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A aplicação de peptídeo antimicrobiano da classe das ceratoxinas, isolado originalmente da rã Hypsiboas albopunctatus e modificado com o aminoácido isoleucina na posição 21, contribuiu para preservar a firmeza de morangos orgânicos durante o armazenamento refrigerado. O tratamento também influenciou sólidos solúveis e a relação entre açúcares e acidez em períodos específicos. O tempo de armazenamento, porém, respondeu pela maior parte das alterações fisiológicas e bioquímicas observadas nos frutos.
O estudo avaliou morangos da cultivar Oso Grande produzidos em Tupã, no Estado de São Paulo (DOI 10.1016/j.afres.2026.102073). Os pesquisadores dividiram os frutos em quatro grupos. O controle recebeu apenas água. Os demais lotes receberam soluções com 6,8, 13,6 e 27,2 micromoles por litro do peptídeo Ctx(Ile²¹)-Ha.
Cada lote, com cerca de 300 gramas de frutos, permaneceu imerso na solução por cinco minutos. Após secagem ao ar, os morangos seguiram para bandejas de polietileno tereftalato. O armazenamento ocorreu a cinco graus Celsius. As análises abrangeram os dias zero a cinco, com três repetições por tratamento.
Os pesquisadores mediram pH, acidez titulável, sólidos solúveis, firmeza, umidade, perda de massa e taxa respiratória. O trabalho também avaliou ácido ascórbico, compostos fenólicos, açúcares totais e atividade da enzima pectina metilesterase.
A firmeza apresentou um dos principais resultados. Os frutos alcançaram 5,5 newtons no último dia de avaliação. O valor superou a referência inicial de 4,0 newtons. A maior concentração do peptídeo, de 27,2 micromoles por litro, ajudou a manter a estabilidade da textura ao longo do período.
A manutenção da firmeza pode reduzir perdas associadas ao amolecimento. Morangos possuem tecido sensível e sofrem danos mecânicos com facilidade. A degradação da parede celular também favorece a deterioração pós-colheita.
O tratamento não provocou alterações significativas no teor de compostos fenólicos nem no conteúdo total de açúcares solúveis. Esse resultado indica preservação da composição química própria dos frutos nas condições analisadas.
Os sólidos solúveis apresentaram interação entre concentração e tempo de armazenamento. Na maior dose, o teor permaneceu em 7,6 graus Brix no quinto dia. No controle, o valor caiu para 6,1 graus Brix no mesmo período. A resposta sugere capacidade de manutenção desse parâmetro sob determinadas condições.
A relação entre sólidos solúveis e acidez titulável também variou conforme dose e tempo. Valores mais altos ocorreram em alguns momentos nos tratamentos com o peptídeo. Essa relação funciona como indicador do equilíbrio entre doçura e acidez.
Na dose de 13,6 micromoles por litro, a relação chegou a 79,6 no quinto dia. Na concentração de 27,2 micromoles por litro, os valores alcançaram 82,5 no terceiro dia e 80,9 no quinto dia. O controle registrou 43,9 ao final do armazenamento.
O avanço do armazenamento elevou o pH de 3,6 para 4,1. A acidez titulável caiu. O ácido ascórbico também recuou.
Essas mudanças acompanharam o processo natural de maturação e senescência. O peptídeo não alterou de forma consistente o pH, a acidez titulável ou a umidade. Para os pesquisadores, o resultado mostra ausência de interferência relevante nos processos fisiológicos próprios do fruto.
A análise multivariada reforçou o efeito do tempo. As amostras apresentaram separação mais clara conforme os dias de armazenamento do que conforme a concentração do peptídeo. Os dois primeiros componentes principais explicaram 45,41% da variação total dos dados.
A taxa respiratória apresentou elevada variabilidade. O conjunto original continha um valor negativo, considerado fisicamente inviável, e dois valores extremos. Os pesquisadores retiraram essas observações antes da análise. Após o ajuste, não surgiu efeito consistente do tratamento sobre a liberação de dióxido de carbono.
O resultado exige cautela. Mudanças na respiração podem ter relação maior com o tempo e com a variabilidade biológica dos frutos. Pequenas oscilações de temperatura, perda de água e danos nos tecidos também afetam a produção de dióxido de carbono.
O Ctx(Ile²¹)-Ha deriva de uma molécula encontrada na secreção da pele do anfíbio Boana albopunctata - rã presente no Cerrado brasileiro. O peptídeo já apresentou atividade contra bactérias e fungos em estudos anteriores. Neste trabalho, porém, os pesquisadores não conduziram análises microbiológicas em patógenos de morango.
Essa limitação impede concluir se o tratamento controlou microrganismos responsáveis pela podridão pós-colheita. Os dados demonstram apenas efeitos sobre atributos físicos, físico-químicos e bioquímicos.
O uso comercial ainda depende de novas etapas. Os pesquisadores recomendam estudos sobre estabilidade da molécula, impacto sensorial, custo, aplicação em escala e requisitos regulatórios. Também propõem testes contra patógenos específicos, além de combinações com revestimentos comestíveis ou embalagens com atmosfera modificada.
O trabalho foi desenvolvido pelos cientistas Lorenza Eivazian Vianna Nogueira Brandão, Jéssica Marques de Mello, Lauro Neves da Silva Junior, Luana Fernandes Melo, Thais Cristina dos Anjos Sevilhano, Luís Roberto Almeida Gabriel Filho, Camila Pires Cremasco, Angela Vacaro de Souza e Eduardo Festozo Vicente.
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