Embrapa e China cooperam para levar IA à agricultura familiar

Memorando prevê desenvolvimento conjunto de soluções digitais e implantação de centros-piloto de máquinas agrícolas inteligentes

05.10.2026 | 14:22 (UTC -3)
Maria Clara Guaraldo
Foto: Jayme Barbedo
Foto: Jayme Barbedo

A Embrapa e quatro instituições chinesas firmaram um Memorando de Entendimento (MoU) para ampliar a cooperação científica e tecnológica entre os dois países, com foco no desenvolvimento e na aplicação de inteligência artificial (IA) para a agricultura familiar. O acordo foi assinado durante missão da Embrapa à China, em setembro. Ele prevê a criação do Centro de Cooperação Brasil-China para Aplicação de IA, além de pesquisas conjuntas, intercâmbio de pesquisadores e técnicos, capacitação e implantação de centros-piloto de máquinas agrícolas inteligentes no Brasil.

Assinado pela Embrapa, Universidade Agrícola de Nanjing (NAU), Academia de Ciências Agrícolas de Jiangsu (JAAS), Sinomach Digital Technology Corporation e Associação Internacional para a Cooperação Popular (IAPC), o Memorando estabelece uma estrutura para organizar projetos de interesse comum e aproximar competências científicas, tecnológicas e institucionais dos dois países. A vigência prevista é de cinco anos.

Para a presidente da Embrapa, Silvia Massruhá, a parceria responde a um desafio estratégico da agricultura brasileira: ampliar a inclusão digital de pequenos e médios produtores e evitar que a incorporação de novas tecnologias aumente a distância entre os diferentes segmentos da produção. “Se a gente não fizer uma inclusão digital do pequeno e médio produtor, da agricultura familiar, vai aumentar o gap entre eles e os grandes produtores”, explica.

Tecnologia adaptada à realidade brasileira

A parceria parte do entendimento de que as tecnologias digitais precisam ser adaptadas às diferentes realidades agrícolas. O objetivo não é apenas transferir soluções desenvolvidas de um país para o outro, mas estabelecer um processo no qual conhecimentos e tecnologias sejam avaliados, adaptados e validados de acordo com as condições de cada sistema produtivo.

“Não é só transferir tecnologia. Na verdade, trata-se de codesenvolvimento, adaptar as soluções para a nossa realidade”, explica Silvia Massruhá. A presidente destaca que essa adaptação é particularmente importante no Brasil, que reúne diferentes sistemas de produção e seis biomas.

O Memorando contempla justamente essa diversidade. As tecnologias poderão ser aplicadas a diversas cadeias e culturas agrícolas, incluindo fruticultura, hortaliças, milho, soja, arroz e outras atividades desenvolvidas pela agricultura familiar. Entre as soluções previstas estão máquinas agrícolas inteligentes, plataformas digitais, internet das coisas (IoT), big data, inteligência artificial, serviços agrícolas socializados e modelos de culturas, além de equipamentos e dispositivos voltados a propriedades de pequeno e médio porte.

Centros-piloto e intercâmbio científico

Uma das principais frentes previstas é o estabelecimento conjunto de Centros de Serviços de Maquinário Agrícola Inteligente em assentamentos de agricultura familiar no Brasil. As áreas-piloto deverão permitir a demonstração de máquinas e plataformas inteligentes e a avaliação de tecnologias em condições reais de produção. Sensores, dispositivos de IoT, big data e inteligência artificial poderão ser combinados e empregados nesses locais para monitoramento, análise e apoio à tomada de decisões.

Plataforma para a agricultura do futuro

Para Silvia Massruhá, a cooperação com a China integra uma agenda mais ampla da Embrapa para preparar a agricultura brasileira para novos desafios. A presidente destaca três grandes plataformas que vêm orientando essa agenda: agricultura de baixo carbono, produtos de base biológica e agricultura digital. “A plataforma digital é também transversal, para poder agregar mais valor e poder trazer essa inclusão digital para a agricultura familiar”, acrescenta. Silvia destaca que a Embrapa possui dados e informações sobre agricultura tropical que podem ser combinados às novas tecnologias para aprimorar sistemas de produção e subsidiar políticas públicas. A expectativa é que a cooperação permita avançar também na geração de novos modelos de negócio e melhoria da renda dos agricultores familiares.

Também estão sendo avaliadas a integração das unidades de demonstração ao Programa Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (PNater), assim como a possibilidade de replicação das experiências em outros assentamentos.

O acordo prevê ainda o intercâmbio de pesquisadores, técnicos e estudantes de pós-graduação, missões técnicas, workshops, seminários, cursos de capacitação e colaboração remota entre as instituições. As cooperativas envolvidas nas áreas-piloto também terão participação na coleta e gestão dos dados gerados nas atividades.

A experiência chinesa em agricultura digital e mecanização inteligente será uma das bases para a avaliação de tecnologias aplicáveis aos projetos-piloto brasileiros. A Sinomach Digital Technology Corporation integra a frente de tecnologia digital. Durante a missão da Embrapa à China, foram visitadas iniciativas que utilizam robótica, automação e inteligência artificial na produção agrícola.

A delegação brasileira conheceu, por exemplo, braços robóticos empregados na colheita de morango, tomate, uva e outras frutas, além de sistemas de monitoramento que integram diferentes sensores e permitem acompanhar informações do campo em tempo real.

