Scaptocoris castanea Perty é um inseto de solo da família Cydnidae que suga raízes de grandes culturas e pastagens na América do Sul. Em catálogos internacionais, como ITIS e GBIF, o mesmo táxon aparece grafado Scaptocoris castaneus, variação de concordância de gênero que convive na literatura sem alterar a identidade da espécie.
No Brasil, os nomes comuns são percevejo-castanho, percevejo-castanho-da-raiz e percevejo-castanho-das-raízes, alusão à coloração do adulto e ao hábito radicícola. Na literatura em inglês, a espécie é chamada de brown root stink bug, brown burrower bug ou simplesmente burrower bug.
O nome popular não é exclusivo. Ele também designa Scaptocoris carvalhoi e Scaptocoris buckupi, que ocorrem nas mesmas regiões e às vezes nas mesmas áreas, de modo que a identificação segura exige exame de adultos por especialista.
Taxonomia e histórico
Scaptocoris castanea pertence a Insecta, Hemiptera, Heteroptera, Pentatomoidea, Cydnidae, subfamília Cephalocteinae, tribo Scaptocorini. É a espécie-tipo do gênero Scaptocoris, fixada por monotipia.
Perty descreveu gênero e espécie no Delectus animalium articulatorum, obra sobre os artrópodes coletados por Spix e Martius no Brasil entre 1817 e 1820. A obra saiu em fascículos de 1830 a 1834, e o gênero está na página 165, em parte datada de 1833. Por isso a autoria aparece ora como Perty, 1830, ora como Perty, 1833.
Froeschner (1960) tratou o grupo como subfamília Scaptocorinae, na revisão dos Cydnidae do hemisfério ocidental. Becker (1967) revisou os Scaptocorinae neotropicais, criou Atarsocoris para Scaptocoris giselleae e descreveu Scaptocoris buckupi e Scaptocoris carvalhoi (Becker, 1967). Com Lis (1999), o grupo passou a tribo Scaptocorini dentro de Cephalocteinae.
Em 1996, Becker descreveu Atarsocoris brachiariae, praga de braquiária em Mato Grosso, com um quadro de caracteres para separá-la de Scaptocoris castanea. Grazia, Schwertner e Silva (2004) sinonimizaram essa espécie com Scaptocoris carvalhoi, o que obriga a reler com cautela os registros de pragas de pastagem anteriores a essa data.
Biologia
O adulto de Scaptocoris castanea tem porte médio, entre 5 e 10 mm, e coloração que vai do âmbar-amarelado ao castanho-escuro. Como os demais Cephalocteinae, tem corpo convexo, tíbias modificadas para escavar e tarsos reduzidos ou ausentes, adaptações a uma vida inteiramente subterrânea.
O desenvolvimento é hemimetábolo, com ovo, cinco ínstares ninfais e adulto, todos no solo. Segundo Oliveira e Malaguido (2004), o período de ovo a adulto dura de cinco a seis meses, a fase adulta cerca de cinco meses, e ocorrem duas gerações por ano.
Ninfas e adultos sugam seiva das raízes. O sistema salivar tem um par de glândulas principais bilobadas e um par de glândulas acessórias tubulares, que produzem saliva proteica e sustentam a digestão extraoral (Cossolin et al., 2019).
O intestino médio tem cinco ventrículos. Nas fêmeas, o quinto ventrículo forma um bacteriócito dominado por gamaproteobactérias, que abriga também bactérias do gênero Wolbachia; nos machos, essa região é reduzida e sem bactérias intracelulares (Cossolin, 2019). A hipótese é que os simbiontes forneçam aminoácidos essenciais e vitaminas que a seiva não supre.
A espécie tem duas defesas conhecidas: odor forte liberado pelas glândulas metatorácicas e estridulação. O som nasce do atrito de uma veia da asa posterior com um plectro nos tergitos abdominais, difere entre sexos e se propaga no solo apenas a curta distância.
