El Niño exige planejamento no campo, alerta Embrapa

Pesquisadores orientam produtores do Sul a adotar medidas para reduzir perdas com excesso de chuvas

14.07.2026 | 15:26 (UTC -3)
Cristiane Betemps
Foto: Paulo Lanzetta
Foto: Paulo Lanzetta

Diante da probabilidade de 97% a 99% de permanência do fenômeno climático El Niño até o início de 2027, sete unidades da Embrapa – Clima Temperado (RS), Florestas (PR), Pecuária Sul (RS), Soja (PR), Suínos e Aves (SC), Trigo (RS) e Uva e Vinho (RS) - elaboraram uma nota técnica com recomendações para reduzir riscos na agropecuária da Região Sul. O material orienta produtores sobre medidas preventivas para minimizar prejuízos provocados por chuvas intensas, aumento da incidência de doenças nas lavouras e outros impactos previstos para diferentes sistemas de produção.

Esse cenário é apontado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), que também estima em 63% a probabilidade de o fenômeno atingir intensidade muito forte entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. Para a região Sul, a previsão indica aumento das chuvas, maior nebulosidade e temperaturas acima da média durante o inverno, condições que podem afetar diferentes sistemas produtivos.

Os centros de pesquisa da Embrapa, responsáveis pela elaboração da nota técnica, compõem a Plataforma Colaborativa para Mitigação de Efeitos Climáticos Adversos na Agropecuária da Região Sul do Brasil. Mais do que alertar para os riscos, o documento busca oferecer informações técnicas que permitam o planejamento antecipado das atividades no campo, reduzindo prejuízos e evitando interpretações alarmistas sobre os efeitos do El Niño.

Segundo o pesquisador Gilberto Cunha, agrometeorologista da Embrapa Trigo, o conhecimento acumulado ao longo das últimas décadas permite que produtores, técnicos e instituições atuem de forma preventiva. O documento ressalta que a incerteza natural dos fenômenos climáticos não deve ser motivo para inação, mas sim para fortalecer a gestão dos riscos com base em evidências científicas e monitoramento constante. “Hoje sabemos muito mais sobre o El Niño do que sabíamos na década de 1980. O desafio não é prever o fenômeno, mas transformar esse conhecimento em decisões no campo”, complementa.

Ele destaca ainda que os impactos do El Niño não são inevitáveis. “O conhecimento acumulado sobre eventos anteriores permite reduzir riscos e, em alguns casos, até aproveitar condições ambientais favoráveis para determinadas culturas”, diz.

A estratégia proposta pela Embrapa combina ações de prevenção, mitigação e transferência de riscos. Além das boas práticas de manejo, a nota reforça a importância do seguro rural e da tomada de decisões com base em previsões climáticas oficiais.

Planejamento é a principal ferramenta

Entre as recomendações gerais, estão o respeito ao Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), o acompanhamento das previsões emitidas por órgãos oficiais, o planejamento criterioso dos investimentos e a adesão a programas de seguro rural. Ao mesmo tempo, traz orientações específicas para cada cadeia produtiva, reconhecendo que os impactos do El Niño variam conforme as características de cada cultivo.

A publicação também propõe que produtores ajustem investimentos e expectativas de rendimento às condições previstas para anos de El Niño, evitando decisões baseadas em cenários de produtividade excepcional e adequando o uso de insumos ao potencial real das lavouras.

Para os cereais de inverno, como trigo, cevada e aveia, as orientações se concentram na prevenção de doenças, manejo da adubação e planejamento da colheita. Já para soja, milho e arroz irrigado, o documento apresenta estratégias para reduzir perdas provocadas pelo excesso de chuva, melhorar a drenagem das áreas, proteger o solo contra a erosão e intensificar o monitoramento fitossanitário.

Na fruticultura, as orientações contemplam culturas como videira, macieira, pessegueiro, oliveira e nogueira-pecã, com medidas voltadas à drenagem dos pomares, manejo fitossanitário, conservação do solo e planejamento das operações agrícolas. A nota também dedica capítulos específicos à silvicultura, horticultura, pastagens e plantas de cobertura, reafirmando estratégias próprias de adaptação às condições climáticas previstas.

Segundo o pesquisador Alex Mayer, da Embrapa Clima Temperado, a fruticultura está entre as atividades agrícolas mais afetadas pelos impactos associados ao El Niño, especialmente em razão do excesso de chuvas e da ocorrência de eventos extremos. "A produção de frutas é muito sensível. Além do encharcamento do solo, que pode comprometer o sistema radicular e levar à morte das plantas, também podem ocorrer perdas provocadas por ventos intensos, granizo e erosão, prejudicando pomares, estruturas de cultivo e a própria produtividade", explica.

Além das recomendações técnicas para as propriedades rurais, o documento propõe uma abordagem mais ampla de planejamento ambiental, incentivando ações em escala de microbacias hidrográficas, conservação do solo, fortalecimento da infraestrutura natural e adoção de sistemas produtivos mais resilientes, como os Sistemas Agroflorestais (SAFs) e a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF).

Transferência de tecnologia e comunicação

Outro destaque da nota técnica é a importância da transferência de tecnologia e da comunicação com os produtores. A Plataforma Colaborativa prevê a capacitação contínua de profissionais da assistência técnica e a produção de conteúdos digitais, aplicativos e materiais de fácil acesso para ampliar a disseminação das recomendações.

Para José Reinaldo Moraes, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, “a principal mensagem da publicação é que, embora o El Niño exija atenção, ele é um evento previsível e não é sinônimo de problema garantido e, sim, de mudança de padrão de risco. Seus impactos podem ser reduzidos com planejamento antecipado, adoção de boas práticas agrícolas e acesso a informações técnicas qualificadas. Essas medidas são fundamentais para aumentar a resiliência dos sistemas produtivos diante dos eventos climáticos previstos”, destaca. 

Cunha endossa: "Não podemos mais aceitar passivamente a inabilidade para lidar com impactos adversos". Para o pesquisador, as lições deixadas pelos eventos climáticos passados, não podem ser ignoradas. Muito pelo contrário, devem auxiliar a enfrentar as adversidades, manter estado de atenção e vigilância sobre obstáculos que, por ventura, possam surgir durante o período de maior alerta do El Niño.

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