Mercado de café deve ganhar conforto de oferta no 3º trimestre

Chegada da safra recorde brasileira tende a aliviar a pressão sobre a disponibilidade global; clima segue no radar

15.07.2026 | 14:43 (UTC -3)
José Lucas Morais

Após um primeiro semestre marcado por forte correção dos preços internacionais, o mercado global de café caminha para um terceiro trimestre de 2026 com um ambiente de oferta mais confortável, impulsionado pela entrada da safra recorde brasileira. No entanto, o atraso na colheita e a evolução do fenômeno El Niño e seus potenciais impactos sobre importantes regiões produtoras devem manter um elevado grau de atenção e volatilidade ao longo dos próximos meses.

A avaliação faz parte da 36ª edição do Relatório Trimestral de Perspectivas para Commodities da StoneX, que reúne análises sobre os principais fatores capazes de influenciar os mercados globais de commodities no terceiro trimestre de 2026. 

Depois de acumular perdas significativas desde o início do ano, o mercado passou a refletir perspectivas mais favoráveis para a oferta global, especialmente após sucessivas revisões para cima das estimativas para a safra brasileira 2026/27. A proximidade da colheita ampliou a pressão sobre os contratos futuros durante o segundo trimestre, levando o arábica aos menores níveis em cerca de um ano e meio e o robusta às mínimas de quase um ano.

Fatores que ainda sustentam volatilidade no curto prazo

Apesar desse movimento, repiques de alta registrados em junho mostraram que o mercado segue sensível a fatores que possam comprometer a disponibilidade física do produto.

“O segundo trimestre foi marcado por uma mudança importante na percepção do mercado. As atenções começaram a migrar de um cenário de escassez para uma realidade de oferta mais confortável, mas ainda existem fatores que podem gerar volatilidade, especialmente relacionados ao fluxo físico da commodity e ao clima”, afirma Leonardo Rossetti, especialista de Inteligência de Mercado da StoneX.

No Brasil, a colheita avançou sob condições que, em alguns momentos, limitaram o ritmo das operações. A comercialização pelos produtores também permaneceu mais lenta do que a média histórica, enquanto os estoques certificados da ICE seguiram em trajetória de queda. Esses fatores contribuíram para oferecer sustentação temporária às cotações, mesmo em um contexto de maior produção.

Produção brasileira deve atingir 75,3 milhões de sacas

Segundo estimativas da StoneX, a safra brasileira 2026/27 deverá alcançar 75,3 milhões de sacas, crescimento de 20,8% em relação ao ciclo anterior. O volume inclui 50,2 milhões de sacas de arábica e 25,1 milhões de sacas de robusta, consolidando um dos maiores resultados da história do país.

Com isso, a consultoria projeta um excedente próximo de 10 milhões de sacas no balanço global, alterando significativamente a dinâmica observada nos últimos anos.

“A partir de julho e, principalmente, de agosto, volumes mais expressivos da nova safra brasileira devem chegar ao mercado internacional. Isso tende a reduzir o aperto observado nos últimos anos e aliviar a pressão sobre os diferenciais de exportação”, destaca Rossetti.

No Vietnã, principal produtor mundial de robusta, a oferta também deverá crescer no ciclo 2026/27. Após duas temporadas de preços elevados incentivarem a retenção de estoques pelos produtores, os sinais mais recentes indicam retomada gradual das vendas, ampliando a disponibilidade para exportação.

O USDA estima produção vietnamita de aproximadamente 32,5 milhões de sacas, o que contribui para reforçar as perspectivas de maior oferta global no segundo semestre.

Demanda permanece resiliente mesmo com preços elevados

Pelo lado da demanda, o cenário permanece relativamente resiliente. Apesar dos preços elevados observados nos últimos anos, importantes mercados consumidores continuam demonstrando capacidade de absorção da commodity. O destaque fica para o Vietnã, cujo consumo doméstico deverá atingir um recorde histórico na temporada 2026/27, impulsionado pelo crescimento econômico e pela expansão do setor de cafeterias.

“O consumo global ainda não demonstra sinais consistentes de deterioração. Isso pode servir como fator de suporte ao mercado, caso a demanda continue absorvendo os volumes adicionais que estão chegando à cadeia”, observa o especialista.

Outro tema que deve ganhar relevância ao longo do terceiro trimestre é a normalização gradual dos estoques acumulados por produtores, cooperativas e exportadores durante o período de preços excepcionalmente elevados.

Nos últimos dois anos, a retenção de café fora dos canais comerciais contribuiu para restringir a disponibilidade imediata do produto e sustentar diferenciais historicamente altos. Agora, com preços mais baixos e safras maiores, o mercado acompanha o retorno desses volumes às cadeias de comercialização.

“Estamos observando uma transição importante. O debate deixa de estar concentrado exclusivamente no tamanho da produção e passa a incorporar também a velocidade com que os estoques retidos retornarão ao mercado. Esse processo pode limitar movimentos mais expressivos de alta nos preços se a oferta continuar aumentando”, explica Rossetti.

El Niño mantém risco climático e pode elevar volatilidade

Embora o cenário de curto prazo seja de maior conforto para a oferta, a StoneX destaca que as atenções devem voltar gradualmente para os riscos climáticos à medida que o trimestre avança.

Os modelos climáticos indicam probabilidade superior a 80% de manutenção do El Niño durante o segundo semestre, com risco crescente de intensificação para níveis fortes ou muito fortes até o final do ano.

No Brasil, as condições atuais das lavouras são consideradas positivas, mas o comportamento do fenômeno entre setembro e outubro será determinante para o potencial produtivo da safra 2027/28. Caso as chuvas permaneçam regulares durante o período de florada, as perspectivas para a próxima safra tendem a continuar favoráveis.

Por outro lado, um El Niño mais intenso poderá aumentar os riscos de déficit hídrico e temperaturas elevadas em importantes regiões produtoras de arábica e robusta.

“O final do terceiro trimestre tende a marcar uma mudança de foco do mercado. Se hoje as discussões estão concentradas no aumento da oferta, nos próximos meses as preocupações podem migrar para os impactos do El Niño sobre a próxima safra”, afirma o especialista.

Além do Brasil, o Sudeste Asiático também preocupa. Vietnã e Indonésia aparecem entre as regiões mais vulneráveis a condições de calor e seca associadas ao fenômeno, o que pode alterar as perspectivas produtivas para 2027.

Duração do fenômeno será decisiva para as cotações

Segundo a StoneX, a duração do El Niño será um fator tão importante quanto sua intensidade. Caso as projeções passem a indicar enfraquecimento já no início de 2027, os riscos para a produção global poderão ser limitados. Contudo, se o fenômeno persistir em níveis elevados, o mercado poderá começar a incorporar um prêmio climático às cotações ainda no final de 2026.

“Hoje o mercado trabalha com a expectativa de oferta abundante no curto prazo, mas o comportamento do El Niño pode redefinir as perspectivas para a safra seguinte. Por isso, apesar do cenário potencialmente baixista para os próximos meses, a volatilidade continua sendo uma característica importante para o café”, conclui Rossetti.

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