Mudança climática ameaça serviços prestados por insetos benéficos

Estudo aponta impactos sobre polinizadores, inimigos naturais e besouros coprófagos

14.08.2026 | 09:59 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Michelle McEwen / Unsplash
Foto: Michelle McEwen / Unsplash

A mudança climática causada por atividades humanas ameaça insetos responsáveis por polinização, controle biológico de pragas e ciclagem de nutrientes. O aquecimento altera a distribuição das espécies, desorganiza relações entre plantas, herbívoros e inimigos naturais e pode reduzir a eficiência de serviços ecossistêmicos usados pela agricultura. Essas conclusões constam em trabalho realizado em conjunto por pesquisadores de diversos países, que também destaca efeitos associados à perda de habitat, às invasões biológicas e às mudanças no uso da terra.

Os cientistas analisaram impactos sobre polinizadores, predadores, parasitoides e besouros coprófagos. O estudo relaciona as alterações climáticas a mudanças fisiológicas, comportamentais e fenológicas. Essas respostas podem romper a sincronização entre organismos de diferentes níveis tróficos. O resultado inclui menor persistência populacional e perda de funções ligadas à produção agrícola.

Manejo de pragas

Os riscos atingem de forma direta o manejo de pragas. Predadores e parasitoides dependem da presença e do desenvolvimento de hospedeiros ou presas. Cada organismo apresenta uma faixa térmica própria. O aumento da temperatura pode alterar o ritmo de desenvolvimento desses grupos e criar desencontros temporais entre praga e inimigo natural.

O trabalho cita evidências de redução da eficiência de forrageamento em parasitoides pequenos, com menos de três milímetros, após exposição ao estresse térmico. Chuvas intensas também podem atrasar o desenvolvimento dos insetos ou removê-los das plantas. Temperaturas elevadas prejudicam desenvolvimento, reprodução e sobrevivência de inimigos naturais. Esses efeitos diminuem o potencial de controle biológico.

Um levantamento de longo prazo realizado no leste da Ásia registrou redução de 19,3% na abundância de inimigos naturais durante dezoito anos. O mesmo trabalho identificou perda de conectividade em redes alimentares formadas por 124 pares de interações tróficas. Outro estudo encontrou mudanças em parasitoides de ovos do gênero Trichogramma. Nove das doze espécies registradas desapareceram ao longo de trinta anos de monitoramento. Duas novas espécies apareceram no período.

Pressão das pragas

A pressão das pragas amplia a importância desse processo para a segurança alimentar. Insetos-praga consomem entre 5% e 20% das principais culturas de grãos no mundo, segundo trabalhos reunidos pelos cientistas. As perdas provocadas por pragas podem crescer entre 10% e 25% para cada aumento de um grau Celsius na temperatura global. Insetos responsáveis pelo controle natural respondem por 33% das pragas controladas sem intervenção direta e fornecem um serviço avaliado em 4,5 bilhões de dólares por ano.

Desafios para polinizadores

Os polinizadores enfrentam outro conjunto de alterações. O aquecimento pode antecipar ou atrasar o florescimento das plantas e modificar os períodos de atividade dos insetos. A falta de coincidência entre esses ciclos reduz encontros entre flores e polinizadores. Calor e seca também alteram a quantidade e a composição de pólen e néctar.

Mudanças nos sinais sensoriais das flores podem afetar a capacidade de localização de recursos. Abelhas e outros visitantes florais utilizam características das plantas para associar flores a recompensas alimentares. Alterações nessas características podem reduzir a eficiência de forrageamento e comprometer interações entre plantas e insetos.

Os cientistas apontam estimativas de redução de até 40% na abundância de polinizadores até 2100 em decorrência da mudança climática. Um cenário de perda completa desses organismos poderia reduzir a produção agrícola global entre 3% e 8%. A compensação exigiria expansão da área cultivada. Comunidades mais diversas de polinizadores apresentam maior capacidade de manter a polinização sob mudanças ambientais.

Besouros coprófagos

Os besouros coprófagos também entram no grupo de risco. Esses insetos participam da remoção de esterco, da reciclagem de nutrientes e da manutenção das condições do solo, sobretudo em sistemas pecuários. Mudanças de temperatura e precipitação podem deslocar áreas adequadas para as espécies e alterar a composição das comunidades.

Um estudo citado pelos pesquisadores projeta mudanças de distribuição para 21% de 37 espécies comuns de besouros coprófagos da Europa Ocidental. Outra análise estimou perda de 81% do habitat atual de Phyllognathus excavatus, com o aumento da temperatura como principal fator associado.

As respostas variam conforme tamanho corporal, estratégia de nidificação e especialização de habitat. Espécies pequenas, com reprodução dentro da massa de esterco, podem sofrer impactos menores em alguns cenários. O esterco funciona como refúgio térmico e reduz a exposição ao calor. Espécies grandes aparecem entre os grupos mais vulneráveis em diferentes análises.

Outros fatores antropogênicos agravam os efeitos climáticos. Na pecuária, resíduos de ivermectina presentes nas fezes de bovinos reduzem riqueza, abundância e biomassa de besouros coprófagos. Em áreas de floresta tropical convertidas em pastagens extensivas, uma redução da diversidade e da biomassa desses insetos provocou queda de 40% na remoção de esterco.

Redução de impactos

Para reduzir os impactos, os pesquisadores destacam restauração de habitats, diversificação da paisagem agrícola e Manejo Integrado de Pragas. Consórcios de culturas e arranjos mais diversos criam microclimas com menor oscilação térmica e maior umidade. Essas condições favorecem a atividade de inimigos naturais.

Faixas com plantas floríferas podem ampliar recursos para polinizadores e inimigos naturais. Sistemas silvipastoris também oferecem condições para conservar besouros coprófagos. A integração entre árvores, forrageiras e animais melhora a qualidade do solo, reduz erosão e pode elevar a remoção de esterco em comparação com sistemas pecuários intensivos.

Os cientistas também recomendam menor dependência de inseticidas de amplo espectro e maior uso de produtos seletivos. Programas baseados em nível de dano econômico reduziram em 44% o número de aplicações de inseticidas e em 40% os custos associados, sem perda de controle das pragas nem de produtividade nos estudos avaliados.

Os pesquisadores defendem maior uso de modelos de distribuição de espécies, análises de redes ecológicas e modelos conjuntos de distribuição. Essas ferramentas permitem projetar deslocamentos de espécies e mudanças nas interações. Sistemas baseados em inteligência artificial, sensores automatizados, coleções biológicas e redes globais de monitoramento podem ampliar a base de dados (doi 10.1127/entomologia/3958).

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