Balanço de nutrientes orienta manejo da adubação no algodão

Plenária no 15º Congresso de Algodão debate custos, exportação de nutrientes e definição de doses

23.09.2026 | 13:30 (UTC -3)
Revista Cultivar

A gestão de nutrientes no sistema produtivo precisa considerar o balanço entre entradas e saídas, a fertilidade do solo, o potencial produtivo e o histórico da área. A avaliação ganhou destaque em plenária técnica do 15º Congresso de Algodão. O debate reuniu pesquisadores para discutir critérios de recomendação de fertilizantes e eficiência do manejo.

Ana Luiza Borin, pesquisadora da Embrapa Algodão e moderadora da plenária, destacou o peso dos fertilizantes no custo da cultura. Segundo os dados apresentados, a adubação representa cerca de 25% a 30% do custo de produção do algodão. O cenário ganha importância diante da dependência externa brasileira. Aproximadamente 85% dos fertilizantes consumidos no País têm origem importada.

Balanço de nutrientes

O pesquisador Álvaro Vilela de Resende, da Embrapa Cerrados, definiu o balanço de nutrientes como a diferença entre as entradas, principalmente via adubação, e as saídas por meio da colheita. O cálculo também pode incorporar créditos do sistema, embora sua estimativa apresente maior complexidade.

Um saldo negativo indica retirada de nutrientes das reservas do solo. Nessa condição, os cultivos seguintes podem exigir reforço na adubação para atender a demanda das plantas e restabelecer níveis adequados de fertilidade. O balanço neutro aproxima a reposição da quantidade removida pela colheita. Um saldo positivo indica formação de reserva passível de aproveitamento pelas culturas seguintes.

A aplicação desse conceito exige solos com fertilidade construída. Áreas abaixo dos níveis críticos não oferecem a mesma margem para uso de reservas acumuladas. A decisão também precisa considerar critérios técnicos e econômicos.

Ferramenta de gestão

Felipe Bertol, coordenador de solos e pesquisa da SLC Agrícola, relatou o uso do balanço de nutrientes como ferramenta de gestão. O grupo relaciona os aportes de fertilizantes com a exportação pela colheita e acompanha o comportamento ao longo de diferentes safras. O histórico permite avaliar a eficiência do sistema e ajustar recomendações.

A empresa também avalia o uso de mapas de colheita para representar a variabilidade espacial da exportação de nutrientes. A estratégia parte de dados de produtividade e busca orientar prescrições posteriores. Áreas com maior remoção podem demandar reposição diferenciada. Regiões com saldo positivo podem permitir redução de aportes, desde que o solo apresente condições para sustentar essa decisão.

Resende chamou atenção para uma limitação importante. Os valores de extração e exportação disponíveis para o algodoeiro apresentam grande variação. Em alguns nutrientes, os níveis de exportação podem variar mais de 100% conforme ambiente e cultivar. Essa diferença amplia o risco de erro em doses calculadas apenas por tabelas de referência.

Segundo o pesquisador, soja e milho apresentam indicadores de extração e exportação mais estáveis. No algodão, a obtenção de dados confiáveis ainda exige avanços de pesquisa e padronização.

Caso hipotético

A plenária apresentou um exercício para uma produtividade de 400 arrobas de algodão, com base em condições de Goiás. A recomendação considerada utilizou 195 quilos por hectare de nitrogênio, 100 quilos por hectare de pentóxido de fósforo e 120 quilos por hectare de óxido de potássio.

A estimativa de exportação alcançou 180 quilos por hectare de nitrogênio, 60 quilos por hectare de pentóxido de fósforo e 30 quilos por hectare de óxido de potássio. Os dados reforçam uma característica do algodoeiro: a planta absorve quantidades elevadas de nutrientes durante o ciclo, mas apenas uma fração deixa a área com a colheita.

Essa diferença ganha destaque no caso do nitrogênio e do potássio. Parte expressiva desses nutrientes permanece nos resíduos culturais e pode beneficiar a cultura seguinte. No exemplo apresentado, os créditos na resteva alcançaram cerca de 240 quilos por hectare de nitrogênio, 30 quilos por hectare de fósforo e 210 quilos por hectare de potássio, conforme os indicadores usados no exercício.

A estimativa da exportação também depende da qualidade da amostragem. No algodão, o material retirado da lavoura não contém apenas fibra e caroço. Cerca de 5% da massa colhida corresponde a resíduos. Esses componentes também carregam nutrientes.

O potássio merece atenção nesse processo. Parte do nutriente permanece em brácteas e restos florais. Uma fração desses resíduos sai da área durante a colheita, mas nem sempre entra na análise laboratorial. Essa condição pode alterar a estimativa real da exportação.

Nitrogênio e potássio

O consultor Rodrigo de Oliveira Lima apresentou resultados obtidos em ensaios com doses de nitrogênio e potássio na safra 2024/25. O aumento das doses de nitrogênio elevou a produção de biomassa, mas não resultou em aumento correspondente da produtividade no caso analisado. A maior massa vegetativa também ampliou a necessidade de água da planta.

Os resultados mostraram queda da eficiência com o aumento das doses de nitrogênio. O índice de colheita também diminuiu. A relação indica maior produção de biomassa sem ganho proporcional na produção colhida.

Para o potássio, a discussão destacou a elevada absorção pelo algodoeiro e a ocorrência de consumo de luxo. A planta demanda grande quantidade do nutriente, embora a exportação represente parcela menor do total absorvido. Por esse motivo, uma recomendação baseada apenas na exportação pode gerar risco em solos sem reserva suficiente, principalmente em ambientes com diferenças de textura e fertilidade.

Dados da SLC Agrícola também indicaram ausência de resposta consistente de produtividade ao aumento das doses de nitrogênio. A base analisada reúne informações de mais de 600 mil hectares. As doses médias ficaram, em grande parte dos ambientes avaliados, entre cerca de 140 e 180 quilos por hectare de nitrogênio.

Rodrigo relatou comportamento semelhante em dados de Minas Gerais, obtidos em mais de 300 talhões ao longo de quatro safras. Em anos com maior estresse hídrico, o ajuste da dose pode acompanhar a redução do potencial produtivo.

No potássio, as doses variaram entre regiões. A Bahia apresentou valores superiores em parte dos ambientes. Mesmo assim, doses maiores não resultaram necessariamente em produtividades superiores. Em algumas situações, o crescimento vegetativo aumentou a demanda hídrica e reduziu a resposta esperada.

A discussão apontou limites para recomendações baseadas exclusivamente na extração ou na exportação. Adubar pela extração pode elevar a quantidade aplicada além da necessidade prática. Adubar somente pela exportação pode reduzir a dose abaixo do necessário em áreas sem reservas adequadas.

A gestão passa, portanto, pela integração entre análise de solo, fertilidade construída, histórico de adubação, produtividade, exportação de nutrientes, características do ambiente e condição da safra. O balanço funciona como ferramenta de apoio. A decisão precisa considerar o sistema produtivo e a capacidade do solo de fornecer nutrientes ao algodoeiro.

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