Besouro parasita de formigas revela cérebro incomum

Microtomografia mostra expansão de áreas ligadas ao olfato e à coordenação em Paussus favieri

06.07.2026 | 15:52 (UTC -3)
Schubert Peter, Revista Cultivar
Foto: Sergio Ibarra – CC BY-NC 4.0
Foto: Sergio Ibarra – CC BY-NC 4.0

O besouro Paussus favieri apresenta um cérebro com áreas olfativas e de coordenação motora em proporções incomuns entre insetos já estudados. O achado resulta da primeira descrição tridimensional do cérebro dessa espécie, feita por pesquisadores com microtomografia por raios X. O inseto vive dentro de ninhos da formiga Pheidole pallidula e depende de adaptações químicas, estruturais e comportamentais para permanecer na colônia hospedeira (DOI 10.3390/insects17070701). A espécie não existe no Brasil.

Pesquisa de cientistas italianos analisou três exemplares de Paussus favieri. Dois eram machos e um era fêmea. Os insetos foram coletados na Espanha, perto de Tarifa, em ninhos de Pheidole pallidula. Dois exemplares passaram por microtomografia. Um macho também passou por análise histológica clássica com coloração por hematoxilina e eosina.

Lobos antenais

O estudo mostrou grande desenvolvimento dos lobos antenais. Essas regiões processam informações químicas. Na fêmea, os lobos antenais somaram cerca de trinta e seis por cento do volume relativo dos principais neurópilos. No macho analisado por microtomografia, somaram cerca de trinta e dois por cento. A média superou a registrada nas espécies usadas na comparação, entre elas Tribolium castaneum, Aethina tumida, Drosophila melanogaster, Apis mellifera e Schistocerca gregaria.

Os pesquisadores relacionam esse resultado à importância da percepção química para a espécie. Paussus favieri explora pistas químicas da formiga hospedeira. O besouro usa trilhas associadas à glândula de veneno de rainhas de Pheidole pallidula para localizar colônias. Também pode adquirir a assinatura química das rainhas por contato direto.

Corpo central

O corpo central também apresentou proporção elevada. Essa região integra o complexo central do cérebro e participa de funções ligadas à coordenação de movimentos, navegação e comportamentos complexos em insetos. Em Paussus favieri, o corpo central respondeu por mais de doze por cento do volume relativo dos neurópilos principais em ambos os sexos avaliados.

A expansão dessa área pode ter relação com o repertório do besouro dentro do ninho. A espécie usa secreções defensivas direcionadas pelos élitros (efeito Coandă) e sinais acústicos. Estudos citados no artigo indicam capacidade de imitar sons de operárias e rainhas da formiga hospedeira. Essa estratégia permite ao parasita solicitar trofalaxia e explorar canais de comunicação vibracional da colônia.

Os lobos ópticos tiveram participação relativa menor em comparação com as espécies de referência. A redução visual combina com um modo de vida associado ao solo e ao interior de ninhos. Os lobos ópticos representaram trinta e cinco vírgula quatro por cento do volume dos principais neurópilos na fêmea e mais de quarenta e um por cento no macho, antes da comparação média com as demais regiões.

Corpos pedunculados

Os corpos pedunculados, ligados a integração sensorial e aprendizagem em insetos, tiveram volume relativo menor do que em Tribolium castaneum. A fêmea apresentou cerca de quatorze por cento. O macho apresentou cerca de doze por cento. Os pesquisadores associam essa redução à ecologia especializada e à dieta restrita de Paussus favieri, composta por larvas, pupas e indivíduos tenros de Pheidole pallidula.

A microtomografia também revelou assimetrias ainda não descritas para a espécie. Uma delas envolveu os lobos ópticos. A outra ocorreu nos corpos pedunculados. Nos machos, o lobo medial esquerdo apresentou extensão maior e avançou sobre o corpo central. Na fêmea, essa característica não apareceu da mesma forma. O estudo também registrou assimetria nos lobos antenais do macho, com o lobo direito maior do que o esquerdo.

Os cientistas destacam a necessidade de novas análises com mais exemplares. A espécie tem baixa disponibilidade em campo e fenologia restrita. Mesmo assim, os dados indicam relação entre especialização ecológica extrema e organização cerebral. O trabalho abre uma base para pesquisas sobre neuroanatomia de besouros mirmecófilos e sobre a evolução de parasitas de insetos sociais.

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