Gargalos logísticos entram em debate no 2º Cotton Day

Evento debateu em Santos (SP) o futuro das exportações de algodão

24.06.2026 | 14:42 (UTC -3)
Catarina Guedes

O Brasil consolidou sua posição como maior exportador mundial de algodão e já responde por cerca de um terço do comércio global da fibra. Para a Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), a manutenção dessa liderança passará pela capacidade do país de ampliar investimentos em infraestrutura logística, aumentar a eficiência operacional e reduzir gargalos que impactam a competitividade das exportações. O tema foi um dos eixos abordados no 2º Cotton Day Santos, realizado nesta terça-feira (23), na Associação Comercial de Santos (ACS).

Promovido pela Associação Comercial de Santos (ACS), em parceria com Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa), Associação Nacional dos Exportadores de Algodão (Anea), Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil) e Cotton Brazil. O encontro teve como tema "Conectando players, impulsionando soluções e construindo o futuro através do Porto de Santos" e reuniu produtores, exportadores, operadores logísticos, autoridades portuárias, representantes de entidades setoriais e especialistas para discutir soluções capazes de aumentar a competitividade do algodão brasileiro nos próximos anos.

Dados da Anea mostraram que cerca de 85% do transporte do algodão brasileiro ainda é realizado por rodovias, enquanto aproximadamente 95% das exportações passam pelo Porto de Santos, considerado atualmente o maior porto de movimentação de algodão do mundo. Recentemente, segundo a entidade, o país superou a marca de 3 milhões de toneladas exportadas, resultado construído ao longo de mais de duas décadas de investimentos em produtividade, qualidade, sustentabilidade e rastreabilidade.

“É também o resultado de trabalho conjunto entre produtores, exportadores, operadores logísticos, terminais e autoridades públicas. Com isso, aumenta nossa responsabilidade de buscar soluções para manter a competitividade do setor”, afirmou o presidente da Anea, Dawid Wajs.

Já o presidente do Comitê de Logística da Anea, Brenno Queiroz, chamou atenção para a necessidade de ampliar investimentos em modais ferroviários, capacidade portuária e planejamento operacional. "O desafio é garantir que a infraestrutura evolua na mesma velocidade das exportações. O setor já convive com atrasos recorrentes nas operações portuárias, janelas reduzidas para movimentação de contêineres e limitações operacionais que elevam custos e reduzem a competitividade brasileira frente a outros exportadores globais”, explicou.

Durante a apresentação, o executivo lembrou que aproximadamente 40% das exportações brasileiras de algodão são realizadas por terminais certificados pelo ABR-LOG, programa de certificação socioambiental voltado aos terminais retroportuários que operam a fibra. O objetivo da Anea é trabalhar para aumentar esse percentual.

Certificação logística

Outro tema que ganhou destaque durante o Cotton Day foi o avanço do ABR-LOG. Desenvolvido a partir de uma iniciativa entre produtores, exportadores e operadores logísticos, o programa estabelece critérios relacionados à segurança, sustentabilidade, governança, gestão de pessoas e eficiência operacional. A meta do setor é ampliar a participação de terminais certificados nos próximos anos, fortalecendo padrões reconhecidos internacionalmente e agregando valor à cadeia logística do algodão brasileiro.

Para o presidente da Abrapa, Gustavo Piccoli, a iniciativa demonstra que a competitividade do algodão brasileiro não depende apenas da produção dentro das fazendas. "Programas como o ABR-LOG ajudam a fortalecer a reputação do algodão brasileiro junto aos mercados internacionais ao criar parâmetros comuns de qualidade, segurança e responsabilidade socioambiental em toda a cadeia”, disse.

Ele também ressaltou a necessidade de avançar na redução da burocracia e em investimentos estruturantes para manter a competitividade das exportações. "Precisamos avançar na desburocratização e reduzir o custo Brasil para manter a competitividade das exportações. Esse é um desafio que envolve todos os setores ligados à cadeia do algodão”, pontuou.

Desafio coletivo

Ao longo da programação, os participantes debateram a conjuntura atual do mercado, os desafios das exportações, os avanços do Cotton Brazil na promoção internacional da fibra. Também abordaram os sistemas Shiva e ePhyto, utilizados pelo Vigiagro (Vigilância Agropecuária Internacional), do Ministério da Agricultura e Pecuária, para certificação fitossanitária eletrônica de produtos de origem vegetal, além de iniciativas de representatividade do setor. O encerramento foi marcado por um debate sobre infraestrutura logística e portuária, reunindo representantes do setor produtivo, especialistas em infraestrutura, operadores e autoridades ligadas ao ambiente regulatório.

Para a Anea, com exportações que devem permanecer em patamares recordes nos próximos anos, o desafio do setor já não está apenas em produzir mais, mas em garantir que logística, infraestrutura e regulação acompanhem o ritmo de crescimento que transformou o Brasil no principal fornecedor mundial da fibra.

"Fóruns como o Cotton Day são fundamentais porque aproximam todos os agentes da cadeia. Muitas vezes, as melhores soluções surgem justamente das conversas, da troca de experiências e da construção conjunta de oportunidades”, concluiu o presidente da Anea.

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