Crise dos fertilizantes amplia risco de abastecimento no Brasil

Restrições externas, crédito e logística elevam procura por produtos nacionalizados e fontes alternativas

23.09.2026 | 08:23 (UTC -3)
Revista Cultivar, a partir de informações da Culture Comunicação

As restrições no mercado internacional de fertilizantes levaram compradores brasileiros a antecipar negociações e ampliar a procura por produtos já nacionalizados. A menor oferta de alguns insumos, com destaque para os fosfatados, soma-se às limitações de crédito e aos riscos logísticos. O cenário também estimula a busca por novos fornecedores e fontes alternativas de nutrientes.

Na avaliação do diretor da AgriConnection Fertilizers, Rafael Almeida, o mercado enfrenta pressão simultânea de fatores geopolíticos, financeiros, logísticos e comerciais. Compradores com aquisições postergadas podem encontrar preços maiores, menor disponibilidade e dificuldades para receber os fertilizantes dentro da janela necessária para aplicação nas lavouras.

Entregas recuaram

As entregas de fertilizantes ao mercado brasileiro recuaram 5,4% no primeiro semestre de 2026, segundo levantamento da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda). Entre janeiro e junho, o volume alcançou 19,02 milhões de toneladas. No mesmo período de 2025, as entregas somaram 20,11 milhões de toneladas.

Em Mato Grosso, a valorização dos fertilizantes já aumentou os custos de produção, segundo Almeida. A pressão concentra-se nos fosfatados. Os nitrogenados oferecem maior possibilidade de substituição entre fontes. O fósforo apresenta menos alternativas para o produtor.

Mercado de enxofre

O mercado internacional do enxofre exerce influência sobre esse quadro. Segundo Almeida, cerca de 60% do enxofre mundial passa pelo Estreito de Ormuz. A matéria-prima participa da fabricação de fertilizantes fosfatados, entre eles MAP, superfosfato simples e superfosfato triplo.

A elevação dos custos das matérias-primas contribuiu para a hibernação de algumas fábricas de fosfatados em Minas Gerais e Goiás. Outro fator veio da China. O país suspendeu em 2026 a exportação de alguns fertilizantes fosfatados binários destinados ao mercado brasileiro. A medida reduziu as opções disponíveis aos compradores.

Prospecção de fornecedores

A AgriConnection intensificou, diante desse cenário, a prospecção de fornecedores internacionais e de fontes alternativas. A estratégia inclui MAP purificado proveniente do Marrocos como fonte complementar de fósforo solúvel, cloreto de potássio de origem canadense e sulfato de amônio de origem chinesa.

Segundo Almeida, a ampliação do número de fornecedores busca reduzir os riscos associados a eventos geopolíticos e ao processo de importação. A companhia também passou a priorizar fertilizantes já nacionalizados. Em determinados momentos, adotou posições antecipadas de compra para assegurar disponibilidade aos clientes.

A reorganização também alcança o mercado de nitrogenados. O conflito no Oriente Médio reduziu a disponibilidade de ureia proveniente de países produtores da região. Parte da demanda migrou para outras fontes de nitrogênio. O sulfato de amônio, principalmente de origem chinesa, ganhou espaço nesse movimento.

Volume comercializado

Mais de 50% do volume comercializado pela AgriConnection Fertilizers corresponde a fertilizantes nitrogenados. O sulfato de amônio figura entre os principais produtos desse segmento. Para Almeida, a queda nas importações de ureia não implica, por si só, falta de nitrogênio no mercado brasileiro. Outras fontes podem atender parte da demanda.

Nos fosfatados, a substituição apresenta maior limitação. A alta do enxofre pressionou os custos de produtos como MAP, superfosfato triplo e superfosfato simples. Esse movimento aumenta a atenção sobre disponibilidade, prazo de aquisição e logística.

O governo federal também adotou medidas voltadas à redução da dependência externa. O Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes, Profert, instituído pela Lei 15.496/26, entrou em vigor em 4 de setembro. A norma prevê participação mínima de 2% de fertilizantes nacionais sintéticos e minerais nas misturas comercializadas no país a partir de julho de 2027. O percentual deverá alcançar 10% em 2037.

Expansão de operações

A AgriConnection Fertilizers também projeta expansão de suas operações em 2026. Em 2025, primeiro ano completo de atividade, a companhia negociou 130 mil toneladas de fertilizantes, com valor aproximado de R$ 250 milhões. No início de setembro de 2026, o volume acumulado entre entregas realizadas e carteira contratada alcançava cerca de 106 mil toneladas.

A empresa projeta superar as 130 mil toneladas negociadas no ano anterior. A expectativa para a receita aponta crescimento entre 20% e 25% em 2026, com valor superior a R$ 320 milhões. Segundo a companhia, o resultado decorre da expansão das operações, da valorização dos fertilizantes e da maior participação dos fosfatados no portfólio.

Mais de 80% do volume da AgriConnection Fertilizers segue o modelo back to back. Nesse formato, compra e venda permanecem vinculadas. A estrutura reduz a necessidade de formação de estoques e limita a exposição às oscilações de mercado.

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