Pesquisa paulista leva batata-doce biofortificada aos produtores

Cultivar desenvolvida pelo IAC apresenta alta produtividade e pode contribuir para ampliar o consumo de vitamina A

15.07.2026 | 16:38 (UTC -3)
Caíque Ribeiro de Sousa

Depois de enfrentar sucessivos prejuízos com a produção de tomate e até tentar recomeçar a vida em Mato Grosso do Sul, o produtor rural Luiz Rocha (na foto) voltou para Presidente Prudente decidido a apostar em uma cultura ainda pouco conhecida na região: a batata-doce. Era 1986. Quase quatro décadas depois, ele cultiva cerca de 160 hectares, produz aproximadamente 160 mil caixas por ano e abastece mercados do Brasil, Canadá, Holanda e países do Mercosul. Para ele, a grande virada dessa história teve um protagonista: a pesquisa pública paulista.

O ponto de inflexão aconteceu quando a Apta Regional de Presidente Prudente, unidade da Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (Apta), da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo (SAA), iniciou um trabalho junto aos produtores da região. A pesquisadora Sônia Marangoni introduziu mudas livres de vírus da variedade Canadense, permitindo um salto expressivo na produtividade das lavouras. "Ela foi a nossa madrinha. A nossa produção era de cerca de 600 caixas por hectare. A pesquisa trouxe uma planta limpa de vírus e conseguimos praticamente dobrar essa produtividade. Hoje já produzimos mais do que o dobro daquela época. Isso aconteceu graças à pesquisa", afirma Luiz Rocha. 

O aumento da produtividade veio acompanhado de ganhos em qualidade, abrindo portas para novos mercados. "Junto com a produção veio também a qualidade. Foi isso que permitiu conquistar mercados externos", destaca o produtor. Para Luiz, a pesquisa é hoje um dos principais pilares da competitividade do agronegócio paulista. “O agro não anda sem pesquisa. Os desafios são cada vez maiores e quem ajuda a encontrar as soluções são os pesquisadores. Eu sou muito grato à Apta e ao IAC. Sem eles, estaríamos estagnados." 

Depois de transformar sua produtividade com tecnologias desenvolvidas pela Apta, Luiz voltou a apostar na pesquisa pública quando conheceu a mais recente inovação do Instituto Agronômico (IAC): a batata-doce IAC Dom Pedro II. Desenvolvida por meio de melhoramento genético convencional, sem transgenia, a cultivar reúne alta produtividade, precocidade, excelente qualidade culinária e um diferencial nutricional que pode contribuir para o combate à chamada "fome oculta", caracterizada pela deficiência de vitaminas e minerais.

Comparada às cultivares de polpa branca mais plantadas no Brasil, a IAC Dom Pedro II possui teor de carotenoides até 64,71 vezes superior, alcançando até 77 microgramas de betacaroteno por grama de polpa fresca, enquanto as variedades convencionais apresentam menos de 1 micrograma. O consumo de apenas 30 a 60 gramas da cultivar é suficiente para suprir a necessidade diária de betacaroteno, precursor da vitamina A, nutriente essencial para a saúde da visão, da pele e do sistema imunológico.

Além do perfil nutricional, a nova cultivar apresenta produtividade comercial média de 67,18 toneladas por hectare, desempenho 48,6% superior ao da cultivar Canadense, principal variedade cultivada em São Paulo, além de superar em 74,9% a Mineirinha e em 120,99% a Uruguaiana. O ciclo também é mais precoce: entre 100 e 120 dias na primavera/verão e de 120 a 150 dias no outono/inverno. "Esta batata-doce apresenta produtividade superior à principal variedade cultivada no Estado de São Paulo", explica o pesquisador do IAC, Valdemir Antonio Peressin, responsável pelo desenvolvimento da cultivar.

Luiz Rocha conheceu a IAC Dom Pedro II ainda antes do lançamento comercial, quando o pesquisador Valdemir Peressin apresentou a nova cultivar aos produtores. Assim que recebeu autorização para o cultivo, decidiu implantá-la em sua propriedade. "Quando pude plantar, gostei muito. É uma batata muito produtiva, saborosa e rica em betacaroteno. É uma variedade que tem tudo para crescer", afirma. 

Nas áreas cultivadas, a produtividade já alcança até 1.200 caixas por hectare. Para o produtor, entretanto, o principal desafio ainda está fora da porteira. "O mercado acha a batata bonita e de qualidade, mas ainda compra pouco porque o consumidor não conhece. O que falta é divulgação. A dona de casa que experimenta aprova. O desafio é fazer essa batata chegar ao consumidor." 

Segundo Luiz, a IAC Dom Pedro II reúne benefícios tanto para quem produz quanto para quem consome."Ela é boa para o produtor porque produz muito bem. E é excelente para o consumidor, que passa a ter um alimento de alta qualidade e com muito mais valor nutricional."

A trajetória de Luiz Rocha mostra como o investimento em ciência ultrapassa os limites dos laboratórios e chega ao campo em forma de renda, produtividade, competitividade e alimentos mais nutritivos. Ao desenvolver tecnologias capazes de aumentar a eficiência das lavouras e oferecer cultivares biofortificadas, como a IAC Dom Pedro II, a Apta reafirma seu compromisso com uma agricultura mais sustentável, inovadora e preparada para responder aos desafios da segurança alimentar.

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