Avanços no Zarc ajudam a gerir riscos na agricultura brasileira

Zoneamento Agrícola de Risco Climático completa 30 anos; mudanças nas janelas de cultivo alcançam 3.285 municípios

23.06.2026 | 14:22 (UTC -3)
Gabriel Faria
Foto: RRufino
Foto: RRufino

O Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) está completando 30 anos em 2026. Desde que começou a ser utilizada, essa ferramenta vem passando por avanços técnicos, científicos e metodológicos, com o objetivo de contribuir para a maior segurança na gestão de riscos na agricultura brasileira. A atualização na base de dados climatológicos, por exemplo, resultou em mudanças nas janelas de cultivo em 3.285 municípios brasileiros, sejam elas ampliando ou reduzindo o período recomendado para o plantio. 

A base de dados que vinha sendo utilizada considerava dados climatológicos coletados entre os anos 1984 e 2013. A atualização mais recente abrange o período de 1993 a 2022. As mudanças ocorrem não somente pela alteração do período avaliado, mas também pelo avanço na quantidade e na qualidade dos instrumentos agrometeorológicos para medição.

Com a atualização, 1.474 municípios brasileiros apresentaram redução na janela recomendada para plantio. A maior parte deles no Sudeste e nas regiões da Zona da Mata e Semiárido no Nordeste. De acordo com pesquisadores da Embrapa, a redução ocorre majoritariamente devido ao início mais tardio da janela de plantio, entre setembro e dezembro. A menor incidência de chuvas na transição entre o período seco e o chuvoso e as temperaturas mais altas de julho a setembro explicam o atraso.

Por outro lado, outros 1.811 municípios tiveram ampliação na janela recomendada para o cultivo, sendo a maior parte deles localizados nas regiões Norte e Sul. 

“Um exemplo disso foi a diminuição dos riscos de geadas em estados do Sul, resultando em possibilidade de plantio antecipado em alguns municípios”, destaca Eduardo Monteiro, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (SP) e coordenador da Rede Zarc Embrapa de Pesquisa.

Outra mudança identificada diz respeito à viabilidade de se cultivar uma segunda safra com segurança. Para que a segunda safra seja recomendada em determinado município, é necessário que haja uma janela com 13 ou mais decêndios (períodos de dez dias) com condições climáticas favoráveis. Na atualização da base climatológica houve aumento de 25 municípios com recomendação de segunda safra. Ao todo são 1.190 municípios brasileiros aptos a cultivar duas safras. Em relação à base anterior, 180 municípios perderam a recomendação de segunda safra devido à redução das janelas de plantio. Outros 205 tiveram aumento da janela de cultivo e passaram a ter recomendação de segunda safra. 

Foto: Ana Cláudia Oliveira
Foto: Ana Cláudia Oliveira

Fonte de dados

As mudanças no Zoneamento Agrícola de Risco Climático ocorrem não só pelas mudanças no comportamento das chuvas, mas também pelo maior volume de dados coletados. A base de dados anterior era composta de 3.500 séries climatológicas provenientes de estações meteorológicas. A atual possui 4.200 séries, sendo algumas delas obtidas por meio de “estações virtuais”, formadas por dados estimados por satélites e modelos meteorológicos, sem medida de estação in loco.

“Esse não é um estudo sobre mudanças climáticas. O objetivo principal foi avaliar os impactos da alteração de base de dados no Zarc, uma vez que nossa prioridade não é avaliar mudança climática, mas sim garantir a melhor base possível para as avaliações de risco do Zoneamento”, explica Eduardo Monteiro.

Água disponível no solo

O Zarc foi iniciado com a cultura do trigo na safra de 1996. Depois, foi ampliado para outras culturas e de 2002 a 2016 ficou fora da Embrapa. Mesmo sem ser a responsável pelo desenvolvimento da ferramenta no período, pesquisadores da Empresa seguiram trabalhando e, em 2017, quando ela retornou para a empresa, melhorias logo foram feitas. 

Uma delas foi a expansão para novas culturas. Atualmente já são 53 culturas, em 97 sistemas de produção distintos (sequeiro e irrigado, primeira e segunda safra, mesa e indústria). Outra melhoria que vem sendo estabelecida aos poucos é a classificação dos solos quanto à disponibilidade de água e não mais em texturas.

Antes o zoneamento levava em conta se o solo era arenoso, médio ou argiloso. Agora a metodologia permite a classificação em seis classes de água disponível (ADs) conforme os teores de silte, areia e argila do talhão. A soja foi a primeira cultura a usar o Zarc 6 Ads, em 2023. 

