Previsões elevam risco de El Niño em 2026

Chance ultrapassa 90% no fim do ano e preocupa o agro

27.04.2026 | 09:21 (UTC -3)
Inmet, edição Revista Cultivar
Desvio de TSM (°C) para a primeira quinzena de abril de 2026; elaboração: Inmet; fonte dos dados: CPC/NOAA
Desvio de TSM (°C) para a primeira quinzena de abril de 2026; elaboração: Inmet; fonte dos dados: CPC/NOAA

As projeções climáticas mais recentes indicam aumento significativo da probabilidade de formação do El Niño ao longo de 2026, elevando o nível de atenção para seus possíveis impactos sobre a agricultura brasileira. De acordo com o Centro de Previsão Climática (CPC), órgão ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica, há mais de 60% de chance de estabelecimento do fenômeno já a partir do trimestre maio–junho–julho, com probabilidade superior a 90% no segundo semestre.

Segundo o boletim divulgado em 20 de abril, o Pacífico equatorial encontra-se atualmente em condição de neutralidade, após o fim de um episódio de La Niña. A tendência, no entanto, é de transição gradual para o aquecimento das águas superficiais, característica central do El Niño, que pode persistir até 2027, a depender da sua intensidade.

 Previsão de probabilidade de El Niño, La Niña e neutralidade em cada trimestre de 2026; fonte: CPC/NOAA
 Previsão de probabilidade de El Niño, La Niña e neutralidade em cada trimestre de 2026; fonte: CPC/NOAA

Conforme o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o fenômeno faz parte do sistema El Niño-Oscilação Sul, que alterna entre fases quente (El Niño), fria (La Niña) e neutra. Durante episódios de El Niño, as temperaturas da superfície do mar no Pacífico equatorial ficam ao menos 0,5°C acima da média por períodos prolongados, influenciando diretamente os padrões climáticos globais. A formação está associada, entre outros fatores, ao enfraquecimento dos ventos alísios, que altera a circulação oceânica e atmosférica.

No Brasil, os efeitos tendem a ser contrastantes entre as regiões. Historicamente, o El Niño está associado à redução das chuvas e maior risco de estiagem no Norte e Nordeste, além de parte do Centro-Oeste e Sudeste. Nessas áreas, a irregularidade hídrica pode comprometer o desenvolvimento das lavouras, sobretudo em sistemas de sequeiro, elevando o risco de perdas.

Impacto do fenômeno ENOS na cultura de trigo na Região Sul do Brasil; fonte: dados estaduais de produtividade do trigo de 1996-2025 (Conab)
Impacto do fenômeno ENOS na cultura de trigo na Região Sul do Brasil; fonte: dados estaduais de produtividade do trigo de 1996-2025 (Conab)

Por outro lado, a Região Sul costuma registrar aumento nos volumes de precipitação, especialmente durante o inverno e a primavera. Embora isso possa favorecer a disponibilidade hídrica em determinados momentos, o excesso de chuvas pode provocar encharcamento do solo, dificultar o manejo agrícola e intensificar a incidência de doenças fúngicas.

Culturas de inverno, como os cereais, tendem a ser particularmente sensíveis ao excesso de umidade no Sul, sobretudo em fases críticas como floração e enchimento de grãos. Já na safra de verão, a combinação de veranicos em regiões mais secas e excesso de chuva no Sul pode impactar tanto o plantio quanto o desenvolvimento inicial de culturas como soja e milho.

Impacto do fenômeno ENOS na cultura de aveia na Região Sul do Brasil; fonte: dados estaduais de produtividade da aveia de 1996-2025 (Conab)
Impacto do fenômeno ENOS na cultura de aveia na Região Sul do Brasil; fonte: dados estaduais de produtividade da aveia de 1996-2025 (Conab)

Especialistas ressaltam que os efeitos do fenômeno podem variar conforme sua intensidade e a interação com outros fatores climáticos, como as temperaturas dos oceanos Atlântico e Índico. Ainda assim, o avanço da probabilidade de um novo episódio de El Niño em 2026 reforça a necessidade de monitoramento contínuo e planejamento por parte do setor agropecuário.

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