Cientistas analisam resistência ao metomil em Dalbulus maidis

Rotação de modos de ação e manejo integrado ganham importância para minimizar o problema

28.08.2026 | 09:15 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Charles Martins de Oliveira
Foto: Charles Martins de Oliveira

A exposição contínua ao metomil elevou em mais de 16 vezes o nível inicial de resistência de uma população de cigarrinha-do-milho (Dalbulus maidis) coletada em Rio Verde. Cientistas brasileiros identificaram herança autossômica, incompletamente dominante e poligênica. O objetivo do trabalho foi medir o potencial de evolução da resistência, identificar seu padrão de herança e avaliar a resposta da população a outros grupos químicos.

Os pesquisadores Matheus Gerage Sacilotto, Gabriel Silva Dias, Mariana Yuki Iuanami e Celso Omoto, do Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo, conduziram o trabalho (doi 10.1002/ps.71254). A equipe partiu de uma população de Dalbulus maidis coletada em dezembro de 2022 em lavoura comercial de milho de Rio Verde.

A concentração letal para 50% dos indivíduos da população de campo alcançou 157,49 microgramas de ingrediente ativo por mililitro após uma geração em laboratório. Na linhagem suscetível de referência, o valor ficou em 16,18 microgramas de ingrediente ativo por mililitro. A diferença resultou em razão inicial de resistência de 9,73 vezes.

Seleção com metomil

A seleção com metomil ampliou essa diferença ao longo das gerações. Na 11ª geração, a concentração letal para 50% dos insetos chegou a 1.239,83 microgramas de ingrediente ativo por mililitro, com razão de resistência de 76,62 vezes. Na 26ª geração, o valor atingiu 2.644,44 microgramas de ingrediente ativo por mililitro. A razão de resistência subiu para 163,42 vezes.

O comportamento mudou na linhagem mantida sem exposição ao inseticida. Após 28 gerações sem pressão de seleção, a concentração letal para 50% dos insetos caiu de 157,49 para 66,20 microgramas de ingrediente ativo por mililitro. A razão de resistência recuou de 9,73 para 4,09 vezes. O resultado indica redução da resistência na ausência de seleção com metomil.

Herança da resistência

Os cruzamentos entre insetos resistentes e suscetíveis permitiram caracterizar a herança da resistência. As duas progênies heterozigotas apresentaram respostas semelhantes. A concentração letal para 50% dos indivíduos chegou a 364,90 e 415,41 microgramas de ingrediente ativo por mililitro. Os pesquisadores não detectaram efeito materno nem ligação ao sexo. Os dados apontaram herança autossômica.

O grau de dominância calculado para as duas linhagens heterozigotas atingiu 0,44 e 0,49. Esses valores caracterizam resistência incompletamente dominante. A dominância diminuiu conforme aumentou a concentração de metomil.

Doses de campo

Nas doses de campo avaliadas, o comportamento também variou conforme a concentração. Na menor concentração recomendada, de 645 microgramas de ingrediente ativo por mililitro, a mortalidade alcançou 100% na linhagem suscetível e 2% na resistente. As linhagens heterozigotas registraram mortalidade de 56% e 42%.

Na maior concentração, de 1.290 microgramas de ingrediente ativo por mililitro, a mortalidade atingiu 84% na linhagem suscetível, 94% e 100% nas heterozigotas e 48% na resistente. Segundo o estudo, a resistência assumiu caráter funcionalmente recessivo nessa condição.

Os retrocruzamentos também afastaram a hipótese de controle por um único gene. A mortalidade observada diferiu da mortalidade prevista para herança monogênica na maior parte das concentrações avaliadas. Os resultados indicam arquitetura poligênica, com participação de mais de um locus.

Outros inseticidas

A equipe também avaliou a resposta da linhagem resistente ao metomil diante de outros inseticidas. Carbosulfano e acefato apresentaram baixa resistência cruzada. As razões chegaram a 5,63 e 8,93 vezes, respectivamente. O regulador de crescimento buprofezina apresentou razão próxima de dez vezes.

O cenário mudou com piretroides e neonicotinoides. A razão de resistência atingiu 53,62 vezes para bifentrina e 331,21 vezes para lambda-cialotrina. Entre os neonicotinoides, o valor chegou a 1.044,05 vezes para acetamiprido e 104,56 vezes para imidacloprido.

Os pesquisadores classificam esse padrão como possível resistência múltipla. A população original coletada no campo já apresentava alta resistência a piretroides e neonicotinoides. Por isso, o mecanismo selecionado pelo metomil não explica necessariamente a resistência observada nesses grupos.

Clorfenapir apresentou razão de resistência de 1,03 vez. Para ciantraniliprole, o índice ficou em 4,47 vezes. Isocicloseram registrou razão de 1,67 vez. O trabalho não detectou resistência cruzada relevante a esses três ingredientes ativos.

Manejo da resistência

Os pesquisadores apontam clorfenapir, ciantraniliprole e isocicloseram como candidatos para programas de manejo da resistência ao metomil. Clorfenapir e isocicloseram possuem registro recente para controle de Dalbulus maidis no Brasil. Ciantraniliprole não possui registro para essa praga no País, apesar do registro para controle de Spodoptera frugiperda em milho.

O estudo recomenda rotação entre modos de ação sem resistência cruzada. A equipe também cita eliminação de milho voluntário, redução das janelas de plantio, uso de híbridos resistentes, inseticidas entomopatogênicos e parasitoides como componentes do manejo integrado de Dalbulus maidis. Essas medidas podem reduzir a pressão de seleção provocada por aplicações sucessivas de inseticidas.

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