Ácaro-rajado entra em diapausa em regiões tropicais do Brasil

Estudo da Esalq identifica suspensão da reprodução e alterações metabólicas em populações de quatro estados

23.10.2026 | 11:04 (UTC -3)
Revista Cultivar
Foto: Merle Shepard, Gerald R Carner e P A C Ooi / Clemson University - Bugwood
Foto: Merle Shepard, Gerald R Carner e P A C Ooi / Clemson University - Bugwood

Pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz confirmaram a ocorrência de diapausa reprodutiva em populações do ácaro-rajado (Tetranychus urticae) de regiões tropicais do Brasil. O fenômeno interrompe a postura de ovos, modifica o metabolismo e pode dificultar o controle da praga. Seu estudo analisou populações coletadas em cinco estados, quatro em regiões tropicais e um em região subtropical. E identificou características de diapausa nas quatro populações tropicais.

A diapausa permite aos artrópodes enfrentar condições desfavoráveis por meio da redução da atividade fisiológica. Em populações de Tetranychus urticae de clima temperado, dias curtos e temperaturas baixas costumam desencadear o processo. A pesquisa encontrou fêmeas em diapausa também em áreas com temperaturas e fotoperíodos diferentes dessas condições clássicas.

Exemplares coletados

Os cientistas coletaram exemplares em mamoeiros de Montanha, no Espírito Santo; feijão-de-porco de Piracicaba, em São Paulo; framboeseiras de Maria da Fé, em Minas Gerais; algodoeiros de Primavera do Leste, em Mato Grosso; e morangueiros de Lajeado, no Rio Grande do Sul. As coletas ocorreram entre 2023 e 2024. Fêmeas em diapausa apareceram nas amostras dos quatro primeiros estados. A população gaúcha, a única de região subtropical, não apresentou o fenômeno no período analisado. Ela foi coletada no inverno, com temperatura média de 15,4 graus Celsius e 10 horas diárias de luz, condições mais próximas das associadas à diapausa em clima temperado.

As fêmeas em diapausa exibiram coloração vermelho-alaranjada, em contraste com a tonalidade esverdeada dos indivíduos ativos. A análise microscópica também revelou o desaparecimento de pequenas projeções nas estrias dorsais do tegumento, outra característica associada ao processo. A confirmação incluiu ensaios de oviposição realizados em laboratório.

Nenhuma fêmea com características de diapausa depositou ovos durante o período de observação, de até 14 dias. As fêmeas sem essas características realizaram postura. Os pesquisadores observaram a retomada da reprodução após a recuperação da coloração esverdeada. Os ensaios envolveram avaliações em grupos nas populações de quatro estados e testes individuais com exemplares do Espírito Santo.

A população capixaba também permitiu observar a persistência do fenômeno. A criação foi mantida a aproximadamente 25 graus Celsius, umidade relativa de 70% e 12 horas diárias de luz. Nessas condições, novas fêmeas com características de diapausa continuaram a surgir ao longo de sucessivas gerações, em frequências variáveis e independentemente da estação do ano. A ocorrência persistiu mesmo após a transferência dos ácaros do mamoeiro para o feijão-de-porco.

Análise metabólica

Na análise metabólica, os pesquisadores compararam fêmeas em diapausa e fêmeas ativas da criação do Espírito Santo, mantidas sob as mesmas condições. A cromatografia gasosa associada à espectrometria de massas identificou 73 metabólitos. Desse total, 53 ocorreram em ambos os grupos, três apareceram apenas nas fêmeas em diapausa e 17 apenas nas fêmeas sem diapausa.

Os compostos exclusivos das fêmeas em diapausa foram 1-desoxipentitol, ciclo-ornitina e ácido glucárico. A abundância relativa de inositol nessas fêmeas foi 2,44 vezes maior que a observada no grupo ativo. Segundo os pesquisadores, o 1-desoxipentitol e o aumento de inositol sugerem ajustes no metabolismo de polióis. Esses compostos estão associados à proteção celular e à manutenção do equilíbrio osmótico diante de condições de estresse. O padrão difere do acúmulo acentuado de compostos crioprotetores observado em populações de regiões frias.

O fitol, composto derivado da clorofila, apresentou abundância relativa aproximadamente 21,6 vezes menor nas fêmeas em diapausa. Outros metabólitos de origem vegetal, como neofitadieno e ácido galacturônico, apareceram apenas nos indivíduos ativos. Segundo os pesquisadores, esse padrão sugere redução da alimentação durante a diapausa, embora o consumo de alimento não tenha sido medido diretamente.

Redução da exposição

A interrupção ou diminuição da alimentação, somada à busca por abrigo nas folhas, pode reduzir a exposição dos ácaros aos acaricidas. Produtos de contato podem alcançar menos indivíduos protegidos, enquanto ingredientes ativos dependentes da ingestão podem perder oportunidades de atuação. O trabalho aponta a necessidade de considerar a diapausa nas estratégias de monitoramento e manejo integrado.

Os fatores responsáveis pela indução da diapausa nas regiões tropicais permanecem desconhecidos. Em Minas Gerais, a temperatura média de 13,5 graus Celsius e o fotoperíodo de cerca de 11 horas de luz no período de coleta poderiam favorecer o fenômeno. Já no Espírito Santo, em São Paulo e em Mato Grosso, as condições ambientais diferiam das normalmente associadas à diapausa. Os pesquisadores não testaram sistematicamente os limites de temperatura e fotoperíodo de cada população nem descartaram a influência de práticas de manejo agrícola (doi 10.3390/insects17101073).

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