Broca-do-café favorece formigas inimigas naturais
Formigas ocupam frutos perfurados pela praga e podem ampliar o controle biológico em cafezais sombreados
Sistemas de plantio direto podem favorecer comunidades de formigas e ampliar serviços ecológicos em lavouras anuais de regiões temperadas. A manutenção dos ninhos, das galerias e das rotas de forrageamento permite maior permanência desses insetos ao longo das safras. Entre os benefícios potenciais aparecem a predação de pragas, a remoção de sementes de plantas daninhas e a melhoria da estrutura do solo. A conclusão foi apresentada por pesquisadores da Pennsylvania State University e University of Illinois (DOI 10.1002/ps.71152).
O trabalho reuniu resultados de diferentes regiões e avaliou o papel funcional das formigas em sistemas agrícolas com baixa mobilização do solo. Os pesquisadores destacam maior abundância, riqueza de espécies e atividade predatória em áreas sob plantio direto, na comparação com áreas submetidas ao preparo convencional.
A aração e outras operações intensivas podem destruir ninhos, interromper túneis e reduzir populações. O plantio direto preserva essas estruturas. A estabilidade favorece a instalação das colônias e a continuidade da atividade durante o ciclo das culturas.
Um levantamento conduzido em 90 áreas agrícolas da Carolina do Norte e da Virgínia, nos Estados Unidos, registrou diferenças na composição das comunidades entre sistemas de preparo. Treze das 17 espécies comuns ocorreram com maior frequência em áreas sob práticas conservacionistas. O grupo incluiu plantio direto, cultivo em faixas, cultivo em camalhões e preparo com cobertura morta.
Resultados obtidos no Brasil também apontaram maior abundância, riqueza e diversidade em áreas sem revolvimento. Em estudo brasileiro, citado pelos norte-americanos, o plantio direto reuniu 16 espécies de formigas. O sistema convencional reuniu nove. A atividade predatória também aumentou nas parcelas sem preparo.
As formigas atuam por diferentes mecanismos. Muitas espécies consomem ovos, larvas e outros estágios de insetos. As colônias permanecem ativas durante grande parte da estação de crescimento. Essa característica pode manter a pressão sobre pragas em períodos com menor presença de outros inimigos naturais.
A atividade não depende apenas do consumo. O deslocamento das formigas pode interromper a alimentação e a postura dos herbívoros. Sinais químicos também podem afastar insetos das plantas. Algumas espécies alcançam organismos localizados no solo ou sob resíduos culturais. As redes subterrâneas facilitam o encontro com larvas de lagartas-rosca e de besouros.
Os efeitos, porém, variam entre espécies e ambientes. Algumas formigas mantêm relações com insetos sugadores de seiva. Elas consomem secreções açucaradas e podem proteger pulgões contra predadores. Essa interação pode elevar a população da praga. Por esse motivo, os pesquisadores recomendam a avaliação da composição da comunidade antes da adoção de medidas voltadas à conservação das formigas.
A retirada de sementes representa outro serviço possível. Formigas granívoras coletam sementes na superfície e transportam o material para ninhos ou depósitos subterrâneos. Em áreas agrícolas do leste da Espanha, o plantio direto apresentou maior remoção de sementes de plantas daninhas. A densidade de ninhos de Messor barbarus também cresceu em solos sem revolvimento. Em outra região espanhola, a aração anual eliminou Messor capitatus das lavouras avaliadas.
A construção dos ninhos também modifica atributos físicos e biológicos do solo. As galerias formam bioporos e ampliam o movimento de ar, água e nutrientes. Esses canais podem favorecer a infiltração, a drenagem, o transporte de nutrientes e o crescimento das raízes. A atividade das colônias também interfere nas comunidades microbianas e na ciclagem de nutrientes.
Experimentos citados no estudo registraram aumento superior a 20 vezes na taxa de infiltração junto às entradas dos ninhos, na comparação com pontos sem ninhos. Outro trabalho observou aumento de 36% na produtividade do trigo após a atuação conjunta de formigas e cupins em ambiente seco. Os pesquisadores atribuem o resultado à melhoria da infiltração provocada pelos túneis.
O uso de plantas de cobertura pode reforçar esses efeitos. A vegetação aumenta a complexidade do habitat, oferece abrigo e amplia a disponibilidade de alimento. Raízes e resíduos elevam a matéria orgânica e sustentam organismos do solo usados como presas.
Uma pesquisa conduzida no sudoeste de Michigan avaliou rotações orgânicas de milho, soja e trigo com plantas de cobertura. As áreas orgânicas mantiveram atividade moderada das formigas durante a estação de crescimento. Nas parcelas convencionais, o forrageamento ocorreu principalmente após a colheita. A coincidência entre a atividade das formigas e o desenvolvimento das culturas duplicou o potencial de supressão de pragas durante os períodos avaliados.
A conservação das colônias também depende do manejo de inseticidas. Produtos de amplo espectro e moléculas sistêmicas podem causar efeitos letais e subletais. Tratamentos de sementes, aplicações no solo e pulverizações foliares reduzem abundância e diversidade ao longo do ciclo.
O manejo integrado de pragas oferece uma estratégia para limitar essas perdas. Uma meta-análise citada pelos pesquisadores avaliou 34 culturas. O uso de níveis de ação reduziu em 44% as aplicações de inseticidas, sem prejuízo ao controle de pragas ou à produtividade. A abordagem também favoreceu maior abundância de artrópodes benéficos.
Os cientistas propõem a integração entre plantio direto, plantas de cobertura e manejo integrado. O conjunto preserva ninhos, amplia recursos e reduz aplicações desnecessárias. Ainda faltam dados para medir o impacto econômico desses serviços em lavouras anuais de clima temperado.
Os pesquisadores defendem novos estudos sobre a composição das comunidades, a atividade sazonal e a predação de espécies de importância econômica. Análises moleculares do conteúdo intestinal e estudos com isótopos estáveis podem identificar interações pouco visíveis, inclusive a predação subterrânea e noturna.
A quantificação desses efeitos deverá indicar se as formigas conseguem reduzir populações abaixo dos níveis de dano econômico. O trabalho recomenda atenção a lagartas-rosca, larvas-arame, lesmas e estágios de pragas mantidos no solo ou na palhada. A avaliação também precisa considerar infiltração de água, remoção de sementes e retorno econômico das práticas conservacionistas.
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