Transição climática em 2026 deve trazer riscos agrícolas

Fenômenos de grande escala perdem força, ampliando a irregularidade das chuvas no Brasil

28.01.2026 | 13:55 (UTC -3)
Valéria Campos, edição Revista Cultivar

O cenário climático global entra em 2026 marcado por uma fase de transição que amplia a variabilidade do tempo e diminui a previsibilidade para o Hemisfério Sul. A La Niña fraca, instalada em outubro de 2025, deve perder intensidade ao longo do verão, com retorno à neutralidade do El Niño–Oscilação Sul (ENSO) previsto para março. Segundo Carolina Giraldo, analista de Inteligência de Mercado da StoneX, esse regime intermediário, menos acoplado a padrões atmosféricos bem definidos, ajuda a explicar a alternância entre extremos localizados e períodos secos registrada no fim de 2025.

A analista explia que a Oscilação Madden–Julian (MJO) seguiu ativa na virada do ano, favorecendo chuvas excepcionais no Sudeste Asiático e na Indonésia. Contudo, sua fase e configuração não estabeleceram teleconexões robustas com o sul da América do Sul em dezembro, deixando países como Argentina e Uruguai mais dependentes de processos regionais e sistemas sinóticos eventuais.

“No Brasil, a Amazônia registrou volumes expressivos em novembro, com recuperação hidrológica importante após o déficit severo de 2024, evidência da alta sensibilidade da bacia à distribuição intrassazonal das chuvas e de seus impactos sobre logística e transporte”, apontou.

Primeiro trimestre com calor acima da média e maior demanda hídrica

As projeções multimodelo para janeiro–março de 2026 indicam temperaturas acima da média em grande parte dos continentes. De acordo com Carolina Giraldo, o aumento da evapotranspiração exige atenção especial às temperaturas mínimas noturnas, que tendem a permanecer elevadas. Culturas sensíveis, como o café, segundo ela, podem ter eficiência reduzida no acúmulo de reservas, prejudicando etapas finais da frutificação.

Na América do Sul tropical e subtropical, o panorama dominante é o da irregularidade hídrica. Mesmo sem déficit significativo nos acumulados trimestrais, a má distribuição temporal das chuvas dificulta o estabelecimento de lavouras de soja e milho, amplia a variabilidade de produtividade e reduz a assertividade das estimativas de oferta.

“Esse comportamento intrassazonal é característico de anos de transição do ENSO, em que nenhum forçante de grande escala dita o padrão dominante”, explicou.

Centro-Oeste brasileiro concentra riscos para a safra 2025/26

O Centro-Oeste se destaca como área crítica no cenário climático projetado. Conforme explica a analista de mercado, há um sinal fraco, porém consistente, de maior probabilidade de precipitações abaixo da média no centro-norte de Mato Grosso, Goiás e Matopiba durante janeiro, fevereiro e março. Não se trata de uma seca estabelecida, segundo ela, mas de um regime mais irregular exatamente no período-chave que encerra a colheita da soja e inicia a implantação do milho safrinha.

Fevereiro, mês essencial para reposição hídrica do solo, concentra o principal risco: déficits mesmo temporários podem comprometer a emergência, o vigor inicial e o desenvolvimento radicular do milho, enquanto temperaturas acima da média elevam a demanda hídrica.

“Em caso de atrasos na semeadura, há ainda o risco de a cultura avançar para o outono, quando a redução de radiação e da disponibilidade térmica aumenta a possibilidade de quebra no fechamento da safra”, disse Carolina.

Ambiente de risco distribuído reforça necessidade de gestão ativa

Embora não haja sinal de choque sistêmico de oferta, Carolina Giraldo destaca que o trimestre inicial de 2026 se desenha como um período de riscos distribuídos. “A vantagem competitiva, especialmente no agronegócio, virá da capacidade de leitura fina da estação: acompanhar de perto a distribuição das chuvas, ajustar manejos conforme os estágios fenológicos e ir além das médias históricas ou dos sinais clássicos de grande escala”, finalizou.

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