Crédito rural cai 22,65% no trimestre de plantio, aponta Farsul

Contratações somaram R$ 87,79 bilhões entre julho e setembro; dívidas problemáticas chegam a R$ 207,47 bilhões no país

06.11.2026 | 15:05 (UTC -3)
Farsul, edição Revista Cultivar

As contratações de crédito rural no Brasil somaram R$ 87,79 bilhões entre julho e setembro de 2026, queda de 22,65% em relação ao mesmo período de 2025 e de 46,55% na comparação com 2023. O recuo ocorre em meio ao aumento das dívidas de produtores rurais e à redução dos financiamentos para custeio agrícola. Os dados constam em nota técnica divulgada nesta quinta-feira (5/11) pela Assessoria Econômica da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).

O trimestre analisado marca o início da safra 2026/27 e concentra parte importante das operações de custeio de culturas como soja e milho. Segundo a entidade, o volume contratado registra a terceira queda consecutiva e já está abaixo do observado em 2021, mesmo sem considerar os efeitos da inflação.

No acumulado de 12 meses até setembro, as contratações totalizaram R$ 327,72 bilhões, retração de 10,81% em relação ao período anterior e de 22,41% frente ao pico registrado em abril de 2024.

Ao mesmo tempo, a carteira de crédito rural classificada como problemática, que inclui operações renegociadas, prorrogadas, em atraso ou inadimplentes, alcançou R$ 207,47 bilhões em julho de 2026. O montante representa 23,46% do saldo total de crédito rural do país, ante 5,46% em dezembro de 2023.

Na avaliação da Farsul, a combinação entre restrição de novos financiamentos e aumento do endividamento pode comprometer a capacidade de investimento dos produtores e afetar o desempenho da safra 2026/27.

Crédito para custeio de soja recua

A redução dos financiamentos atinge principalmente as operações de custeio, responsáveis por 52% das contratações de crédito rural.

Entre julho e setembro, o crédito destinado ao custeio de soja caiu de R$ 36,72 bilhões em 2023 para R$ 14,05 bilhões em 2026. No mesmo intervalo, a área financiada para a cultura passou de 8,03 milhões para 2,95 milhões de hectares.

A retração contrasta com a projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), que estima uma área de 49,3 milhões de hectares de soja na safra 2026/27, crescimento de 1,4%.

Para a Assessoria Econômica da Farsul, a estimativa deve ser analisada com cautela diante da menor disponibilidade de financiamento. A entidade avalia que o principal risco não está necessariamente na redução da área plantada, mas na possibilidade de queda de produtividade, decorrente de menores investimentos em tecnologia e insumos.

Produtores fora do Pronaf e Pronamp registram maior retração

A redução do crédito apresenta diferenças entre os programas de financiamento. Nos 12 meses encerrados em setembro, as contratações pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) cresceram 6,88%, alcançando R$ 71,56 bilhões.

No Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp), o volume permaneceu praticamente estável, em R$ 55,61 bilhões.

Já os produtores não enquadrados nesses programas contrataram R$ 200,55 bilhões, queda de 18,18% em relação aos 12 meses anteriores.

O recuo foi mais acentuado nas operações com taxas de juros livres, que diminuíram 21,72% no acumulado de 12 meses. Somente entre julho e setembro, a redução chegou a 54,9% em comparação com 2025.

Segundo a Farsul, o cenário indica restrição na oferta de financiamentos. Com a taxa Selic em 13,75% ao ano e o aumento do risco de inadimplência, as instituições financeiras tendem a reduzir a concessão de crédito em vez de compensar o risco apenas com juros mais elevados.

Rio Grande do Sul concentra maior volume de dívidas problemáticas

O Rio Grande do Sul permanece como o estado com maior volume de contratações de crédito rural no trimestre de plantio, totalizando R$ 14,36 bilhões entre julho e setembro de 2026. O resultado representa queda de 10,56% em relação a 2025 e de 39,53% na comparação com 2023.

O recuo atinge culturas importantes para a economia gaúcha. Em relação a 2023, o custeio de soja diminuiu 58,37%, enquanto o de arroz caiu 44,3%. Como o estado concentra 75,6% do financiamento de custeio destinado à rizicultura brasileira, a redução tem relevância para o setor em âmbito nacional.

O Rio Grande do Sul também apresenta o maior estoque estadual de dívidas problemáticas, estimado em R$ 44,89 bilhões. Esse valor corresponde a 41,17% da carteira de crédito rural gaúcha, percentual que era de 9,01% em dezembro de 2023.

O montante representa aproximadamente um quinto de toda a carteira problemática do país.

Inadimplência rural quase triplica em um ano

O saldo total da carteira de crédito rural brasileira alcançou R$ 884,21 bilhões em julho de 2026, crescimento de 26,6% em relação a dezembro de 2023.

Entretanto, segundo o levantamento, 91,22% desse aumento está associado à expansão das operações classificadas como problemáticas. No período, esse segmento da carteira foi multiplicado por 5,44.

A inadimplência superior a 90 dias também avançou. Em um ano, o valor das operações nessa condição passou de R$ 15,65 bilhões para R$ 45,71 bilhões, aumento de aproximadamente 192%.

Para a Farsul, os números indicam que parte das dívidas renegociadas ou prorrogadas em 2024 e 2025 voltou a apresentar dificuldades de pagamento.

Renegociação alcança menos de 9% das dívidas problemáticas

A Medida Provisória (MP) 1.376/2026, que estabelece uma janela de renegociação de dívidas rurais até 12 de novembro, resultou na contratação de R$ 18,60 bilhões em novas operações até 30 de outubro.

Os financiamentos apresentam taxa média de juros de 9,63% ao ano e prazo médio de 8,56 anos. O volume renegociado corresponde a 8,99% da carteira problemática nacional.

No Rio Grande do Sul, as operações somaram R$ 7,78 bilhões. Apesar do maior alcance da medida entre os estados com grandes carteiras de crédito rural, 82,6% do estoque de dívidas problemáticas gaúchas permaneceu fora da renegociação.

A Farsul considera insuficiente a abrangência da medida e defende a ampliação do prazo de adesão, além da inclusão de operações lastreadas em Cédulas de Produto Rural (CPR).

Entre as recomendações da entidade estão a simplificação dos procedimentos de renegociação, a padronização das condições entre instituições financeiras e a adoção de critérios relacionados à capacidade de pagamento dos produtores.

A federação também propõe medidas para recompor a oferta de crédito de custeio, especialmente para beneficiários do Pronamp e produtores não enquadrados nos programas oficiais, além da divulgação mensal dos resultados das renegociações por estado e instituição financeira.

Segundo a análise, a persistência de um elevado estoque de dívidas pode manter a restrição ao crédito, limitar os investimentos nas lavouras e ampliar as dificuldades financeiras dos produtores.

Dados disponíveis no Farsul Big Data

O levantamento utiliza informações do Sistema de Operações do Crédito Rural (Sicor) e da Matriz de Dados do Crédito Rural, ambos do Banco Central.

Os indicadores também estão disponíveis na seção Crédito da plataforma Farsul Big Data, que permite consultar contratações por finalidade, atividade agropecuária, programa de financiamento e fonte de recursos, além da evolução do saldo da carteira no Brasil e no Rio Grande do Sul.

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