Trichopria drosophilae

29.09.2026 | 07:56 (UTC -3)
Foto: Karl Magnacca / iNaturalist - CC by-nc 4.0
Foto: Karl Magnacca / iNaturalist - CC by-nc 4.0

Descrita em 1910 a partir de exemplares do Havaí, Trichopria drosophilae é uma microvespa cosmopolita que se desenvolve dentro das pupas de drosofilídeos. Ela é uma das poucas espécies nativas das áreas invadidas por Drosophila suzukii capazes de parasitar a praga com regularidade, já que os parasitoides larvais locais não superam a defesa imune da mosca. Somam-se a isso a atividade em temperaturas amenas e a disponibilidade comercial na Europa, o que faz desse diapriídeo um dos agentes mais estudados para liberações contra a drosófila-da-asa-manchada.

Não há nome vulgar consolidado em português para Trichopria drosophilae. A literatura a trata como parasitoide pupal de drosófilas, em inglês como pupal parasitoid of spotted wing drosophila, e no mercado europeu de agentes biológicos ela é vendida simplesmente como "Trichopria".

Na classificação, Trichopria drosophilae pertence a Animalia, Arthropoda, Insecta, Hymenoptera, superfamília Diaprioidea (antes incluída em Proctotrupoidea), família Diapriidae, subfamília Diapriinae, gênero Trichopria. Perkins a descreveu na Fauna Hawaiiensis, com material de Oahu, no Havaí, na combinação Diapria drosophilae; Kieffer, no volume de Diapriidae do Das Tierreich (1916), transferiu-a para Trichopria, e o catálogo de Fouts (1936) a registra no subgênero Planopria. Hoje a identidade da espécie se apoia também em dados moleculares: o genoma mitocondrial de uma população chinesa tem 16.375 pb e se agrupa filogeneticamente com Ismarus sp., e novos registros na China combinaram morfologia e sequências de COI. Como populações da Califórnia, Coreia do Sul, China e Europa diferem em atributos reprodutivos, convém caracterizar a linhagem usada em cada programa de liberação.

Na biologia, Trichopria drosophilae é endoparasitoide solitário e idiobionte de pupas de drosofilídeos frugívoros. A fêmea deposita um ovo na hemocele da pupa recém-formada, a larva consome o hospedeiro, empupa dentro do pupário e o adulto sai por um orifício circular aberto com as mandíbulas. A 25 °C, o ciclo ovo–adulto leva de 17 a 20 dias. A reprodução é haplodiploide, e fêmeas não acasaladas também deixam prole. As fêmeas emergem com muitos ovos maduros, e a longevidade varia com a população e com o acesso a hospedeiros: numa população do leste da China, a 25 °C, fêmeas viveram em média 22,4 dias e machos 26,45. A qualidade do hospedeiro altera a razão sexual: vespas vindas de Drosophila hydei geraram cerca de 82% de filhas, contra 61% nas vindas de Drosophila melanogaster.

A bionomia é marcada por ampla tolerância térmica. A 30 °C o desenvolvimento se completa em cerca de 19,7 dias; a 33 °C os adultos sobrevivem, mas não deixam prole; 37 °C mata em poucas horas. Estudo chinês com exposições curtas situou a faixa adequada entre cerca de 7 e 30 °C, o que permite atuação no início da primavera e no outono, quando as primeiras gerações de Drosophila suzukii se recompõem após o inverno. Os adultos dependem de açúcares, e flores e frutos prolongam sua sobrevivência; sem alimento a mortalidade sobe, embora a espécie tolere jejum prolongado. Na busca do hospedeiro, as fêmeas respondem a voláteis de frutos infestados, como acetato de etila, acetato de isoamila e benzaldeído, e exploram pupas no fruto e no solo.

Na ecologia, a espécie é cosmopolita e generalista dentro de Drosophilidae, com registros no Havaí, nos Estados Unidos, no México, na Itália, na Eslovênia e na China, entre outros países. Nas áreas invadidas por Drosophila suzukii, os parasitoides larvais locais em geral não completam o desenvolvimento por causa da defesa imune da mosca, e só os parasitoides pupais Trichopria drosophilae e Pachycrepoideus vindemiae atacam a praga com regularidade; na Califórnia, o diapriídeo predominou no litoral e o pteromalídeo, no interior, e em áreas verdes urbanas de Nanjing ambos foram os inimigos naturais dominantes de drosofilídeos. Há preferência por pupas de Drosophila suzukii frente às de Drosophila melanogaster, independente do volume pupal, e em testes de escolha a vespa gerou proporcionalmente mais filhas em Drosophila suzukii do que em Drosophila melanogaster e Drosophila immigrans. Vegetação espontânea e frutos silvestres funcionam como refúgios tanto da praga quanto do parasitoide.

