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A variabilidade climática é um dos fatores com impacto sobre a produtividade e a estabilidade da agricultura brasileira. Para subsidiar os mecanismos de gestão de riscos climáticos, a Embrapa iniciou o projeto de pesquisa “Métricas e Indicadores de Níveis de Manejo para subsidiar o aperfeiçoamento do Zoneamento Agrícola de Risco Climático – Zarc”. Coordenada pela Embrapa Cerrados (DF), a iniciativa vai avaliar e validar, ao longo de quatro anos, a integração da qualidade do manejo do solo à avaliação de riscos com adversidades do clima em sistemas de produção de grãos e cana-de-açúcar em regiões tropicais do País.
Estudos indicam que o setor agropecuário nacional registra perdas anuais estimadas em mais de R$ 11 bilhões devido a riscos diversos, dos quais cerca de 75% são atribuídos a eventos climáticos como irregularidades de chuvas, granizo e ventos fortes. Nesse cenário, a disponibilidade hídrica durante o ciclo de crescimento das culturas é apontada como um dos principais fatores limitantes ao potencial produtivo e à estabilidade do rendimento das safras.
O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), instituído em 1996, é uma tecnologia que indica as épocas de semeadura com menores probabilidades de ocorrência de adversidades climáticas. A metodologia evoluiu para integrar a qualidade do manejo do solo à avaliação de riscos em sistemas de produção de grãos, originando o Zarc Níveis de Manejo (ZarcNM), sob a premissa de que solos manejados de forma conservacionista apresentam maior resiliência à seca. A metodologia vincula a adoção dessas práticas a programas de seguro rural.
A primeira fase de testes com o ZarcNM ocorreu na safra 2025/26 com a cultura da soja no Paraná, onde foi verificada a viabilidade de classificar as lavouras em quatro níveis de manejo (NM1 a NM4) para balizar a subvenção. No entanto, os indicadores utilizados foram validados originalmente sob condições de solo e clima subtropicais.
O novo projeto pretende expandir a metodologia do ZarcNM para todo o território nacional, considerando as dinâmicas de solo, intemperismo e regimes hídricos de regiões tropicais. Serão avaliados indicadores para a classificação de níveis de manejo e quantificados os impactos na produtividade e na resposta agroclimática dos sistemas produtivos tropicais.
Segundo o pesquisador Fernando Macena, líder do projeto, a transposição dos indicadores calibrados na região Sul para o ambiente tropical requer validação científica para evitar distorções. “As temperaturas médias do Brasil tropical aceleram a decomposição da matéria orgânica, e o comportamento físico-hídrico desses solos exige parâmetros de classificação adaptados a cada bioma”, explica Macena, acrescentando que a variabilidade local na região Sul também passará por consolidação de dados para conferir robustez à metodologia ampliada.
A estratégia do projeto baseia-se na coleta de dados e no monitoramento em ambientes tropicais, além da validação metodológica no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. O objetivo é mensurar o impacto de práticas como o Sistema Plantio Direto, a manutenção de cobertura permanente e a rotação de culturas na capacidade de retenção de água pelo solo e no desenvolvimento do sistema radicular das plantas.
“O desempenho de uma lavoura diante de uma estiagem está associado tanto ao regime de chuvas quanto à condição do solo. Solos estruturados e biologicamente ativos auxiliam na mitigação dos efeitos de veranicos, por exemplo. O projeto mapeará essas interações para que o ZarcNM registre as respostas associadas às práticas agrícolas adotadas”, afirma o pesquisador.
Estão previstas atividades envolvendo a construção de uma base de dados de campo; a avaliação de indicadores para os principais sistemas de produção agrícola brasileiros, disponibilização de dados científicos de saúde do solo e de serviço ambiental; sensoriamento remoto e ferramentas de geoprocessamento para o monitoramento de indicadores de manejo; a calibração de modelos biofísicos para avaliação de riscos climáticos em níveis de manejo padrão; e a promoção de ações de comunicação e de transferência de tecnologia.
Até junho de 2030, o projeto prevê a inserção de uma base de dados unificada no Repositório de Dados de Pesquisa da Embrapa (Plataforma Redape). Os resultados servirão como base técnica para o aperfeiçoamento de programas de seguro e crédito rurais.
A calibração de modelos biofísicos visa fornecer ao mercado segurador e aos órgãos formuladores subsídios para a aplicação de uma metodologia de subvenção baseada em manejos conservacionistas. Os ajustes nos critérios de classificação do ZarcNM permitirão estender a metodologia para as demais regiões produtoras, com foco na estabilidade produtiva e na fundamentação técnica para a concessão de crédito rural.
O projeto será desenvolvido por uma rede multidisciplinar que envolve unidades da Embrapa e instituições estaduais parceiras, como a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri). Além da Embrapa Cerrados, participam as unidades Acre, Agricultura Digital, Agropecuária Oeste, Agrossilvipastoril, Algodão, Amazônia Oriental, Arroz e Feijão, Clima Temperado, Mandioca e Fruticultura, Meio-Norte, Pecuária Sudeste, Pesca e Aquicultura, Milho e Sorgo, Roraima, Semiárido, Soja, Tabuleiros Costeiros, Territorial e Trigo.
“A atuação em rede busca garantir a padronização metodológica do projeto. O trabalho reúne especialistas em solo, clima, modelagem computacional e comunicação de diferentes regiões produtoras para a adequação da ferramenta de zoneamento às especificidades da agricultura tropical brasileira”, conclui Macena.
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