Manejo de percevejos exige escala de paisagem

Trabalho aponta integração entre soja e milho para reduzir surtos de pentatomídeos no Neotrópico

01.06.2026 | 15:00 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Paulo Roberto Valle da Silva Pereira
Foto: Paulo Roberto Valle da Silva Pereira

O manejo de percevejos em sistemas de sucessão soja-milho precisa avançar da escala da lavoura para a escala da paisagem. A recomendação aparece em trabalho assinado por Weidson Plauter Sutil, Antônio Ricardo Panizzi e Adeney de Freitas Bueno. O estudo afirma que a sucessão entre soja no verão e milho na segunda safra fornece alimento contínuo aos percevejos. Esse processo forma “pontes verdes” e favorece surtos de Pentatomidae em agroecossistemas do Neotrópico.

Os pesquisadores defendem monitoramento e manejo em todo o sistema produtivo. A infestação em uma lavoura sofre influência de áreas vizinhas, culturas sucessivas, restos de colheita, plantas daninhas e soja voluntária. Por isso, o percevejo deve receber tratamento como praga do sistema, não apenas como praga de uma cultura.

Controle na soja

Na soja, o controle deve ocorrer apenas no estádio reprodutivo, de R3 a R6, quando a população atingir ou superar o nível de ação. No Brasil, a referência citada no estudo corresponde a dois percevejos maiores de 0,5 centímetro por metro de fileira em lavouras para grãos. Para campos de sementes, o limite cai para um percevejo por metro.

A aplicação de inseticidas baseada em nível de ação reduziu o uso desses produtos em média de 46,6 por cento, em comparação com produtores sem esse critério. Em dados de dez safras no Paraná, a adoção do manejo integrado de pragas reduziu pulverizações contra percevejos entre 26,3 por cento e 66,2 por cento, conforme a safra analisada.

Avanço de Diceraeus

O estudo destaca o avanço de Diceraeus furcatus e Diceraeus melacanthus nos sistemas soja-milho. A participação de Diceraeus spp. na população de percevejos passou de 3,7 por cento na safra 2014/2015 para 26,3 por cento na safra 2024/2025, segundo amostragens em lavouras de soja no Paraná. O aumento ultrapassou 700 por cento em dez anos.

O percevejo-marrom, Euschistus heros, ainda aparece como espécie de maior importância na soja. Mas os percevejos-barriga-verde ganharam relevância no sistema de sucessão. O plantio direto, a palhada e o uso intensivo da terra favorecem abrigo no solo. Esse comportamento reduz o contato dos insetos com inseticidas e dificulta o controle.

Aplicações tardias

Os pesquisadores afirmam que aplicações tardias na soja, nos estádios R7 e R8, não protegem o milho semeado depois da colheita. Nessas situações, a recomendação envolve híbridos de milho mais tolerantes, crescimento inicial rápido e tratamento de sementes com inseticidas recomendados.

A colheita da soja também entra no manejo. Grãos perdidos no solo, plantas voluntárias e plantas daninhas servem como alimento até a emergência do milho. A revisão cita perdas médias de 4 por cento a 6 por cento dos grãos durante a colheita no Neotrópico. No Brasil, esse volume pode representar de 885 mil a mais de um milhão de plantas voluntárias de soja por hectare, conforme a estimativa apresentada pelos pesquisadores.

Controle no milho

No milho, as plântulas sofrem maior risco entre a emergência e V5. Pulverizações químicas ainda podem entrar no manejo quando surtos de Diceraeus spp. atingirem ou superarem três percevejos por metro durante os estádios iniciais, até V5 a V7.

A revisão também aponta o uso de plantas tolerantes, controle biológico e ferramentas inovadoras. Cultivares de soja com tecnologia Block apresentam menor dano por percevejos. No milho, híbridos com vigor inicial, crescimento rápido, colmo mais rígido e maior capacidade de recuperação reduzem prejuízos.

Entre os agentes biológicos, o parasitoide de ovos Telenomus podisi aparece como alternativa para Euschistus heros e Diceraeus melacanthus. O estudo cita liberações de cerca de 6 mil parasitoides por hectare, feitas duas a três vezes, com intervalo de 14 dias. Fungos entomopatogênicos, como Beauveria bassiana, Metarhizium anisopliae e Cordyceps fumosorosea, também compõem o conjunto de opções.

Os cientistas afirmam que nenhuma ferramenta isolada resolve o problema. O manejo mais consistente combina nível de ação, monitoramento, redução de perdas na colheita, controle de plantas daninhas, uso de cultivares tolerantes, tratamento de sementes, controle biológico e inseticidas seletivos quando necessários.

Outras informações em doi.org/10.3390/agronomy16111087

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