Eutinobothrus brasiliensis

14.10.2026 | 10:45 (UTC -3)

Eutinobothrus brasiliensis (Hambleton, 1937) é um gorgulho da família Curculionidae e praga inicial do algodoeiro. No Brasil, a espécie é chamada de broca-da-raiz, broca-da-raiz-do-algodoeiro ou broca-do-algodoeiro. Na Argentina, é a broca del algodonero. Em inglês, aparece como cotton root borer, cotton stem borer ou Brazilian cotton borer. O código EPPO da espécie é EUTIBR.

Taxonomia e histórico

Eutinobothrus brasiliensis pertence à ordem Coleoptera, superfamília Curculionoidea, família Curculionidae, subfamília Cryptorhynchinae e tribo Cryptorhynchini (SiBBr). A praga é antiga no Nordeste: a "broca" do algodoeiro registrada pelo naturalista Manuel Arruda da Câmara no fim do século XVIII é atribuída hoje a essa espécie (Almeida et al., 2011).

A descrição formal veio em 1937, quando Hambleton a nomeou Gasterocercodes brasiliensis. Até então, as populações brasileiras eram identificadas como Gasterocercodes gossypii, descrita por Pierce em 1915 no Peru. O nome antigo sobreviveu na literatura de inimigos naturais: Heterospilus hambletoni Muesebeck, 1937 foi descrito como parasitoide de "Gasterocercodes gossypii" no Brasil.

Gasterocercodes Pierce passou depois à sinonímia de Eutinobothrus Faust (ALA), e catálogos atribuem a Costa Lima a combinação atual. Entre os congêneres estão Eutinobothrus gossypii (Pierce, 1915), praga do algodoeiro no Peru, Eutinobothrus puncticollis Hustache, 1924, Eutinobothrus denticulatus Hustache, 1924, e Eutinobothrus pilosellus Faust (EPPO).

Biologia

Eutinobothrus brasiliensis é holometábolo, e todo o desenvolvimento imaturo transcorre dentro da planta. O adulto mede cerca de 5 mm e tem coloração castanha a pardo-escura, com élitros percorridos por estrias longitudinais (Embrapa, 2004). Recém-formado, mostra élitros pardo-claros e cabeça e tórax mais escuros; maduro, fica inteiramente negro.

A fêmea abre com as mandíbulas uma cavidade na casca do colo, rente ao solo, e deposita um único ovo de cerca de 0,6 mm. Põe cerca de um ovo por dia, em pontos diferentes da planta, durante até 150 dias.

A larva eclode em 6 a 10 dias. É ápoda, branco-creme, de cabeça parda, e mede de 5 a 7 mm no último dos cinco ínstares. A fase larval dura cerca de 60 dias, em galerias no colo e na raiz principal. A fase de pupa, de cerca de 15 dias, ocorre numa câmara no caule vedada com excrementos e serragem.

O adulto fica uns 10 dias no interior do caule antes de sair, por isso é comum encontrá-lo ao abrir hastes atacadas. Na Argentina, o ciclo de ovo a adulto leva de 70 a 75 dias, com até quatro gerações por safra, e o adulto vive cerca de 200 dias.

Bionomia

Eutinobothrus brasiliensis é praga inicial, entre os primeiros insetos a aparecer no algodoal. Em São Paulo, o primeiro registro data de 1905, mas a espécie só ganhou peso econômico a partir da safra 1930/31 (Pacheco et al., 1995). Os adultos são noturnos e passam o dia em fendas. Na entressafra, sobrevivem em restos de cultura, em bordas não trabalhadas, como cercas e matas, e na palha do plantio direto. As fêmeas colonizam as primeiras semeaduras ou a própria soqueira, e na Argentina a postura vai de setembro a maio.

Os hospedeiros cultivados principais são o algodoeiro, herbáceo e arbóreo, e o quiabeiro, Abelmoschus esculentus (Pacheco et al., 1995). A paineira, Ceiba speciosa, também consta entre as plantas atacadas.

A larva escava galerias na região do câmbio do colo e da raiz principal e secciona os vasos, interrompendo o fluxo de seiva. A planta para de crescer, as folhas passam de verde-escuro a amarelo-avermelhado, murcham e secam, e o colo engrossa. Ataques nos primeiros 60 a 70 dias após a emergência costumam matar a planta; depois disso, ela segue verde e pode produzir quase normalmente. Como os sintomas surgem após o desbaste, essa operação pode eliminar plantas sadias e manter as atacadas.

Ecologia

Eutinobothrus brasiliensis é neotropical e ocorre de forma ampla no Brasil, no Paraguai e na Argentina. Na Argentina, ocorre no Chaco, em Santiago del Estero e em Santa Fé, e foi registrada como praga nova em Córdoba em 1991 (Sedran et al., 1991).

Os surtos se associam a solos úmidos, áreas de baixada, algodão após algodão, plantio direto e lavouras sem destruição de restos culturais (Embrapa, 2004). Invernos e primaveras chuvosos antecedem as infestações mais altas na Argentina. Em Tietê, SP, a precipitação e o tipo de solo alteraram a intensidade dos danos (Parra, 1972).

A distribuição no talhão segue um gradiente da borda para o centro. No início da safra, os adultos migram de refúgios úmidos com vegetação permanente para o algodoal, e as semeaduras precoces sofrem as maiores infestações (Santos et al., 1989).

Entre os inimigos naturais estão bracônidos do gênero Heterospilus, como Heterospilus hambletoni, parasitoides de larvas no caule. O nematoide Heterorhabditis hambletoni, descrito por Pereira em 1937 a partir de larvas da broca, foi o primeiro nematoide entomopatogênico relatado no Brasil, mas hoje é tratado como species inquirenda (Dolinski et al., 2017).

Controle

O controle de Eutinobothrus brasiliensis é sobretudo preventivo, porque a larva fica protegida dentro do caule. A medida central é destruir as soqueiras logo após a colheita. Completam o manejo a rotação de culturas, evitar algodão após algodão e baixadas úmidas, e conduzir o desbaste sem eliminar plantas sadias (Embrapa, 2004). No Paraná, retardar a semeadura reduziu a mortalidade de plantas, e populações de nove a dez plantas por metro atenuaram as perdas (Santos et al., 1989).

O controle químico dependeu por décadas de clorados como aldrin, heptacloro, dieldrin e canfeno clorado, até o registro de resistência e a proibição do grupo. Vieram depois os fosforados, o tratamento de sementes com sistêmicos, os granulados no sulco e, em áreas muito infestadas, pulverizações nos primeiros 35 dias da cultura. Muitos ingredientes ativos testados até os anos 1990 já não têm registro no Brasil, e a escolha atual deve partir do Agrofit, com rotação de modos de ação.

A resistência varietal foi avaliada em linhagens do IAC (Parra, 1972) e em tipos de algodoeiro arbóreo no Nordeste (Freire et al., 1982). Não há agente biológico comercial para a espécie, e parasitoides do gênero Heterospilus e nematoides entomopatogênicos seguem como recursos a explorar.

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