Bionomia
A umidade do solo governa o comportamento de Scaptocoris castanea. Na estação chuvosa, ninfas e adultos sobem para as camadas superficiais; na seca, descem no perfil e permanecem ali até o retorno das chuvas.
Em Sapezal (MT), Oliveira e Malaguido (2004) encontraram o pico de adultos em dezembro e todos os estágios até 1,2 m de profundidade. Ao longo do ano, 77% da população ficou acima de 60 cm, mas de maio a outubro mais de 60% estava abaixo de 30 cm. Em Cândido Mota (SP), entre julho e setembro, os insetos não passaram de 70 cm.
Em Mato Grosso do Sul, Ávila, Xavier e Santos (2016) registraram dois picos anuais, em janeiro e setembro, e correlação positiva entre chuva e número de insetos (r = 0,58). Naquela área, a população ficou restrita aos primeiros 45 cm durante todo o ano.
A dispersão entre áreas ocorre por revoadas no fim da estação chuvosa, de fevereiro a abril. Mais de 85% dos insetos capturados em voo eram fêmeas, que já haviam copulado e tinham óvulos formados, aptas a colonizar novas lavouras (Souza et al., 2019).
No campo, o ataque se organiza em reboleiras, focos que vão de poucos metros a vários hectares. Os surtos são descontínuos de um ano para outro, o que dificulta prever onde o problema voltará a aparecer.
Ecologia
Scaptocoris castanea é amplamente distribuída na América do Sul, com registros do Brasil à Argentina, onde já foi relatada em alfafa (Medicago sativa). Na América do Norte há apenas dois registros isolados, feitos nos Estados Unidos há mais de 40 anos.
A espécie é polífaga. No Brasil ataca soja (Glycine max), algodão (Gossypium hirsutum), milho (Zea mays), cana-de-açúcar (Saccharum officinarum), arroz (Oryza sativa), amendoim (Arachis hypogaea), feijão (Phaseolus vulgaris) e fumo (Nicotiana tabacum). Em pastagens, ocorre em Cynodon dactylon e Urochloa decumbens (Costa e Forti, 1993).
A sensibilidade varia entre hospedeiros. Em casa de vegetação, 28 dias após a infestação com 25 ninfas por planta, algodão, soja e milho ficaram 31%, 16% e 6% mais baixos que as testemunhas (Oliveira et al., 2006). O algodoeiro foi o mais sensível desde o início do desenvolvimento.
O histórico de uso do solo pesa na abundância. Em áreas de reforma de pastagem no Paraná, a proporção de percevejos na macrofauna foi maior no primeiro ano de soja após o pasto. Em integração lavoura-pecuária, parcelas mantidas com Urochloa decumbens tiveram as menores densidades (Pereira et al., 2012).
Scaptocoris castanea foi encontrada em Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo e Paraná, às vezes junto a Scaptocoris carvalhoi ou Scaptocoris buckupi em plantas vizinhas. Fungos como Metarhizium anisopliae e Beauveria bassiana estão entre os inimigos naturais registrados.
A modelagem de nicho indica áreas climaticamente favoráveis ainda sem registro, como Bolívia, Paraguai, Peru, Equador, México e América Central (Minghetti et al., 2024).
Controle
O controle de Scaptocoris castanea é difícil porque a praga vive no solo e se aprofunda na seca. A janela mais favorável vai de novembro a meados de março, quando a população está próxima da superfície e mais exposta a qualquer medida aplicada no sulco.
O monitoramento depende de amostragem de solo em camadas, com mapeamento das reboleiras e registro das chuvas. Áreas com histórico de surto e de reforma de pastagem merecem atenção maior, sobretudo antes do plantio de algodão.
O controle químico é feito via tratamento de sementes ou aplicação no sulco de semeadura, mas a eficiência tem sido baixa. Em ensaio em Goiás, com 145 percevejos por metro linear, nenhum tratamento reduziu a população aos 14 ou 26 dias; enxofre a 30 kg/ha e um tratamento de sementes protegeram o estande só nas duas primeiras semanas (Oliveira et al., 2006).
