria entre Rabobank Brasil, Ruuts by Ovis 21 e Anthesis Group. O projeto pretende ampliar a integração lavoura-pecuária e o pastejo regenerativo adaptativo. A meta envolve pelo menos 350 mil hectares nos próximos cinco anos.

O relatório também apresenta o Programa de Agricultura Regenerativa da América do Sul, conhecido como SARA. A iniciativa concluiu sua primeira emissão em fevereiro de 2026. Foram gerados 210 mil créditos sob a metodologia VM0042 para o período de monitoramento de 2019 a 2023.

Mais de um quarto desse volume já havia sido comercializado na data do relatório. A receita alcançou cerca de 1,2 milhão de dólares. O valor implica preço médio próximo de 21,80 dólares por tonelada de dióxido de carbono equivalente. O programa atende mais de 130 fazendas em 150 mil hectares na Argentina, Chile e Paraguai. A meta prevê alcançar 500 mil hectares e superar um milhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente em remoções anuais a partir de 2028, condicionadas às verificações e à expansão do programa.

Outra iniciativa reúne AMAGGI e NaturAll Carbon em Rondônia. A primeira etapa abrange cerca de 25 mil hectares na Fazenda Carolinas. O manejo previsto inclui plantio direto, rotação de culturas, culturas de cobertura e maior uso de insumos biológicos. O projeto prevê certificação pela metodologia VM0042.

Credibilidade dos créditos

A quantificação do carbono aparece entre os principais desafios. Os projetos precisam demonstrar remoções mensuráveis e associadas às mudanças de manejo. Também precisam comprovar a manutenção dos ganhos ao longo do período definido.

O relatório aponta necessidade de sistemas robustos de monitoramento, amostragem e verificação. Os resultados ainda podem sofrer influência da variabilidade climática, de eventos meteorológicos extremos, dos preços dos créditos e da demanda dos compradores.

A regulamentação brasileira também integra esse cenário. A Lei número 15.042, de 2024, instituiu o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. O relatório considera a implementação desse sistema um componente relevante para ampliar a previsibilidade do mercado.

A meta climática brasileira para 2035 prevê redução líquida de 59% a 67% das emissões de gases de efeito estufa em relação a 2005, conforme a Contribuição Nacionalmente Determinada apresentada pelo país. Nesse contexto, a RaboResearch avalia o carbono no solo como uma possível fonte de financiamento para ampliar a adoção da agricultura regenerativa, desde que os projetos mantenham critérios de integridade, monitoramento e verificação.

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