“A aproximação com a Sinomach nos abre uma porta no sentido de trazer essas inovações para o Brasil e fazer uma adaptação para a nossa realidade”, explica Luciana Alvim Santos Romani, pesquisadora da Embrapa Agricultura Digital. Junto com Silvia Massruhá, ela é uma das coordenadoras do Semear Digital, projeto liderado pela Empresa que busca a ampliação do acesso de pequenos e médios agricultores a novas tecnologias.

Segundo a pesquisadora, a proposta é fazer a chamada “tropicalização” dessas soluções, associando conhecimentos que já estão sendo gerados no Brasil e adaptando equipamentos e tecnologias às condições brasileiras. Ela cita, por exemplo, robôs para monitoramento de plantas, contagem de frutos e estimativas de produção, além de tratores de menor porte, considerados potencialmente adequados a propriedades pequenas e médias brasileiras.

Semear Digital: tecnologia a partir das demandas do produtor

A experiência do Semear Digital ajuda a explicar a abordagem que a Embrapa pretende levar para a cooperação com a China. O projeto, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), trabalha com dez pilotos em diferentes regiões do Brasil, chamados Distritos Agrotecnológicos (DATs), envolvendo sistemas produtivos e realidades distintas, como café no Sudeste, fruticultura no Sul, açaí no Norte, licuri e mel no Nordeste e integração pecuária-floresta no Centro-Oeste.

O diferencial do modelo está em começar pelas demandas dos produtores, associações e cooperativas, e não pela tecnologia. A equipe identifica as necessidades, os gargalos de conectividade e de capacitação e, a partir desse diagnóstico, avalia como ferramentas como inteligência artificial, blockchain e internet das coisas podem contribuir para reduzir custos, melhorar a gestão, aumentar a eficiência e agregar valor à produção, além de apoiar diferentes atividades dentro da propriedade. A experiência também gera uma metodologia que pode ser replicada em outros locais.

“É justamente essa lógica que pode orientar a parceria Brasil-China: identificar as necessidades da agricultura familiar, combinar conhecimentos e tecnologias dos dois países e desenvolver soluções adaptadas aos diferentes contextos da agricultura”, acrescenta Luciana Alvim Romani.

Um dos exemplos do Semear Digital é o trabalho com pequenos e médios produtores de café em Caconde (SP). A demanda inicial da associação local era uma máquina de torrefação compartilhada. A partir dela, foram identificadas outras necessidades, como energia, conectividade, capacitação e produção de bioinsumos.

A experiência contribuiu para a transformação da associação em cooperativa e para a conquista do selo de café orgânico. A piscicultura também surgiu como uma alternativa para a diversificação de renda, integrada à atividade cafeeira local. A partir do Semear Digital, soluções digitais como aplicativos móveis vêm sendo aprimorados para auxiliar os produtores na gestão mais eficiente da produção de peixes.

Outra experiência do projeto acontece em Boa Vista do Tupim, na Bahia, onde duas novas cooperativas de agricultores foram constituídas na região, em setembro: a Florada do Sertão e a Raízes do Tupim, voltadas para as cadeias produtivas do mel e do licuri. A organização por meio das cooperativas representa estratégia importante para viabilizar o acesso a inovações que atendam às demandas locais.

Ao longo de dois anos, os agricultores passaram por processos de formação em cooperativismo. “Nesse período, nós auxiliamos no restabelecimento do processo de confiança e na construção das cooperativas, mais adequadas à comercialização de produtos”, explica Francine de Camargo Procópio, bolsista do Semear Digital vinculada à Esalq/USP, que vem coordenando os trabalhos.

A atuação em Boa Vista do Tupim também envolve a produção de mel. Como parte desse trabalho, foi criada uma associação de mulheres voltada à atividade. A equipe do projeto participa da formação dos produtores, incluindo orientações relacionadas à estrutura da casa do mel e aos procedimentos necessários para a produção.

Breves (PA), no Marajó, é outro distrito agrotecnológico do projeto Semear Digital. Ali a extração do açaí tem predominado na formação de renda de subsistência das famílias. Mas há dois anos, o cenário começou a mudar a partir da troca de conhecimentos com equipes de pesquisa sobre o manejo de mínimo impacto de açaizais nativos e o uso de abelhas nativas na polinização. Na comunidade de Jupatituba, os ribeirinhos tiveram acesso à plataforma web Infobee, com serviços e informações sobre meliponicultura, e ao aplicativo Manejatech-açaí, desenvolvidos pela Embrapa e parceiros. Os resultados preliminares já vem mostrando um incremento na produtividade, além de ganhos com manutenção da biodiversidade, bem-estar social e segurança alimentar.

Já na região Sul, em Vacaria (RS), o Semear Digital atua no desenvolvimento de pesquisas em robótica e inteligência artificial para ajudar os produtores de maçãs. A equipe trabalha num protótipo de robô que poderá ser usado para estimar com mais precisão a produção dos pomares e superar outros desafios do setor, como a falta de mão de obra para a colheita. Os produtores de pequenas frutas da região, como amora e framboesa, também são foco do projeto.

Além de testar e validar novas soluções digitais, a iniciativa trabalha para capacitar os produtores locais. Exemplo disso foi a oficina, realizada em agosto deste ano, em que agricultores aprenderam a montar e operar mini estações meteorológicas. Ao permitirem o acompanhamento direto no celular de dados de chuva, temperatura e umidade, essas estações ajudam no planejamento de colheitas e pulverizações, preparando as propriedades para eventos climáticos extremos.

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