No controle de Drosophila suzukii, a espécie é tida como a candidata mais promissora para liberações aumentativas e já é comercializada. A italiana Bioplanet vende embalagens de 500 ou 5.000 indivíduos e recomenda de 3 a 6 liberações, a intervalos de 1 a 3 semanas, desde o fim do inverno, com 3 a 5 mil vespas por hectare por safra na estratégia inoculativa e 30 a 50 mil na aumentativa, inclusive em áreas não cultivadas no entorno. A criação massal usa Drosophila melanogaster, e manter a criação nesse hospedeiro por cerca de 30 gerações não comprometeu o desempenho sobre a praga. No México, levantamentos com armadilhas recuperaram centenas de exemplares da espécie, o que sustentou liberações com populações locais. A integração com inseticidas pede cautela: lambda-cialotrina e imidacloprido foram classificados como de risco médio para adultos, e resíduos de vários ingredientes ativos reduziram a emergência da geração seguinte (doi 10.3390/insects15110910); doses subletais de ciantraniliprole e dimetoato também reduziram o sucesso do parasitismo e a prole (Lisi et al., 2023, Pest Management Science). No sul do Brasil, amora-preta e morango infestados forneceram o congênere nativo Trichopria anastrephae, candidato local; o uso de linhagens exóticas de Trichopria drosophilae exigiria análise de risco e quarentena.

Wang, Kaçar, Biondi e Daane (2016, BioControl 61: 387–397) estudaram uma população californiana: fêmeas emergem com cerca de 47,6 ovos maduros, não distinguem pupas de 1 a 4 dias e se desenvolvem melhor em Drosophila suzukii do que em Drosophila melanogaster, originando fêmeas maiores (doi 10.1007/s10526-016-9720-9).

Rossi Stacconi e colaboradores (2018, Biological Control 117: 188–196) liberaram vespas comerciais na Itália e observaram parasitismo a até 40 m do ponto de liberação e menor emergência da praga num raio de 10 m em sete de oito locais; em semicampo, as liberações reduziram a emergência a partir de frutos caídos (doi 10.1016/j.biocontrol.2017.11.013).

Rossi Stacconi, Grassi, Ioriatti e Anfora (2019, BioControl 64: 9–19) liberaram o parasitoide entre o fim de março e abril, contra as primeiras gerações da praga, e obtiveram maior parasitismo e queda de 34% na infestação de frutos da vegetação não manejada vizinha aos pomares (doi 10.1007/s10526-018-09914-0).

González-Cabrera e colaboradores (2019, Neotropical Entomology 48: 949–956) compararam, em berries de Colima e Jalisco, no México, liberações de Trichopria drosophilae isolada ou com Leptopilina boulardi: o parasitismo pelo diapriídeo quadruplicou e a praga caiu 50% e 55%, respectivamente, o que torna a liberação isolada mais custo-efetiva (doi 10.1007/s13744-019-00707-3)/

Wolf, Boycheva-Woltering, Romeis e Collatz (2020, Journal of Pest Science) expuseram à vespa pupas da praga criadas em sete frutos silvestres comuns na Europa: o parasitoide reduziu significativamente a praga em todos eles, com desenvolvimento afetado pela espécie de fruto e pelo tamanho e teor nutricional da pupa; em olfatômetro, as fêmeas preferiram frutos infestados, exceto em Rhamnus cathartica e Viscum album (doi 10.1007/s10340-019-01180-y).

Colombari, Tonina, Battisti e Mori (2020, Journal of Insect Science 20(3): 9) testaram adultos comerciais entre 4 e 20 °C: fêmeas viveram mais que machos, a sobrevivência foi máxima entre 8 e 12 °C com alimento e o parasitismo cresceu até 20 °C (doi 10.1093/jisesa/ieaa039).

Yi e colaboradores (2020, Insects 11: 103) descreveram uma população do sul da China com 134,3 descendentes por fêmea acasalada, sobrevivência de 37,9 dias com hospedeiros e 71,6 sem eles, e preferência por Drosophila suzukii em teste de escolha (doi 10.3390/insects11020103).

Baser e colaboradores (2025, Insects 16: 715) verificaram, em cerejais da Apúlia, que o parasitismo da vespa liberada ficou restrito ao período pós-liberação e que, em laboratório, a coexistência com Pachycrepoideus vindemiae reduziu seu parasitismo e sua prole, o que pode explicar o baixo estabelecimento (doi 10.3390/insects16070715).

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