Trigo perde, maçã ganha: o papel das abelhas no clima

Estudo alemão aponta diferenças entre cereais, oleaginosas e frutíferas sob avanço do aquecimento

19.08.2026 | 09:10 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Ali Goode / Prexels
Foto: Ali Goode / Prexels

A dependência de insetos polinizadores interfere na resposta da produtividade agrícola às mudanças climáticas. Pesquisadores da Universidade Técnica de Munique analisaram mais de 35 anos de dados de produção em duas regiões da Alemanha. Os resultados indicam perda de condições climáticas favoráveis para algumas culturas anuais. Frutíferas com alta dependência de polinização, como maçã e cereja, ainda apresentaram resposta positiva a ambientes mais quentes e secos.

O estudo avaliou dados de 1985 a 2019 na Baixa Francônia, de clima quente e seco, e na Alta Baviera, de clima frio e úmido (doi 10.1002/ece3.73751). A equipe agrupou as culturas em três classes. Cereais como trigo, milho, aveia, centeio, cevada e triticale entraram no grupo sem dependência de polinizadores. Colza, girassol e fava apresentaram dependência moderada, estimada em 25%. Maçã, pera, ameixa e cerejas integraram o grupo de forte dependência, estimada em 65%.

Aumento de produtividade

A produtividade aumentou ao longo do período nas duas regiões e nas três classes. Os pesquisadores relacionam esse avanço ao desenvolvimento tecnológico da agricultura, com melhorias em máquinas, agricultura de precisão, manejo do solo, controle de pragas e melhoramento genético. O ganho ocorreu com menor intensidade na região quente e seca. A taxa anual de aumento alcançou 1,4% nessa área, ante 3,6% na região fria e úmida. Para a equipe, o resultado indica possível redução da capacidade da tecnologia de compensar os efeitos do clima ao longo do tempo.

A análise climática mostrou diferenças mais claras entre os grupos. Culturas sem dependência de polinizadores apresentaram uma faixa ótima de produtividade associada ao clima. Esse ponto ficou deslocado para condições mais quentes e secas em comparação com a média climática de longo prazo. Culturas com dependência moderada também apresentaram um ótimo climático. Nesse caso, as condições favoráveis ocorreram em ambiente um pouco mais frio e úmido. A média climática de longo prazo já ultrapassou esse ponto ótimo para esse grupo.

Perda de produtividade

Por outro lado, os pesquisadores destacam o trigo como exemplo da perda de desempenho. Temperaturas acima da faixa ótima, solo seco e calor favorecem a formação de grãos menores e em menor número. Frutíferas ainda não apresentaram a mesma resposta. A hipótese dos pesquisadores envolve menor ocorrência de danos por geadas tardias durante a floração. Esse cenário pode favorecer a frutificação em áreas mais quentes.

As culturas com forte dependência de polinizadores apresentaram aumento de produtividade conforme as condições avançaram para ambientes mais quentes e secos. O grupo reúne principalmente árvores frutíferas. Essas plantas florescem cedo e sofrem risco de danos por geadas de primavera. Sistemas radiculares profundos também podem ampliar o acesso à água durante períodos curtos de seca. Os pesquisadores apontam ainda possível contribuição de mudanças na comunidade de insetos. Abelhas apresentam alta diversidade e abundância em regiões quentes e secas e atuam como polinizadoras de frutíferas.

Proteção contra o aquecimento?

O benefício observado para as frutíferas não indica proteção permanente contra o aquecimento. Sara Diana Leonhardt, professora de interações planta-inseto na Universidade Técnica de Munique, alerta para um possível estresse duplo. O avanço do clima pode levar a própria cultura além de sua faixa ótima. Calor e seca também podem reduzir número e tamanho das flores, além da oferta e qualidade de pólen e néctar. Com menor atratividade floral, a visitação por insetos tende a sofrer impactos.

O segundo componente desse estresse atinge os polinizadores. Insetos apresentam tolerâncias térmicas distintas. O aumento da temperatura pode alterar atividade diária, período de voo, abundância, diversidade e composição das comunidades. Mudanças na precipitação também interferem na atividade de forrageamento. Diferenças de resposta entre plantas e insetos ainda podem provocar desencontro entre o período de floração e a presença dos polinizadores.

Na região fria e úmida, anos mais quentes e secos apresentaram maior frequência de produtividades acima da média nas três classes. Na região quente e seca, a mesma condição reduziu o desempenho de culturas independentes e moderadamente dependentes de polinizadores. Para o grupo com forte dependência, anos mais quentes e secos aumentaram a ocorrência de produtividade acima da média. O padrão reforça o efeito conjunto entre clima regional e nível de dependência de polinização.

Estratégias de adaptação

Paula Prucker, pesquisadora da Universidade Técnica de Munique e primeira responsável pelo estudo, defende a inclusão das exigências climáticas das culturas e das necessidades dos polinizadores nas estratégias de adaptação. Johannes Kollmann, professor de ecologia da restauração e integrante da pesquisa, cita áreas floridas, sebes, rotações mais diversificadas e redução do uso de pesticidas entre as medidas de suporte.

A equipe ressalta a importância da diversidade de polinizadores. Comunidades com maior número de espécies ocupam uma faixa climática mais ampla. Essa diversidade pode compensar a redução de espécies sensíveis ao calor e preservar o serviço de polinização sob condições variáveis. Os pesquisadores consideram esse componente relevante para previsões de produtividade e para o planejamento da adaptação agrícola às mudanças climáticas.

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