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A incorporação de genes de Bacillus thuringiensis em agave pode ampliar o manejo de pragas em regiões semiáridas. Pesquisadores brasileiros defendem a tecnologia Bt como uma alternativa para culturas de Agave tequilana, Agave sisalana, Agave salmiana e Agave fourcroydes, ainda sem aplicação comercial dessa estratégia.
O tema ganha peso diante da expansão das áreas secas. As terras áridas cobrem quarenta e um por cento da superfície terrestre e avançam com as mudanças climáticas. Nesse cenário, o agave reúne características agronômicas relevantes. A planta apresenta metabolismo ácido das crassuláceas, alta eficiência no uso da água e adaptação a ambientes com déficit hídrico.
O gênero sustenta cadeias de bebidas, fibras e bioenergia. O México lidera a produção de bebidas à base de agave. O volume produzido de tequila chegou a 583,5 milhões de litros em 2025. No Brasil, a fibra de sisal alcançou 93.261 toneladas em 2024, com liderança mundial para o país. Parte da biomassa, como folhas e resíduos de processamento, ainda segue sem aproveitamento pleno.
A principal limitação agronômica vem dos insetos. O bicudo-do-agave, Scyphophorus acupunctatus, causa danos internos, abre galerias no caule e reduz a qualidade da piña. Infestações podem alcançar noventa por cento em áreas do México. O inseto também favorece patógenos associados à podridão, como Pectobacterium carotovorum, espécies de Erwinia, espécies de Pseudomonas e espécies de Aspergillus.
Outras pragas ampliam o risco. A cochonilha Acutaspis agavis coloniza folhas, reduz a fotossíntese, provoca deformações e pode levar plantas à morte. A lagarta Comadia redtenbacheri perfura o caule durante a fase larval, forma galerias e reduz vigor, altura e tecido radicular. O desenvolvimento interno desses insetos dificulta o contato com inseticidas e reduz a eficiência de medidas convencionais.
As proteínas Cry de Bacillus thuringiensis atuam no intestino médio de insetos suscetíveis. Após a ingestão, as protoxinas se solubilizam em ambiente alcalino, sofrem ativação por proteases e se ligam a receptores epiteliais. O processo leva à formação de poros na membrana celular. Essa seletividade sustenta o uso da tecnologia Bt em programas de manejo integrado de pragas.
Para o agave, os pesquisadores apontam maior interesse inicial nas proteínas Cry3. Esse grupo apresenta ação contra coleópteros. Como Scyphophorus acupunctatus pertence a Curculionidae, a hipótese de uso contra o bicudo ganha base biológica. Há, porém, a necessidade de validação experimental da suscetibilidade dessa espécie.
A tecnologia também pode exigir combinação de genes. O empilhamento de proteínas Cry reduz o risco de seleção de populações resistentes. Essa estratégia já aparece em culturas como algodão e milho. O manejo de resistência exigiria áreas de refúgio, expressão adequada da toxina e integração com monitoramento de pragas.
O maior entrave permanece na transformação genética do agave. Monocotiledôneas apresentam limitações de regeneração in vitro, baixa disponibilidade de células competentes e barreiras físicas na parede celular. Em Agave salmiana, protocolo com Agrobacterium tumefaciens resultou em eficiência de transformação de 2,7 por cento. Em Agave sisalana ‘RLV dezenove’, a eficiência relatada chegou a 0,5 por cento.
Apesar das limitações, os pesquisadores avaliam a tecnologia como factível. Avanços com reguladores morfogênicos, como Wuschel e Baby boom, e sistemas de edição gênica podem reduzir barreiras históricas. Eles também citam experiências em outras culturas de ambientes semiáridos, como feijão-guandu com Cry1Ab, com mortalidade larval de noventa por cento em ensaios in vitro contra Helicoverpa armigera.
A adoção de agave Bt dependeria de avaliação regulatória, aceitação de mercado e participação de comunidades produtoras. No México, produtos de agave envolvem denominações de origem e regras específicas para tequila. No Brasil, a cadeia do sisal também depende de mercados externos. Para pequenos produtores, o custo, o acesso ao material propagativo e o benefício agronômico determinariam a viabilidade.
Participaram do estudo os pesquisadores Aline Vitória Corim Marim, Marcelo Falsarella Carazzolle, Gonçalo Amarante Guimarães Pereira e Carolina Rossi De Oliveira.
Mais informações em doi.org/10.1002/ps.70964
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