Agricultura de precisão amplia eficiência do manejo do solo

Pesquisadores mostram no ConBAP e ICPA como o uso integrado de dados melhora a recomendação de fertilizantes

15.07.2026 | 14:39 (UTC -3)
Ieda Risco

A programação de palestras da tarde do segundo dia do 11º Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão e Digital (ConBAP) e da 17ª International Conference on Precision Agriculture (ICPA), nesta terça-feira (14/7), contou com temas sobre inovação na recomendação de fertilizantes e aplicações da pedometria na agricultura de precisão. O evento ocorre até quinta-feira (16/7) no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre (RS).

O professor da Universidade Estadual da Carolina do Norte, o brasileiro Luciano Gatiboni, apresentou uma ferramenta disponível para otimizar a tomada de decisões no uso de fertilizantes. O sistema, armazenado na nuvem, é alimentado por pesquisadores com dados coletados em experimentos realizados ao longo dos anos em mais de 30 estados norte-americanos.

Gatiboni integra o grupo que elaborou a Ferramenta de Apoio à Recomendação de Fertilizantes (FRST). O trabalho começou com a verificação de que cada estado possuía uma diretriz diferente quanto à recomendação de aplicação de fertilizantes e seus níveis críticos.  O professor explicou que o objetivo do grupo de trabalho é buscar uma harmonização nas recomendações. O trabalho se iniciou com a busca por dados antigos, organizados por pesquisadores. Contudo, muitos destes ensaios foram descartados por ausência de informações.  

Após reunirem cerca de três mil estudos, os dados foram inseridos no sistema. Hoje, estão organizados de forma que o usuário pode escolher diversas variantes para sua tomada de decisões e até executar download. “Temos dados para fósforo e potássio. No futuro entrarão dados de calcário e variantes como clima e questões econômicas”, afirmou Gatiboni. Ele disse, também, que o sistema possui orientações para 27 culturas.

Conceito de pedometria

A integração entre ciência do solo, grandes bases de dados e ferramentas de inteligência artificial pode tornar a agricultura de precisão mais eficiente e reduzir custos com amostragem. A avaliação foi feita pelo professor do Departamento de Ciência do Solo da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), Raul Roberto Poppiel, durante a palestra "Inovações e aplicações da pedometria para a agricultura de precisão".

Ao abrir a apresentação, Poppiel esclareceu que não pretendia expor resultados específicos de pesquisas, mas provocar uma reflexão sobre a integração entre a ciência do solo e a agricultura de precisão. "O Brasil reúne um conjunto expressivo de informações sobre solos, incluindo uma biblioteca com mais de 80 mil espectros, além de bancos de dados de perfis e mapas, imagens de satélites e ferramentas de aprendizado de máquina que evoluem continuamente", lembrou.

Apesar desse potencial, o pesquisador observou que a realidade das propriedades rurais ainda está distante do aproveitamento pleno dessas tecnologias. De acordo com Poppiel, a prática predominante continua sendo a amostragem em grades fixas, enquanto as recomendações de manejo permanecem, em muitos casos, uniformes ou limitadas ao nível do talhão. "Grande parte das informações disponíveis deixa de ser utilizada, e o solo ainda é tratado como uma "caixa-preta", sem considerar adequadamente as diferenças existentes ao longo do perfil", constatou.

Nesse contexto, o professor chamou a atenção para a importância do planejamento da amostragem. "A amostra de solo mais cara é aquela coletada sem um propósito ou planejamento claro", afirmou. Segundo ele, qualquer coleta realizada sem fundamentação técnica representa desperdício de tempo e de recursos.

Durante a palestra, Poppiel explicou o conceito de pedometria, área que reúne métodos quantitativos para medir, caracterizar e mapear os solos. "Essa abordagem integra medições obtidas por sensores em campo, análises laboratoriais, dados geoespaciais, imagens de satélite e algoritmos computacionais, incluindo modelos estatísticos e redes neurais, permitindo uma compreensão mais detalhada da variabilidade dos solos", relatou.

Na sequência, o pesquisador apresentou aspectos técnicos do funcionamento dos sensores empregados na caracterização dos solos, explicou como esses equipamentos identificam atributos físicos e químicos das áreas avaliadas e abordou as principais técnicas utilizadas na amostragem de solo.

Ao encerrar a apresentação, Poppiel reforçou que o avanço da pedometria na agricultura de precisão não depende do aumento do número de amostras coletadas, mas da utilização mais inteligente e integrada dos dados já disponíveis, tanto em bases regionais quanto nas informações produzidas dentro das próprias propriedades rurais. 

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