Áreas úmidas do Cerrado guardam mais carbono que florestas amazônicas

Estudo indica até 1.200 t de carbono por hectare em veredas e campos úmidos do bioma

13.03.2026 | 08:03 (UTC -3)
Revista Cultivar
Foto: André Dib
Foto: André Dib

Campos úmidos e veredas do Cerrado acumulam até 1.200 toneladas de carbono por hectare. Valor supera em cerca de seis vezes o estoque médio de biomassa de florestas tropicais da Amazônia.

O carbono presente nesses solos formou-se ao longo de milhares de anos. Datações indicam média de 11 mil anos, com registros próximos de 20 mil anos. Acúmulo ocorre em solos saturados por água, ambiente pobre em oxigênio. Essa condição reduz a decomposição da matéria orgânica e favorece armazenamento prolongado de carbono.

Pesquisadores analisaram veredas e campos úmidos no Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Equipe coletou amostras de solo até quatro metros de profundidade. Instrumentos mediram fluxos de dióxido de carbono e metano ao longo do ano. Datação radiocarbônica revelou idade do carbono presente nas camadas profundas.

Os dados indicam densidade média de 1.159 Mg de carbono por hectare em solos dessas áreas. Cerca de 96% do carbono total permanece no solo. A biomassa vegetal responde por apenas 4% do estoque. Camadas orgânicas apresentam espessura média próxima de 1,9 metro.

Modelagem por sensoriamento remoto indica grande extensão dessas áreas no bioma. Resultados apontam cerca de 16,7 milhões de hectares de veredas no Cerrado. Valor corresponde a aproximadamente 8% do bioma e 2% do território brasileiro.

Apesar do grande estoque de carbono, esses ambientes mostram alta vulnerabilidade. Alterações no regime hídrico reduzem nível do lençol freático. Secagem do solo acelera decomposição da matéria orgânica e libera CO₂ e metano. Cerca de 70% das emissões anuais desses gases ocorrem na estação seca.

Pressões antrópicas intensificam o risco. Expansão agrícola, drenagem de áreas úmidas, barragens e uso intensivo de água alteram a dinâmica hidrológica. Levantamento do MapBiomas indica 47% do Cerrado sob uso antrópico, com predominância de pastagens e lavouras.

Os cientistas defendem ampliação da proteção dessas áreas e avanço do mapeamento no bioma. A perda de turfeiras e veredas compromete estoques de carbono acumulados por milênios. Recuperação desse estoque exigiria escalas de tempo incompatíveis com a vida humana.

Mais informações em doi.org/10.1111/nph.71027

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