Broca-do-café favorece formigas inimigas naturais
Formigas ocupam frutos perfurados pela praga e podem ampliar o controle biológico em cafezais sombreados
Baixas concentrações de ácido bórico e tiametoxam em iscas açucaradas provocaram respostas comportamentais opostas em colônias de formiga-argentina, Linepithema humile. O ácido bórico ampliou a concentração de operárias dentro do ninho e reduziu a atividade na área de forrageamento. O tiametoxam levou as formigas para fora do abrigo e aumentou a circulação no ambiente externo. Os resultados vieram de um estudo conduzido na Universidade da Califórnia, em Riverside, nos Estados Unidos (DOI 10.3390/insects17080785).
A pesquisa avaliou efeitos subletais dos dois ingredientes ativos. Os cientistas buscaram simular a diluição dos inseticidas após a trofalaxia, processo de compartilhamento de alimento entre integrantes da colônia. Essa transferência pode expor grande parte da população a doses inferiores às concentrações letais.
A formiga-argentina representa uma praga invasora em ambientes agrícolas, urbanos e naturais. A espécie mantém associação com insetos produtores de honeydew, ou exsudatos açucarados, e pode favorecer populações de pragas sugadoras. Sua capacidade de formar supercolônias e deslocar artrópodes nativos também amplia o impacto ecológico.
O experimento utilizou colônias de laboratório com média de 294 operárias. A maioria dos grupos continha de uma a três rainhas, além de quantidades semelhantes de ovos e formas imaturas. Cada colônia permaneceu em uma arena formada por tubo de nidificação, fonte de umidade e área de forrageamento.
Os pesquisadores prepararam uma isca com ácido bórico a 0,2% e outra com tiametoxam a 0,00005%. Ambas continham solução de sacarose a 25%. O grupo controle recebeu apenas a solução açucarada. Cada tratamento reuniu dez colônias.
A equipe forneceu dez microlitros de isca por colônia em aplicação única. Não havia outra fonte de alimento. Imagens do ninho e da área externa foram registradas antes da aplicação e a cada 24 horas, durante três dias.
O ácido bórico aumentou em 25,6% a densidade de formigas dentro do ninho. Ao mesmo tempo, a atividade fora do abrigo caiu 56,3%. No terceiro dia, as colônias tratadas apresentavam agrupamentos mais densos próximos à fonte de umidade e poucas operárias na área de forrageamento.
O número médio de formigas na área externa caiu de 17,4 no início do ensaio para 7,6 no terceiro dia. Dentro do ninho, o total de operárias no agrupamento subiu de 189,6 para 216,6 no mesmo período.
Os cientistas relacionam essa resposta aos efeitos do ácido bórico sobre o sistema alimentar dos insetos. A substância pode causar danos nas células epiteliais do intestino médio e dos túbulos de Malpighi, estruturas ligadas à absorção, excreção e equilíbrio hídrico. A maior concentração de operárias perto da umidade pode representar uma resposta à perda de água. A pesquisa não confirmou esse mecanismo, mas aponta essa hipótese.
O tiametoxam produziu resposta inversa. A densidade no ninho caiu 36,5%, enquanto a atividade externa aumentou 862,3%. O número médio de operárias na área de forrageamento passou de 19,9 antes da aplicação para 191,5 no terceiro dia.
Também ocorreu redução no número de formigas reunidas dentro do ninho. A média caiu de 269 para 90 operárias. O volume ocupado pelo agrupamento passou de 2,46 mililitros para 1,27 mililitros. Os dados indicam perda de coesão da colônia e deslocamento de grande parte das operárias para fora do abrigo.
O tiametoxam pertence ao grupo dos neonicotinoides. O ingrediente ativo atua nos receptores nicotínicos de acetilcolina do sistema nervoso dos insetos e pode provocar superestimulação neuronal. No estudo, a exposição aumentou a permanência das formigas em áreas iluminadas.
Em um ensaio individual, cada operária permaneceu durante dez minutos em uma arena dividida entre zona clara e escura. As formigas tratadas com tiametoxam passaram, em média, 313,5 segundos na área iluminada. O grupo controle permaneceu 264,7 segundos no mesmo local. Na zona escura, o tempo médio caiu de 325,9 segundos no controle para 283,5 segundos após a exposição ao inseticida.
Nenhum tratamento alterou a distância total percorrida pelas formigas. Os grupos caminharam entre 819 e 848 centímetros durante os dez minutos de observação. Esse resultado indica manutenção da mobilidade individual. As diferenças ocorreram na escolha do local e na organização coletiva.
Os resultados trazem implicações para o manejo. A queda rápida no forrageamento após a aplicação de ácido bórico pode refletir não apenas mortalidade, mas também permanência das operárias dentro do ninho. Esse comportamento pode reduzir novas visitas à isca e limitar exposições adicionais.
Com o tiametoxam, o aumento da circulação externa pode elevar o consumo da isca e favorecer a distribuição do ingrediente ativo pela colônia. Ao mesmo tempo, a presença de muitas formigas fora do ninho pode transmitir a impressão de crescimento da infestação nos primeiros dias após o tratamento.
O estudo acompanhou as colônias por três dias após a aplicação. Os cientistas recomendam novas avaliações por períodos maiores. Ensaios futuros poderão indicar se as alterações persistem, aumentam ou desaparecem, além de verificar eventual recuperação das operárias expostas.
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