Deriva de herbicidas causa R$ 210 milhões em perdas no RS

Estudo inédito aponta impactos da contaminação em vinhedos gaúchos entre 2018 e 2025 e projeta novos prejuízos

06.08.2026 | 16:38 (UTC -3)
Diego Adami

Pela primeira vez, a vitivinicultura gaúcha passa a contar com um estudo que dimensiona os impactos econômicos provocados pela deriva de herbicidas hormonais. A pesquisa, apresentada nesta quinta-feira (6/8) pelo Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) e viabilizada pela Fundação Empresa-Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (FEENG), com execução pelos pesquisadores do IFRS Campus Bento Gonçalves, reúne dados oficiais, georreferenciamento, entrevistas com produtores e projeções econômicas para mensurar os efeitos do problema entre 2018 e 2025 e seus reflexos sobre a competitividade e o desenvolvimento da cadeia vitivinícola.

O estudo evidencia que, entre 2018 e 2025, os impactos econômicos provocados pela deriva de herbicidas hormonais alcançaram R$ 161,6 milhões quando considerados os casos registrados. A pesquisa estima, no entanto, que os prejuízos no período tenham atingido R$ 210 milhões, considerando perdas de produção, aumento dos custos de manejo e renovação de vinhedos. O levantamento também apresenta projeções para os próximos cinco anos e indica que, caso o cenário permaneça inalterado, os prejuízos poderão alcançar outros R$ 150,1 milhões.

O trabalho foi realizado no âmbito do Termo de Colaboração FPE nº 4837/2022, firmado entre o Consevitis-RS e a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), e coordenado pela professora doutora Shana Sabbado Flores, pelo professor doutor Leonardo Cury da Silva e pelo doutor Jorge Viel. A pesquisa integra revisão bibliográfica, análise de registros oficiais, georreferenciamento das ocorrências, entrevistas com produtores e especialistas e projeções econômicas, consolidando a primeira metodologia estruturada para avaliar os impactos da deriva de herbicidas hormonais sobre a vitivinicultura gaúcha.

Pesquisa utilizou análises de mais de 400 ocorrências

A pesquisa foi construída a partir da análise de mais de 400 ocorrências registradas de deriva no Rio Grande do Sul, complementadas por entrevistas em diferentes regiões vitivinícolas e análises territoriais. As estimativas indicam que aproximadamente 700 hectares de vinhedos tenham sido diretamente afetados pelos episódios registrados no período analisado. Os pesquisadores ressaltam, no entanto, que esse número pode ser ainda maior, uma vez que o trabalho foi elaborado com base nos registros oficiais e nas fontes consultadas, não sendo possível mensurar a totalidade das ocorrências no Estado.

A análise também demonstra que os impactos apresentam distribuição territorial heterogênea, com maior concentração em regiões onde a vitivinicultura convive com sistemas agrícolas extensivos que utilizam herbicidas hormonais. Foram identificados registros em importantes regiões produtoras, como Campanha Gaúcha, Região Central, Serra do Sudeste, Campos de Cima da Serra, Planalto, Missões e, de forma mais pontual, Serra Gaúcha.

Entre os principais resultados, o levantamento identificou que a deriva de herbicidas hormonais deixou de ser percebida como um evento pontual e passou a representar um fator permanente de risco para a atividade vitivinícola. Seus efeitos ultrapassam as perdas imediatas de produtividade e influenciam decisões relacionadas à renovação de vinhedos, ampliação da produção, lançamento de novos produtos, investimentos em enoturismo e iniciativas coletivas de desenvolvimento territorial.

Todos os produtores entrevistados afirmaram ter reduzido ou adiado investimentos em função da recorrência dos episódios e da incerteza quanto à ocorrência de novos casos. O estudo aponta reflexos sobre a renovação de vinhedos, expansão da atividade, desenvolvimento de novos produtos, fortalecimento do enoturismo e iniciativas coletivas, como projetos de indicação geográfica.

“Os relatos dos produtores sobre os impactos da deriva já eram conhecidos, mas este estudo permitiu transformar essa percepção em evidência técnica. Pela primeira vez foi possível integrar dados oficiais, análises territoriais, entrevistas e projeções econômicas para dimensionar como esse fenômeno afeta não apenas a produção de uvas, mas também as decisões de investimento e o desenvolvimento da vitivinicultura em diferentes regiões do Rio Grande do Sul”, afirma a Dra. Shana.

“Conhecer a dimensão desse problema é um passo importante para que a vitivinicultura gaúcha possa planejar seu futuro com base em evidências. Este estudo fortalece o setor ao oferecer informações técnicas qualificadas que poderão orientar o diálogo institucional e contribuir para a busca de soluções capazes de preservar o desenvolvimento da vitivinicultura em harmonia com as demais atividades agrícolas do Estado”, reforça o presidente do Consevitis-RS, Maicon Galiotto.

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