A classificação é feita usando uma equação (função de pedotransferência) devidamente ajustada para os distintos solos brasileiros, explica o pesquisador José Renato Bouças Farias, da Embrapa Soja (PR). Assim, reflete com maior precisão a variabilidade real dos solos brasileiros. “Essa nova metodologia do Zarc aumentou a qualidade das informações disponíveis para subsidiar a gestão de riscos e o planejamento da produção de soja”, destaca Farias.

Com isso, as indicações do Zarc aproximaram-se bem mais da realidade dos sistemas produtivos brasileiros, melhor expressando os riscos associados à exploração da cultura. 

“Nosso objetivo é minimizar os riscos e possibilitar maior estabilidade da produção e de renda para o sojicultor, o que é estratégico para a manutenção da capacidade produtiva brasileira”, analisa o pesquisador. 

A atualização do Zarc tanto para a nova série temporal quanto para a classificação de água disponível vem ocorrendo aos poucos, na medida em que o zoneamento de cada cultura é revisado ou que novas culturas passam a ter zoneamento. Em 2026, por exemplo, já foram atualizados os zoneamentos para cana-de-açúcar, milho e girassol. 

Zarc Níveis de Manejo

Outra inovação é o Zarc Níveis de Manejo, uma evolução metodológica que leva em conta não só os dados climáticos, o tipo de solo e o ciclo da cultura, como também o manejo de solo adotado pelo agricultor. A premissa é a de que o bom manejo possibilita maior disponibilidade de água no solo, garantindo à lavoura maior resiliência em períodos de falta de chuva. 

O ZarcNM utiliza como indicadores o tempo sem revolvimento do solo, o percentual de cobertura do solo, a saturação por bases, o teor de cálcio, a saturação por alumínio e o histórico da diversidade de cultivos na área. Essas informações são inseridas no Sistema de Informações de Níveis de Manejo (SiNM) desenvolvido pela Embrapa que faz a classificação do talhão em uma escala de nível de manejo entre 1 e 4, na qual o NM4 é o melhor. 

Um projeto piloto iniciado na safra passada - com a cultura da soja no Paraná e ampliado para a próxima safra - está usando o ZarcNM para oferecer subvenção diferenciada no Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). Na safra 2026/2027 a experiência contemplará a a soja nos três estados da região Sul e em Mato Grosso do Sul e o milho em segunda safra no Paraná e Mato Grosso do Sul. 

Os produtores que aderirem ao piloto terão subvenção de 20% no NM1, 30% no NM2, 35% no NM3 e 40% no NM4 na soja. Já no milho segunda safra a subvenção será de 40% no NM1, 45% no NM2 e 50% nos NM3 e NM4. 

Para Farias, trata-se de um incentivo econômico à adoção de boas práticas agronômicas, que resultem em proteção do solo, conservação dos recursos hídricos e fixação do carbono. A metodologia fomenta e estimula a melhoria do manejo do solo, resultando num ciclo virtuoso: mais incentivo às boas práticas, menor sinistralidade, maior estabilidade de produção e maior sustentabilidade do agronegócio brasileiro, no longo prazo.

"Diferenciar custos ou subvenções conforme o manejo e os riscos amplia o potencial desses programas como indutores de boas práticas e mitigadores de perdas climáticas", ressalta Farias.

A expectativa é que o ZarcNM seja expandido gradativamente para as demais regiões e para outras culturas. 

Retorno para a sociedade

O Zarc foi criado em um momento em que o seguro rural passava por uma crise, com alto índice de pagamento de apólices. Logo após sua implantação, o Banco Central registrou uma queda de 70% na sinistralidade no Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). 

O Balanço Social da Embrapa estima que o Zarc retornou para a sociedade brasileira em 2025 R$ 3,9 bilhões. O valor refere-se à redução de perdas agrícolas e da necessidade de replantios e à economia com pagamento de apólices de seguro. 

Atualmente, o Zarc é usado não apenas no seguro rural no Proagro e PSR, mas também no crédito rural. Desde a safra passada agricultores que tomam o crédito rural de custeio do Plano Safra são obrigados a cultivar seguindo as recomendações do Zarc.

“Essa é a amostra prática de como um instrumento desenvolvido por meio da pesquisa consegue ter uma aplicação direta no campo. Essa aplicação se faz na indicação do que, onde e quando plantar. Isso mitiga o risco e tranquiliza  tanto quem oferece o seguro quanto quem viabiliza o crédito, com mais garantia de que aquele dinheiro será aplicado de forma correta e terá  retorno”, avalia o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e Pecuária, Guilherme Campos. 

O Zarc para cada cultura, em cada município brasileiro pode ser consultado gratuitamente no aplicativo Zarc Plantio Certo, disponível para Android e IOS, ou na versão web em plantiocerto.cnptia.embrapa.br.

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