Margens de soja e milho devem crescer no Brasil em 2027

Projeção do Rabobank indica recuperação operacional, mas juros, dívidas e insumos pressionam produtores

19.10.2026 | 10:46 (UTC -3)
Revista Cultivar

As margens operacionais da soja e do milho devem avançar no Brasil na safra 2026/27, apesar do aumento dos custos de produção e das dificuldades financeiras dos agricultores. Projeções do RaboResearch, área de pesquisa do Rabobank, indicam margem de 38% para a soja e de 55% para o milho. Na safra 2025/26, os índices estimados ficaram em 24% e 46%, respectivamente.

Os números constam do relatório Field crop margin outlook 2027, divulgado em outubro. O estudo aponta recuperação tardia e desigual da rentabilidade agrícola mundial. A oferta elevada de grãos e oleaginosas limita aumentos sustentados das cotações. Os custos de fertilizantes e produtos para proteção de cultivos mantêm pressão sobre os resultados.

Custo operacional da soja

No Brasil, o custo operacional da soja deve subir de US$ 866 para US$ 899 por hectare na safra 2026/27. Para o milho, a projeção passa de US$ 739 para US$ 820 por hectare, alta próxima de 11%. Os gastos com fertilizantes na cultura do milho devem avançar 10%, de US$ 226 para US$ 248 por hectare. As despesas com defensivos aumentariam 35%, de US$ 96 para US$ 131 por hectare.

Na soja, o banco projeta aumentos de 2% tanto para fertilizantes quanto para produtos fitossanitários. Os valores passariam de US$ 284 para US$ 290 por hectare no primeiro grupo e de US$ 292 para US$ 301 por hectare no segundo.

Problemas financeiros

A melhora operacional não elimina os problemas financeiros no campo. O relatório identifica endividamento elevado após ciclos anteriores de investimento, juros altos e restrições de caixa. A inadimplência atingiu níveis recordes, acima de 8%. Essas condições reduzem os benefícios das margens projetadas.

Segundo o RaboResearch, a diferença entre os preços de venda e os custos operacionais da soja brasileira caiu após o pico de 2022 e voltou para perto da média histórica. A instituição projeta estabilidade dessa relação na safra 2026/27, na comparação com a anterior. O custo do financiamento permanece o principal ponto de pressão para os agricultores brasileiros.

Outros países

O cenário difere entre os países das Américas. Na Argentina, a margem operacional da soja deve subir de 9% na safra 2025/26 para 21% na safra 2026/27, apoiada pela recuperação dos preços. Para o milho, o indicador deve recuar de 26% para 23%. O custo operacional do milho pode aumentar 15%, com forte influência dos fertilizantes. A projeção aponta alta de 205% nas despesas com esses insumos, de US$ 84 para US$ 255 por hectare.

O estudo também destaca a carga tributária argentina. Dados da Fundación Agropecuaria para el Desarrollo de Argentina indicam comprometimento de cerca de 58% da renda agrícola com impostos. Na soja, o percentual chega a 60,7%. No milho, alcança 53,8%.

Os Estados Unidos aparecem como o mercado mais vulnerável entre os principais produtores, com margens do milho próximas do ponto de equilíbrio. O Rabobank prevê queda da margem operacional do milho de 7% em 2026 para 3% em 2027. A inclusão de todos os custos de produção levaria o resultado para terreno negativo. Para a soja norte-americana, a margem deve recuar de 18% para 15%. Programas federais de assistência atenuam parte da pressão sobre os produtores, e a alta recente dos preços pode melhorar as margens em relação às calculadas pelo banco.

Encarecimento dos fertilizantes

O encarecimento dos fertilizantes figura entre os principais fatores de risco para 2027. O conflito no Oriente Médio pressiona o mercado de nitrogenados e os preços da ureia. A volta da China às exportações de nitrogenados traz algum alívio, mas não deve compensar totalmente as perturbações na oferta. Já a ausência contínua da China nas exportações de fosfatados, os preços elevados do enxofre e a oferta global restrita mantêm altos os preços dos fosfatados.

Volatilidade nas cotações

O relatório considera a possibilidade de volatilidade nas cotações agrícolas. A produção mundial de grãos e oleaginosas pode alcançar o segundo maior volume da história, mas a redução da relação entre estoques e consumo de milho gera incertezas. O RaboResearch avalia a possibilidade de altas pontuais nos preços, sem uma valorização duradoura. Segundo a agência norte-americana NOAA, citada no relatório, o El Niño já está presente e deve persistir durante boa parte do primeiro semestre de 2027. O fenômeno não implica necessariamente perdas de produtividade, mas aumenta a incerteza sobre a produção.

Na Europa, a instituição espera recuperação das margens em 2027, após um provável ponto mínimo em 2026. O cenário pressupõe normalização da produtividade agrícola, elevação média de 10% nas receitas e redução inferior a 5% nos gastos com insumos. Sob essas condições, o valor das margens poderia crescer de 16% a 35% em relação a 2026. Em termos percentuais, a margem operacional média europeia passaria de 53% para 58%. Na Austrália, os custos de fertilizantes, diesel e fretes devem manter a rentabilidade pressionada.

O RaboResearch calcula a margem como a diferença entre a receita líquida e os custos operacionais (sementes, fertilizantes, defensivos e combustível), dividida pela receita líquida. A metodologia exclui despesas com terra e financiamento, além de eventuais subsídios governamentais. Por isso, os percentuais não representam lucro líquido da atividade agrícola.

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