O efeito repelente do enxofre, sugerido em campo com 50 kg/ha, não se confirmou em casa de vegetação com doses de 25 a 75 kg/ha. O manejo cultural, por sua vez, tem dado resultados mais claros.
Em Santa Helena de Goiás, o algodão semeado após Urochloa ruziziensis teve 819,6 percevejos por m³ de solo, contra 124,3 após Crotalaria ochroleuca e 152,9 após Crotalaria spectabilis. Sorghum bicolor e Pennisetum glaucum também mantiveram populações altas, e o consórcio da braquiária com crotalárias reduziu a infestação (Miranda et al., 2022).
No controle biológico, Metarhizium anisopliae superou 60% de eficiência em bioensaios, contra menos de 40% para Beauveria bassiana, embora nenhum fungo tenha sido eficiente nos primeiros testes de campo. Hoje há bioinseticidas à base de Metarhizium anisopliae, isolado IBCB 425, registrados para a espécie, em aplicação única de 1 a 2 L/ha no sulco de semeadura (Revista Cultivar).
Amostragens de dezembro de 1998 a maio de 2000 em lavouras de soja de Mato Grosso e São Paulo descreveram a flutuação e a distribuição vertical de Scaptocoris castanea. Em Sapezal, os adultos predominaram de dezembro a abril e as ninfas de último ínstar de junho a outubro, com insetos até 1,2 m; em Cândido Mota, a população não passou de 70 cm no inverno, concentrando-se entre 30 e 60 cm (doi 10.1590/S1519-566X2004000300002).
Foi registrado pela primeira vez Scaptocoris castanea atacando mudas de Azadirachta indica em Tupaciguara (MG), em dezembro de 2009. As plantas apresentaram amarelecimento, seca do caule e redução do sistema radicular; 31% das mudas atacadas morreram e as demais rebrotaram da base (doi 10.1590/S1519-566X2011000200022).
Estudo acompanhou a população da praga em integração lavoura-pecuária com milho e Urochloa decumbens em São José do Rio Preto (SP), de novembro de 2008 a abril de 2009. Amostras de 0,25 m² até 30 cm, estratificadas a cada 10 cm, mostraram as menores densidades nas parcelas mantidas como pastagem (doi 10.1007/s13744-012-0055-7).
Primeira descrição anatômica, histológica e ultraestrutural das glândulas salivares de Scaptocoris castanea. As glândulas principais são bilobadas e as acessórias, tubulares, desembocam no hilo; as células são ricas em retículo endoplasmático rugoso, a saliva é proteica e a glândula acessória tem células basais inéditas em Hemiptera (doi 10.1017/S1431927619015010).
Coletas com rede aérea e no solo, em soja e algodão por duas safras, caracterizaram as revoadas da espécie. Os voos ocorreram entre fevereiro e abril, ligados ao fim das chuvas; mais de 85% dos insetos em voo eram fêmeas com esperma na espermateca e óvulos formados (doi 10.12741/ebrasilis.v12i1.794).
Ensaio comparou 18 coberturas antecessoras do algodão em Santa Helena de Goiás, na safra 2014/2015, com amostragens de solo até 40 cm. Crotalaria juncea, Crotalaria ochroleuca e Crotalaria spectabilis suprimiram a praga, Urochloa ruziziensis a manteve; o algodão ficou mais baixo após braquiária, sorgo e milheto, sem diferença de produtividade, e a população acompanhou as chuvas até desaparecer das amostras no início de abril (doi 10.1590/S1678-3921.pab2022.v57.02939).
Trabalho descreveu e ilustrou pela primeira vez a ninfa de quinto ínstar de Scaptocoris castanea, base para identificar imaturos em amostras de solo. A modelagem de nicho ecológico apontou áreas de risco em dez países da América Latina e mostrou que a expansão nas próximas duas décadas depende da capacidade da espécie de se adaptar a climas novos (doi 10.11646/jihs.1.4.5).